Novo Livro 25-03-2019

•2019-03-18 • Comentários Desativados em Novo Livro 25-03-2019

Capa

Anúncios

A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

IMG_5327

O Barredo, 1958

•2019-06-10 • Comentários Desativados em O Barredo, 1958

NO BAIRRO DOS DUQUES

•2019-06-10 • Comentários Desativados em NO BAIRRO DOS DUQUES

Não é por falta de leis que o nosso património sofre tratos de polé. Entre 1919 (Dec.-Lei 5373) e 1976 (Dec.-Lei 613) foram publicados 25 Decretos sobre “Protecção do Património Monumental”. Contando os nacionais e internacionais, o país deve ter assinado mais de uma centena de documentos contra o bota-abaixo dos lugares e o aviltamento de culturas.

O Porto é o protótipo da cidade oscilando entre a qualidade de projectos e a enormidade de destruições. Entre a atenção venerável por certos sítios e o absoluto desprezo por outros. Se nos lembrarmos que a Ribeira e o Barredo estiveram para ser arrasados, que uma estrada, construída sobre colunas, passaria por cima da Ribeira, e o Bairro da Sé foi várias vezes votado à demolição, vemos que não estamos numa cidade inocente na matéria. (A ferida aberta com a Av. da Ponte continua a assinalar a insensatez, o desprezo e a estupidez de que o Burgo – ou alguns por ele – também é capaz. E não se julgue apenas o passado.Em anos recentes duas belas casas do Bonjardim, das últimas tipicamente setecentistas, voaram numa noite ou quase…)

É por isso que, aproveitando a onda reabilitadora criada pelo facto de os promotores perceberem que lhes será lucrativa, algumas zonas da cidade, em vias de perdição, podem readquirir a sua dignidade e tornarem-se motivos de atracção exemplar. Como os quarteirões oitocentistas, a Sul e a Norte da Av. Rodrigues de Freitas, que representam muito da melhor arquitectura portuense e só por milagre não foram para o maneta. No Bairro dos Duques, que bela cidade se construiu e ali pode ressurgir.

©helderpacheco2019

BESTIÁRIO

•2019-06-10 • Comentários Desativados em BESTIÁRIO

Segundo os dicionários «bestiário» tem a ver, entre outras coisas, com bestas. Da família ainda existem hipóteses como bestice, bestiola (animalejo) e, especialmente, bestialidade.

Parte significativa destas categorias guia automóvel e, adaptando a definição a linguagem cara aos portuenses, podemos categorizar o andamento dos espécimes quando se deslocam na cidade (onde o limite de velocidade é de 50 km).

As referidas categorias circulam assim: as bestas na casa dos 80 km, as bestas quadradas entre os 80 e os 100 e a honra, o Óscar vai para as bestas cúbicas – o zénite de tal forma de ser. Para mal dos pecados de quem lá passeia ou circula, fugindo aos semáforos de Diogo Botelho, o bestiário motorizado opta pela Rua de Bartolomeu Velho. Fruto da expansão urbanística da Foz, para as quintas e pinhais que lá havia (que, de resto, seria inevitável), esta nova rua, tal como outras da zona tem vantagens para os aceleras: é comprida, rectilínea, bem asfaltada e com pouco trânsito. Quer dizer: excelente para fazer dela uma pista de fórmula I. Alguma bestice nela conduz a 100 e muitos mais quilómetros.

Para obviar a este terrorismo, a solução é a Ex.ma Câmara lá colocar sensores no pavimento que, ao passar um dito-cujo a mais de cem à hora, façam disparar uma barreira de pregos e assim travarem o ímpeto criminoso. O ideal será a barreira ser levantada numa zona de muros em betão, no fim da recta, onde as bestas baterão com força, desfazendo os bólidos e a eles próprios. Tal medida higiénica teria a vantagem de livrar a cidade de energúmenos que só estorvam e não fazem falta.

©helderpacheco2019

O DOURO, UMA OPORTUNIDADE

•2019-06-10 • Comentários Desativados em O DOURO, UMA OPORTUNIDADE

Parangonaram os jornais que um «autocarro anfíbio vai ligar Crestuma ao Cais de Gaia». Gosto de projectos que façam andar o mundo, farto dos que não atam nem desatam. A inovação é urgente e a modernidade não espera por nós. Vamos ver se este é mais um, ou se avança mesmo.

Uma frase do programa é a de que «O rio não é um obstáculo, é uma oportunidade.» Não é novidade: no passado já o rio tinha sido oportunidade. Nos anos quarenta, havia lanchas a motor de transporte de passageiros, que, desde Pé de Moura, Crestuma, Avintes, Oliveira do Douro traziam centenas de trabalhadores até à Ribeira do Porto. Uma, era a “Foz do Sousa”, outra a “Espinhaço”, mas o povo chamava-lhe «a badalhoca». Pontualíssimas, chegavam todas as 8 da manhã e as pessoas iam à vida.

Em 5 de Abril de 1950, um erro do piloto e o nevoeiro fizeram a “Foz do Sousa” embater no pontão da Quinta da Vinha e afundar-se, causando 16 mortos e 10 desaparecidos. O acidente provocou a maior emoção e levou à extinção de tão eficaz meio de transporte. Há anos um administrador da STCP falou-me no projecto de criar carreiras fluviais, com embarcações modernas, que evitassem (é ter visão) centenas de automóveis vindos de Gaia para o Porto. Além da comodidade, havendo na Ribeira transportes rápidos para o centro, teria talvez pernas para andar.

