•2020-07-04 • Comentários Desativados em

CAPA_SimplesmentePorto

A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

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IR À PÓVOA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Em 1872, foi presente à C.M.P. o projecto da linha do C.º Ferro do Porto à Póvoa. Passava pelo Carvalhido, seguia pela Rua do Rosário e terminava junto do Hotel do Louvre (perto do Carregal). Foi, obviamente, reprovado.

Em 1873 seria constituída a Companhia do Cº. F.º do Porto à Póvoa, com o sector da exploração entregue a Oliveira Martins. A Estação Central foi construída na Praça da Boavista e o entusiasmo pelo projecto foi tal que, iniciados os trabalhos em 2.9.73, a linha seria inaugurada em 2.10.75. Presidiu Fontes Pereira de Melo, sendo Pinto Bessa Presidente da Câmara. No edifício, embandeirado e guarnecido com flores e arbustos, o átrio, forrado a damasco magenta, ostentava as armas da cidade. Na Gare, a tribuna mostrava um docel de damasco vermelho e uma girândola de foguetes saudou a partida do 1.º comboio, enquanto a Banda da Guarda tocava o Hino. A linha converteu-se num sucesso popular.

O edifício da estação-términus sobrevive na Rotunda e representa, na cidade, o espírito de uma época fulgurante e a própria história do C.º de Ferro no Norte. Sem a espampanância das grandes gares, conjuga a simplicidade com a escala humana da linha de bitola estreita. Com espanto, li no JN que a inefável Direcção-Geral do Património Cultural considerou que o edifício «não reúne os valores patrimoniais inerentes a uma distinção com valor nacional». Então adianto a seguinte proposta: que a Câmara o classifique como imóvel de «interesse Municipal» e seja integrado no projecto do El Corte Inglês, que nunca deveria ter saído do Porto e é essencial ao relançamento da Boavista.

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INVICTA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Os portuenses essenciais, nunca se sentiram tão carentes como com o S. João deste ano. O emérito João Manuel, dias antes do confinamento festivo provocado pela maldição chinoca, que nos veio deles comerem morcegos, poetou: «S. João tão festejado / E que tanta gente tinhas / Mas mesmo assim mascarado / Não falto nas Fontainhas!» (Era metáfora poética. Não foi.)

Devo dizer que o hara-kiri da alma a que o Porto se votou é inequívoco da firmeza, determinação e carácter de uma cidade que sabe distinguir o dever cívico do que temos assistido para as bandas do Sul. Até nisto se mostra a diferença entre a coerência para combater um inimigo invisível e a desordem a que o Terreiro do Paço e seus arredores se têm dedicado, rebaixando o país para o rol dos indesejáveis. Apesar dos discursos sobre o «milagre» que se evapora, a resposta do Porto foi abdicar do melhor que temos, em nome de um desígnio maior.

Apesar de tudo, em minha casa festejámos comendo uma sardinhada. A alegria foi melancólica mas valeu a pena: estivemos juntos, tirámos a máscara e brindámos com Porto à nossa saúde. E pedimos ao Santo precursor que nos livre de ter de mandar médicos, hospitais e recursos para colmatar as consequências das festanças «de lá de baixo».

A este respeito, o meu amigo Orlando também poetou: «Eu aposto (em como a RTP não dedicava emissão são joanina ao Porto) / Mas é tão fácil saber / Que entre o Sul e o Norte / É tão pouca a nossa sorte / Ficamos sempre a perder. // Ai, se o S. João me acode / Inda lhes dá de lição / Que o Porto c’os mesmos pontos / Venha a ser o campeão.» Respondi: amen!

©helderpacheco2020

ESTOU P’RA VER

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Para evitar juízos precipitados, devo dizer que nada tenho contra o povo de Lisboa. O lisboeta que sobrevive em Alfama, no Alto do Pina, em Marvila e noutros sítios sofre os mesmos atropelos, injustiças, desigualdades e impostos do resto do país. Tenho tudo, sim, contra a ganga oportunista, parasita e arrivista que se movimenta nos meandros da centralização de um Terreiro do Paço que serve de guarda-chuva a esquemas que subvertem o Bem Comum da República.

Também nada tenho contra as tradições praticadas para comemorar o santo popular querido dos lisboetas. Nem faço comentários ao costume de marchar segundo a invenção salazarista do António Ferro (exportada para o resto do país e até aos arredores do Burgo que, em boa hora, a rejeitou em favor da pura tradição das rusgas). Tudo bem e que cada um marche como quer.

