Da Gente das Paixões Domingueiras

E então era domingo e a cidade afadigava-se de inesperados desafios e canseiras. Era domingo de manhã e, enquanto a humanidade dormia o sono dos justos e injustos, compensatório do ramarrão semanal ou das estúrdias dos sábados à noite , indiferentes ao cansaço, rotina, hábito, comodidade e conforto, os amadores dos desportos saíam à rua e iniciavam a função.

Amadores quer dizer, conforme os dicionárioa, amantes ou cultivadores de uma arte. ou seja, categoria dos que amam. E havia-os, na cidade, amando às centenas, aos milhares. Amavam o rio e o mar, e – sózinhos ou acompanhados – remavam, nadavam, water-polavam (que piscina era coisa rara, era luxo a que a gente das paixões domingueiras não podia dar-se), velejavam e pescavam, do amanhecer até à noitinha. Amavam jogar a bola em grupo, com as mãos, e, em tudo quanto era rectângulo de terra batida, cimento ou areia (que pavilhões abrigados da intempérie eram coisa rara, miragem, luxo a que as gentes das paixões domingueiras não podia dar-se), andebolavam, voleibolavam, basquetebolavam até à exaustão, até não poderem com uma gata pelo rabo. Amavam jogar à bola, em grupo, com os pés e, em tudo quanto era espaço saibrento (que relvados era coisa rara – só num ou noutro estádio-, miragem, luxo a que a gente das paixões domingueiras não podia dar-se), futebolavam (algumas vezes com designações bexigueiras como nos jogos entre solteiros e casados). Amavam jogar a bola, em grupo, de pau na mão, e sticavam nos mesmos saibros onde futebolavam ou nos cimentos onde basquetebolavam (que pavilhões, como já vimos, etc., etc. e pisos sintéticos, comoainda não vimos , mas sabemos, são coisa rara, miragem, luxo a que a gente das paixões domingueiras não podia dar-se). Amavam andar ao sol, à chuva, ao vento, a experimentar a força das pernas e dos braços, ao ar livre, no contacto com a Natureza e, em tudo quanto era mata, pinhal, praia, caminho, rua, estrada, corriam contra o vento, as horas, os minutos e contra si próprios antes de correrem contra outros (nas pistas de cinza, rarissímas, uma ou duas, da cidade, que pistas próprias e instalações como se viam nos documentários eram coisa rara, miragem, luxo a que a gente das paixões domingueiras não podia dar-se). Amavam pedalar nem que fosse em cima de chaços pré-históricos a que chamávamos pasteleiras (que velocípedes super-sofisticados, dignos de viagem espacial e pesando menos que o saco do farnel, era miragem que ainda estava para descobrir), e esfalfavam-se, estrada e caminhos fora em circuitos, gincanas e passeios retemperadores do metabolismo e das gorduras do cozido à Portuguesa e do lombo assado.

Amadores. Todos irmanados num dos mais puros e autênticos significados da prática desportiva que, ao longo dos anos, fez palpitar corações anónimos, cultivadores desta forma evidente de cidadania, congregou esforços e motivou entusiasmos sem limites nem razões (ao menos as aparentes e agora quase exclusivas do prestígio pessoal, da factura financeira ou do interesse cada vez mais nacional e, até, multinacional). Dedicações e posturas expressas na fórmula: “dar o corpo ao manifesto e pagar por cima” (quer dizer, pagar as despesas das deslocações, dos almoços, inscrições e equipamentos).

Amadores. Competidores do mais estimulante desafio da luta contra o tempo e o espaço quenos cercam e separam do infinito (na simples e comezinha realidade da alegria, da paixão e da graça). Amadores de viver e de vencer – ou de perder. Aqui os recordo e homenageio o seu apego à causa da dignidade do desporto. Num mundo dominado pela cobiça do triunfo a todo o custo e a qualquer preço aqui os evoco, a propósito desta Corrida, nova tradição são-joaneira, cada vez mais portuense, fraterna e participativa.

Amadores. Gente de quem, segundo a frase preferida de meu pai – sessenta anos a amar e praticar os desportos mais desprotegidos do burgo -, citando Ramalho Ortigão, se poderia dizer, indistintamente de correrem, nadarem, remarem, saltarem, sprintarem ou rematarem à baliza (que o grande mar da apatia e da indiferença ou do seu reverso, a mais desenfreada cupidez, é o mesmo para todos): Remar é dizer ao Oceano, chega-te para trás que vai aqui um homem e é ver o Oceano obedecer.

Porto, em Maio de 1995

Helder Pacheco


 
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