O Douro – salvo para os barcos turísticos – é oportunidade até agora esquecida e negligenciada por empreendedores com determinação à altura dos tempos que vivemos. E os desafios da mobilidade metropolitana não se resolvem com um autocarro anfíbio incluindo «tours».

©helderpacheco2019

SER PROFESSOR

•2019-06-10 • Comentários Desativados em SER PROFESSOR

Sem eles o país não seria o mesmo. Seria pior: com menos horizontes para ver longe através da ciência e da cultura. Sem eles, continuaríamos na cauda da Europa – e se ainda andamos por aí, em certos indicadores –, isso deve-se aos políticos que temos tido e não à classe de que estou a falar. A dos professores.

Eles constituem – do pré-escolar à Universidade – a profissão mais nobre, que nos pode fazer avançar rumo ao lugar a que temos direito (como diria Garrett) na “Balança da Europa”. Não falo de todos mas dos autênticos (e não têm que ser apóstolos, mas honrarem apenas a carreira escolhida). Nem falo dos turbo-professores, a venderem aulas. Nem da contagem do tempo de serviço (que abrange os talentosos e os a fingir), assunto de bom senso político para ser resolvido.

Venho falar de uma carta – casualmente encontrada – expressiva da dignidade da função docente. Escrita por um aluno à sua professora (hoje na casa dos 80 e esquecida: o mérito é algo que o M.E. não conhece, apenas rankings), é exemplo da nobreza de quem recorda a passagem pela sua vida de alguém que lhe deu sentido. Leiam: «Senhora Doutora (…): Eu vou-me embora para o 2.º ano, para nunca mais ser seu aluno, que já sei que você não vai ser minha professora e eu queria ser seu aluno e estar consigo. Tenho muita pena e parece que vou chorar e prometo ir sempre a visitar. Adeus e muitas saudades do seu querido aluno…»

Chama-se José Eugénio Pereira Monteiro e se, por acaso, ler esta crónica, contacte-me através do JN, que transmitirei a referência à sua antiga professora, que muito gostaria de o rever.

©helderpacheco2019

CIDADE DO MUNDO (1588)

•2019-06-10 • Comentários Desativados em CIDADE DO MUNDO (1588)

O impacto do turismo na cidade provoca reacções. Exaltantes e incondicionais ou considerando-o agente da perda do carácter do Porto. Com a reabilitação urbana, que o induziu, o «boom» turístico trouxe novo impulso económico e cultural ao desenvolvimento de uma urbe no limiar da decadência. Funcionou como motor de transformações que os portuenses devem analisar criticamente.

E assim se expressou uma leitora que, com amor ao Burgo, vê como a dinâmica turística pode afectar (se não houver políticas compatíveis dos interesses dos cidadãos com os do mercado) a essência da urbe.

Tratando-o por tu explica porque gosta do Porto, «inundado de gente que vem para te conhecer. Ver as tuas casas, antes degradadas, renovadas e ocupadas por gente que quer cá viver. Ver o teu centro, antes abandonado, fervilhando dia e noite com pessoas que passeiam pelas tuas ruas (…)» E afirma: «cresceste, amadureceste e és hoje uma cidade do mundo».

Mas não perde a perspectiva sobre as mudanças: «Uma cidade é acima de tudo as pessoas que nela vivem. São elas que te fazem, trabalham, sofrem e riem.» E salientando a irreverência dos portuenses que sempre lutaram pela liberdade e os ideais que configuraram a personalidade da Invicta, remata: «não os expulses das tuas entranhas, oferece-lhes condições para que se possam manter nas suas casas e se possam misturar com os que chegam.» E sublinha: «Serás assim a cidade de todos e não só de alguns.» Acrescento que esta tripeira deixou recentemente o Porto por encontrar do outro lado da Circunvalação melhores condições de habitabilidade.

©helderpacheco2019

GARRETTIANA

•2019-06-10 • Comentários Desativados em GARRETTIANA

Não é que eu seja mais esperto que os outros. Limito-me a observar o que se passa e elaborar um pensamento fundamentado sobre a cidade. Estudando o que diz quem sabe.

Por isso, só queria ter tantas notas de 1000 Euros quantas as vezes que falei em livros, artigos, conferências, aulas da necessidade de tornar pública a Casa de Garrett, como centro interpretativo da sua época e da sua obra. Não é que a casa tivesse valor histórico profundo na vida do escritor. Ali nasceu, em 1799, e pouco a utilizou. A infância passou-a nas casas do Castelo, ou do Sardão, em Gaia, e a juventude na Quinta da Boavista. Mas por ali ter nascido o maior vulto da cultura portuguesa, enorme portuense, fiel ao Burgo que o tratou aos pontapés por causa de lhe ter chamado «grande aldeão», a casa da Rua do Calvário merece respeito.

Em 1864 (dez anos depois da sua morte, em 1854), a Câmara nela resolveu colocar uma lápida de homenagem. E em sessão de 28.12.1889, a vereação municipal decidiu adquirir o edifício «para ali se estabelecer uma biblioteca de literatura contemporânea de Garrett» (AHMP, Actas, A.PUB F.52). Há 130 anos! Honra seja feita ao Município actual que, finalmente, resolvera (pelo que li) dar seguimento àquela decisão.

Causando-me suspeitas tal incêndio, daqui, simples indígena da Vitória, exorto o Municípo a não ceder ao terrorismo urbano, adquirindo finalmente a Casa de Garrett e avance com o projecto que para ela previra. O ter ardido talvez permita a um arquitecto hábil reconstruir o seu interior com a modernidade que o patrono encarnou no seu e em todos os tempos em Portugal.

©helderpacheco2019