Na calha do confinamento opressivo a que o país se obrigou, a RTP entendeu, em período de interdição das manifestações festeiras, recompensar os alfacinhas, em véspera e dia do santo casamenteiro, com uma avalancha de programas alusivos à sua tradição. Eles foram “Enquanto houver Stº. António” (de La Féria) e uma tarde compacta, até às 8 da noite, com o Santo instalado no seu pátio típico e um rodopio de artistas e manifestações. E filmes a propósito: “O Pátio das Cantigas” e “A Canção de Lisboa”. Simpático e popular. Nada contra.

Mas ainda estou p’ra ver se, por alturas do Santo querido dos portuenses e muitos mais, na noite e dia de S. João, a RTP nos brinda com programação a propósito de uma das maiores tradições festivas do país. Aceitam-se apostas.

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O TEATRO DO POVO

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Notícias recentes dão-nos o edifício do Teatro Sá da Bandeira classificado como Imóvel de Interesse Público, entrando no rol do Património nacional. Finalmente podemos ter relativa tranquilidade quanto aos riscos do edifício ser transformado em hotel, residências para chineses ricos ou outra especulação imobiliária. Mas nunca se sabe já que, entre nós, o mercado tem razões acima (ou abaixo) de qualquer lógica social.

Inaugurado em 1874, como Teatro Circo Príncipe Real, passaria, em 1910, à designação actual. Na sua nova etapa seria recinto operático e espaço de galas, recebeu companhias de opereta, concertos, recitais, espectáculos de canto e magníficas representações teatrais.

Ao longo do século XX, o Sá da Bandeira desenvolveu a sua vocação popular, através do teatro de revista. Por ele passaram peças, companhias e actores que enchiam a casa e faziam as delícias de um público apreciador do género, que tinha na cidade e seus arredores milhares de espectadores. (Falaram-me, que, de Leça da Palmeira, vinham eléctricos repletos de gente para assistir às estreias.)

Como depois do 25 de Abril, para uns quantos, revistas e comédias eram reaccionárias, o Sá da Bandeira entrou em fase de apagada e vil tristeza, apresentando filmes pornográficos e outras bizarrias sem categoria. Mas acabou por reencontrar a sua história de casa de músicas e teatradas para o público anónimo e comum que, numa cidade inclusiva, tem o direito de ver aquilo de que gosta e lhe traz a vivência do contentamento. Esperemos que as armadilhas da modernidade mal entendida, não alienem tal tradição.

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TI AI PI

•2020-07-04 • Comentários Desativados em TI AI PI

Quando o Porto ainda não era cosmopolita, falando línguas, viajando para o mundo, com prestígio em alta e hábitos culturais refinados, o nosso estrangeiro era ir de camioneta a Vigo, Santiago e, quando muito, à Corunha.

Com esta prática internacionalista, a minha primeira viagem a sério foi ir de avião para (e logo!) Belfast, para onde me recambiaram como bolseiro na NUU, em Coleraine, em plena guerra civil, longe das cidades onde o terrorismo era diário. Integraram-me num grupo de estudo com ingleses (que não ligavam aos irlandeses) e irlandeses católicos e protestantes (que não se falavam). Caí no meio daquele ambiente tenso e lá procurei sobreviver.

Os «bifes» preferiam falar comigo, mais do que com os irlandeses e um perguntou-me se sabia o significado da sigla «ti, ai, pi». Depois percebi que falava da TAP e acrescentou a explicação: «Take Another Plane» e ria de gozo. Em ímpeto patriótico, não gostei que mandasse «Apanhar outro avião» e repontei. Arrependo-me.

Depois da ausência de pudor, centralismo bacoco, falta de visão estratégica nacional, e, se calhar, incompetência demonstrada pelos que decidem contra os interesses do país que vai de Aveiro a Bragança, não temos, de facto, outra alternativa. Atrair e utilizar os serviços de companhias aéreas que não sofram de miopia dos olhos e do cérebro, eis o novo desígnio. E não falem em bandeira e patriotismo, porque tal gente não tem pátria nem conhece outra coisa que não seja o limite do Terreiro do Paço. Tomemos, pois, outro avião. Dos que nos querem servir e ajudar à retoma e ao renascimento da cidade e sua região.

