Adeus aos meus vizinhos

JN 2007-07-12

O jovem casal meu vizinho foi-se embora para Lisboa. Custou-lhes. Ainda namorados, compraram o T2 dos seus projectos. Viraram-no do avesso. Desmancharam paredes e reconstruíram espaços até corresponderem à casa das revistas e às expectativas que tinham de futuro. Casaram. A Administração do Condomínio foi a etapa seguinte, no microcosmos da sua integração na vida activa.

Depois, como sucede a milhares de jovens licenciados, os empregos de que dispunham foram colapsando na crise do Porto e sua região. Agora partiram para onde as oportunidades – qualificadas – existem, se criam e oferecem na capital. Ainda tentaram manter a permanência, a meias, entre cá e lá, mas não era possível e foram-se, de vez, imigrantes forçados no caminho do exílio. Pelo emprego.

Esta é a desgraça, a tragédia, a asfixia nacional pela concentração, a absorção e a exaustão do país na acumulação de quase tudo na capital de um reino governado à sombra dos privilégios de minorias económicas e cliques políticas, cujo objectivo é engrandecer a cabeça da hidra chamada centralismo.

Os apetites concentracionários são problema antigo e razão principal de termos atravessado um século XIX de esbanjamento, uma ditadura de entorpecimento e uma democracia de oportunidades perdidas, cujo resultado é o enriquecimento de uma parcela do país que lucrou com todos os regimes. Qualquer um lhe serviu para engordar. E já na prosperidade da Expansão Portuguesa era assim. De tal modo que “no séc. XVI, era perfeitamente clara a grande proeminência de Lisboa relativamente a qualquer outra cidade do país.” (Armando de Castro, 1987)

À capital não convinha, de facto, distribuir atributos pelas regiões. Embora o rifoneiro diga que “Não há estômago um palmo maior que outro”, o de Lisboa começara a crescer e o seu ventre, usufruidor de benesses, triplicou. Sobre isto, quando havia tripeiros de cerviz não dobrada, escreveu Carlos de Passos (1919) “Cedo começou o díspar e néscio favoritismo por Lisboa, terra que só tem servido a sugar avidamente, famulentemente as forças do país em violento contraste com os sacrifícios e serviços ilustríssimos, preciosíssimos da nobre cidade do Porto”.

Conveniências, interesses, conluios, compras e vendas de consciências, intrigas, urdiduras de negócios, libertinagem (e, durante a Ditadura, repressão), eis o âmago da política centralista. Para isso, “A Arcada, o velho ponto de reunião da malandrice nacional de todos os tempos, rugia, vermelha de raiva, quando o Porto, do alto dos seus tamancos e agitando a carapuça, pedia coisas, exigia reformas…” (Firmino Pereira, 1914).

Agora, como outrora, “À roda da Arcada funcionava o vasto e complicado mecanismo da política nacional.” E ai de quem se oponha a isso, pois “A tendência centralizadora da política estatal portuguesa e as resistências que ela provoca manifestam-se por vezes em situações tão dramáticas como as da intolerância inquisitorial ou do totalitarismo pombalino.” (José Mattoso, 1986)

O nosso infortúnio é que tal política, além de nos colocar na cauda, fez de nós o país mais injusto da Europa. Por quê? Pela patológica concentração de privilégios, investimentos e recursos e o desprezo pelo resto. Têm sido 150 anos de incompetência na gestão de um país – que devia ser equilibrado e desenvolvido -, de responsabilidade dos “esbanjadores de Lisboa” (Torga, 1956) e que até um homem da direita conservadora mas séria, como Carlos de Passos, denunciava em pleno Salazarismo (1935) “É tempo do Estado repartir com o Porto o que Lisboa come desmarcada e parasitariamente.”

E quando o Terreiro do Paço magnanimamente resolveu montar uma encenação crismada como “referendo da Regionalização”, vieram os mistificadores afirmar que ela “poria em causa a unidade nacional”, ou a “coesão da Pátria”. E falam da Pátria, os desavergonhados continuadores do Salazarismo, que, eles sim, desmembram o país, desunem-no, dividem-no entre regiões pobres e ricas.São os paladinos da administração pública e da gestão económica mais centralizada de todos os tempos!

Enquanto isso, no plano local, os responsáveis entretiveram-se com coisas grandiosas como nós rodoviários, rotundas, hipermercados, construção civil, cimento armado e políticas de campanário. Alimentaram visões paroquiais que impedem o desenvolvimento de um projecto metropolitano, dinâmico, audacioso, culto e inovador que coloque o Porto e a sua região na Europa a que pertence.

Uma região numa nova cidade de diversidades, oportunidades, contribuições, coerência, modernidade e tradição, e não de rivalidades tacanhas, incapazes de enfrentar o polvo esbanjador que, não contente com o CCB e a Expo, avança para a Ota e o TGV.

E por aqui me fico, com este sentimento de revolta por ver os meus jovens vizinhos partirem para a Capital.


 
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