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REGRESSAR À BAIXA

•2020-07-04 • Comentários Desativados em REGRESSAR À BAIXA

Nasci a dois passos da Praça e conservei-me fiel ao território da Baixa, que moldou a personalidade cívica da minha geração. Centrifugado para Ocidente, ali penei a prisão que me cerceou o ritual de ir à Baixa fazer compras. Em espécie de peregrinação às raízes e hábitos do burguês típico. Após dois meses de exílio lá voltei. Mas só não chorei porque, dizem, um homem não chora.

Encontrei a Baixa vazia. De lojas fechadas, sem a multidão falando uma babilónia linguística, sem engraxadores, cauteleiros, jazz-bandistas, esplanadas, cultivadores de selfies, guias turísticos e seus rebanhos, japoneses (chineses, coreanos – não sei distingui-los) aos magotes, bichas na Lello, tuk-tuks, animação, música e o entusiasmo de ver a cidade cheia de gente e tão bela. E, sem isso, a Baixa não é Baixa. É abstracção e equívoco, um pontapé no coração. Caiu-me a alma aos pés.

Mas apanhei-a e desinfectei-a para não ser contaminada pelos profetas do pânico e ainda menos pela doença viral chamada infomedia. E pensei: uma cidade a caminho da Ressurreição que, apesar da crise, não parou de se reabilitar, uma cidade a renascer da degradação e do aviltamento urbanos não pode parar. Impõe-se um novo desígnio, uma nova utopia: regressar à Baixa. Em força. Enquanto o aeroporto e o Cº Ferro não voltarem a inundar o Porto de visitantes, têm de ser os portuenses a apostar no Renascimento do coração do Burgo. E enquanto não ouvirmos a babel de línguas que enchia os dias, que se ouça, alto e bom som, o falar tripeiro. Utilizar a Baixa é um imperativo. A determinação vital para o nosso futuro.

©helderpacheco2020

NA ARRÁBIDA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Declaro o meu comentário politicamente incorrecto relativamente a padrões ambientais, do agrado das minorias ruidosas. É que recebi com júbilo a notícia da vitória da autarquia portuense na decisão jurídica sobre o imóvel embargado na Rua do Ouro. Para mim, ganhou a cidade.

Pela simples razão de que, ao longo do tempo, com excepção da pedreira da Arrábida, de onde foram extraídas toneladas de granito para as obras iniciais da barra do Douro, sempre existiram edificações fabris naquela rua. E um dos maiores desafios de sempre, na renovação urbana da cidade, é o que se designava por «regresso ao rio». O Porto tinha abandonado (e demolido) muitas construções ribeirinhas (sobretudo a montante da Ponte Luís I). O rio transformara-se em esgoto e os portuenses ignoravam-no.

A edificação do complexo habitacional do Bicalho (que tantas críticas mereceu, pelo facto de tapar as pedreiras da Arrábida) foi o primeiro passo para povoar aquela desolada frente ribeirinha. E como o nosso investimento imobiliário tem razões difíceis de entender, não percebo a razão de os terrenos do antigo gasómetro não serem preenchidos com o excelente projecto residencial há anos apresentado. (Enquanto o Porto se recria com guerrilhas de fachada ecológica, Gaia constrói afanosamente imóveis de qualidade – por acaso tapando as paisagens verdejantes de S. Paio – e ninguém reponta).

Enfim, como não aprecio a espiritualidade mística das pedreiras e quero ver a cidade habitada e reconciliada com o rio que a moldou, ainda bem que o Tribunal deu razão à Câmara quanto ao licenciamento da Arcada na Arrábida.

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MATAR A COTOVIA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Pelo meu bairro aéreo (uma torre, com setenta habitações, é um bairro), desde que nele moro, já passaram meia dúzia de músicos. Aprendizes. Uns melhores, no limiar da técnica, outros a aprenderem-na, sobretudo pianistas. Mas mesmo nos casos do matraquear, nunca me incomodaram. Davam a nota de presença viva num ambiente hermético.

Agora, no andar de baixo, vive um candidato a pianista, praticando diariamente. Com talento, irá longe. A mãe, vizinha excelente, encontra-me no elevador e pergunta, ansiosa, se o miúdo incomoda. Tranquilizo-a: que não. Até lhe pedi para tocar Eric Satie e tornar magnífica a audição. Um dia destes, ofereço-lhe partituras e tenho música de graça.

Fiquei, por isso, de boca aberta com a notícia do JN segundo a qual, o meu amigo António Lourenço, trompetista emérito, tinha sido proibido de tocar, da varanda, para a vizinhança. Alguém apresentou queixa à polícia, por se sentir incomodado com a sonoridade.

Quando todo o mundo canta e toca para alegrar as ruas, atenuar o pesadelo e aliviar a solidão, há quem abomine a música pública. Não espanta: já houve queixas contra o toque dos sinos de uma igreja da cidade (o ronco das motorizadas e dos aceleras são melhores). Esta vontade de silenciar a alegria, radicará em duas razões: o queixoso não gosta de ópera ou odeia o F.C.P. E vem-me à ideia o título de um romance de Carson Mccullers: “To Kill a Mockinbird”, traduzido em Portugal por “Não matem a cotovia”. Felizmente, neste caso, é difícil. O António Lourenço é um resiliente, utilizando uma palavra queque, na moda (dantes, dizia-se resistente),

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NEM SEQUER

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Não, não voltarei à Rua Bela da Fontinha, onde ele morava. E não tocarei no batente prateado da porta da casa azul, encantadora, do Bairro que lhe pertencia. Porque, sem ele, a Fontinha não é a mesma e os tempos felizes que lá vivemos acabaram.

Os tempos dos jantares suculentos, na mesa grande, cheia de gente. Rindo dos comentários do Júlio («de partir o coco»). E as tardes de Verão, no terraço que dava para os quintais das traseiras – sossegos do campo no coração da cidade. E, em chegando o Natal, os serões à lareira da cave e as conversas junto da árvore luminosa. De cálice na mão, deitámos abaixo umas garrafas de Porto e falámos do Burgo. Invariavelmente. E dos nossos projectos. E das visitas à cidade – como a de um Dezembro chuvoso, com meio mundo atrás. E combinar apresentações de livros. Ou idas às Antas, ao Mónaco, a Gelsenkirchen.

Não, não voltarei à Rua Bela da Fontinha, nem a bater à porta da casa azul do meu amigo Júlio Couto. Nela reina agora o silêncio insuportável de um Bairro sem alma. Não irei, porque não mais se ouvirá a voz da Zé (a de cá, pois havia a de lá, companheira dos serões da Fontinha), chamando-lhe “Menino Julinho” (e ele, cúmplice, cheio de gostosura). Nem soarão os risos da Francisca, reagindo às anedotas (com barbas) como a do «Coma, coma que é limpinho». E outras.

Não, não irei lá. Foi demasiado injusto, cruel e sem sentido. Querido Júlio: isto não se faz. Partir assim, de repente e deixar-nos o vazio da sua ausência. Razão tinha o Schmidt ao escrever: «Nem sequer posso chorar, por ser aquilo que sinto profundo de mais para as lágrimas».

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AMANHÃ OU DEPOIS

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Os profetas da desgraça, não digo que esfreguem as mãos de satisfação, mas alardeiam: «Avisei que isto ia acontecer». Criticavam os turistas, só se falar estrangeiro, já não haver portuenses, ser tudo hotéis, não se circular à vontade nem se poder estacionar, etc. E que a cidade não podia ficar dependente do turismo, tal desenvolvimento era fictício e errado. Anteviam novos 11 de Novembro, terrorismo fundamentalista, furacões, conflitos nucleares, dissolução da U.E. e fim do Euro, etc. Mas não previam uma pandemia importada da China e a tempestade perfeita veio quando menos esperavam. A cidade parou, comércio e hotéis encerraram, não há turistas nem residentes nas ruas. O quotidiano é um pesadelo.

Ainda assim, os «entusistas do pânico» (Javier Marias) não têm razão: a tempestade perfeita também acaba. E quando acabar – com vacina, medicamentos, sol, o que quer que seja – temos uma cidade para reinventar. Uma cidade onde a reabilitação substituiu a ruína e a decadência (os arautos da verdade nunca falaram do estado do Porto a cair de podre), o seu prestígio internacional está intacto, a atractividade mantém-se, a estrutura turística é qualificada, as instituições científicas, tecnológicas e culturais são invejáveis, o Terminal Intermodal e o projecto do Matadouro mudarão o Bairro Oriental. E como em todas as crises da História, o Porto tem pela frente o desafio da reconstrução do seu espírito e do relançamento da sua herança e património. Com 80 anos e mazelas não sei se cá estarei para ver, mas tenho a convicção de que será uma época prodigiosa. Amanhã ou depois.

©helderpacheco2020

Biblioteca de Assuntos Portuenses – Casa do Infante

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

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https://bibliotecacasadoinfante.cm-porto.pt

Júlio Couto, o alegre humanista que contou o Porto homenageando sempre as suas gentes

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Economista, homem do teatro, rádio e televisão e um dos grandes conhecedores e investigadores da história do Porto. Com Germano Silva e Helder Pacheco, formava “os três mosqueteiros” da cidade. Júlio Couto (1935-2020) morreu esta sexta-feira, vítima de covid-19.

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Júlio Couto fotografado para revista A Página da Educação, a quem deu uma entrevista em 2013. Foto: Ana Alvim

Tinha o ofício das contas, mas o coração foi sempre das letras – e da arte. Sem nunca deixar a economia e contabilidade, que lhe valiam o salário no fim do mês, Júlio Couto encheu a vida com tudo o resto: o teatro, a rádio, a televisão, os jornais, a poesia e muitos livros. E o Porto, sempre, cidade onde nasceu e à qual se dedicou, escrevendo várias obras sobre ele. Era um dos grandes investigadores da sua História e histórias – e jamais as contou apartado das suas gentes. Morreu esta sexta-feira, 24 de Abril, aos 85 anos, vítima de covid-19.

Foi numa ilha em Miguel Bombarda, hoje rua de galerias de arte, que Júlio Couto nasceu, a 12 de Março de 1935. Era “o mais velho de sete irmãos vivos” a habitar na ilha de minúsculas casas com “paredes finas” e sabia que o destino não lhe guardaria facilidades. Fez a instrução primária e rápido ganhou o vício dos livros. Mas aos 14 anos teve de fazer-se trabalhador: começou a acarretar sacos de cimento e a cumpria a tarefa de moço de recados num escritório na Rua dos Bacalhoeiros. O ordenado, conta no livro O Riso ao Virar da Esquina – memória de uma vida portuense, era curto e ia directamente para a mãe.

Nesse escritório na Ribeira, havia muitas máquinas de escrever – e Júlio Couto cobiçava-as, contou numa longa entrevista, em 2013, à revista A Página da Educação. Chegava à mesma hora da empregada de limpeza, antes do seu expediente, e ficava a escrever nelas. Assim aprendeu a mexer em teclados – e a pensar num futuro longe dali. Retomaria os estudos – com a ajuda financeira de um tio que vivia no Rio de Janeiro – à noite. E assim foi ganhando responsabilidades: “A determinada altura já era guarda-livros, depois técnico de contas e depois economista”, conta na mesma entrevista.

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Júlio Couto faleceu aos 85 anos. Foi um contador da História do Porto. Foto Ana Alvim

Ainda menino, pelos seis anos, Júlio Couto já fazia teatro. Mais tarde, acabaria por entrar no Teatro Experimental do Porto e chegou a dirigir a secção de teatro do FCPorto, no tempo de Pinto de Magalhães como presidente e a promover espectáculos no Lar do Comércio, instituição onde viveu nos últimos anos e onde morreu esta sexta-feira. Júlio Couto tanto actuava como escrevia. Fez rádio – e o programa humorístico A Voz dos Ridículos –, esteve na RTP Porto, colaborou com jornais e revistas, sendo fundador da extinta Paisagem, foi pioneiro no Porto Canal, onde teve um programa sobre o Porto e outro sobre o fado vadio na cidade, colaborou com dezenas de colectividades portuenses. E escreveu vários livros, sendo o mais popular O Porto em 7 Dias, publicado nos anos 90, um roteiro de visita à Invicta numa semana, como se antecipasse o boom turístico que a cidade haveria de ter.

“Os três mosqueteiros”

Foi nos anos 80 que Joel Cleto, ainda estudante de arqueologia, se cruzou pela primeira vez com Júlio Couto. “Nesses anos nós chamávamos os três mosqueteiros ao Helder Pacheco, ao Germano Silva e ao Júlio Couto. Era gente de fora da academia, mas uma referência numa outra perspectiva da História. Amigos, todos muito diferentes, mas com a mesma paixão pela cidade”, aponta. Achando que “a Historia e património não são só monumentos e sítios”, Júlio Couto cumpriu um “papel social importantíssimo”.

Júlio Couto – Medalha de Grau Ouro de Mérito Cultural pela Câmara do Porto, que já nesta segunda-feira aprovou um voto de pesar pela sua morte – conhecia a cidade como poucos. Calcorreava as suas ruas, sozinho ou em passeios com portuenses e turistas. E em cada recanto encontrava um “cunho pessoal”, recorda Joel Cleto: “Fazer uma visita à cidade com ele era sempre conhecer as suas histórias também”.

O Porto

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Quero aqui dizer que admiro o Arq. Fernando Távora. Pela obra, pelo exemplo e influência na nossa arquitectura. E, sobretudo, pela dívida que o Porto tem para com ele, na defesa da Ribeira / Barredo contra a barbárie que ali se projectava, arrasando-o e construindo um silo-auto.

Mas isso é uma coisa, outra é concordar com a colocação da estátua do Porto, de costas para a Vitória, nas traseiras da casa / torre / memorial da Câmara medieval, junto à Sé. Tal facto, motivo de chacota pública, é das situações mais ridículas da cidade, que não a honram, nem ao arquitecto da obra.

A estátua do Porto foi encomendada em 1818 ao Mestre Pedreiro (e canteiro), João da Silva, que a terá esculpido segundo o modelo de João de Sousa Alão – o mais reputado escultor portuense da época. Granítica e figurando um soldado romano, a estátua foi colocada no frontão do edifício da Câmara, no Palacete Moreira Pereira, que rematava o lado norte da Praça Nova e seria demolido em 1918 para abertura da Avenida.

Aquela figura, pela simbologia e apelo ao lendário, entrou no imaginário popular como alegoria ao “Malhão”. A ele se cantava numa canção da Patuleia: «O Malhão da Praça Nova / Tem uma lança na mão / Para matar os Cabrais / Que são maus para a nação.»

É altura de se pôr cobro ao ridículo a que se encontra exposta a estátua, recolocando-a, pelo que representa e simbolizava, no sítio nobre para onde foi criada: a Praça. Não no local exacto onde se encontrava (esse pertence à Menina Nua que fica lá bem e dá gosto ver), mas junto do local da antiga câmara, na embocadura da Rua Magalhães Basto. Bem enquadrado, o «Porto» regressaria ao coração da urbe e os portuenses tinham mais um motivo para aumentar a auto-estima e não de se rirem. Aqui deixo, pois, a sugestão, individual e graciosamente.

Helder Pacheco, Dezembro 2012

Jogar prá frente

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Dizia meu pai, lojista da Baixa, acumulando a sabedoria do pequeno burguês portuense precavido, que os assuntos de família não são para discutir na praça pú-blica.
Dele herdei a aversão aos tiros nos pés (deixe-se tal actividade aos partidos e à campanha que se adivinha edificante) e à lavagem de roupa (suja ou limpa). Ainda assim, no início de nova temporada da alegria do povo e face às expectativas do meu reino azul-e-branco no campeonato em curso (de que – como dizia o snr. Araú-jo, do Bairro do Carvalhido – já não abichamos nada há dois anos), queria dar conta dos anseios clubistas.
Vêm de portistas acima de qualquer suspeita, indefectíveis na sua paixão, de-voção e persistência. Incorruptíveis. Um escreveu-me dizendo: «Quanto ao Nosso Glorioso F.C.Porto, tive que recordar a história do menino que andou na escola pela primeira vez à porrada. Disse então à Mãe que tudo correu bem: «levei mas também apanhei que me consolei». O Ex.mo Snr. Lopetegui perdeu há pouco por 2-1, mas diz estar contente, porque estamos a crescer. Foi o que nos disse durante toda a época passada!!!» O outro – com 90 anos de amor à camisola, tripeiro emérito e versejador nato – desabafou em quadras: «Desde os tempos de rapaz / O mijar é para a frente / Só a burra é que é pra trás / Porque é um mijar diferente. // Ora o nosso Porto amigo / Da forma que está a jogar / Acredite no que eu digo / Jamais golos vai marcar. // O “sistema” que chateia / Que enerva e arrelia / É o “pra trás” volta e meia / Num jogo de cobardia. // E pelo que temos visto / Já em tanta ocasião, / À verdade eu não resisto / Dou a minha opinião…»
Alerta, pois, ó gente da minha terra. Como dizia a minha amiga Joaquina: «Quem está habituado a ganhar não se resigna a ser perdedor». Sus! A eles, pelo Burgo e o Dragão.

©helderpacheco2015

DA IMPRENSA

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Há duas coisas que rejeito. Uma é que me contem ou enviem mails com anedotas de alentejanos, outra é que os ditos mails contenham jornais diários ou livros e até colecções de obras literárias.

As anedotas de alentejanos carregam a aleivosia de ridicularizar uma região duramente tratada (ou maltratada) ao longo de séculos. Povo e região admiráveis de carácter (basta ouvir o seu cante) e tradição cultural que resistiu à adversidade (ou emigrou) e nos legou um país único e diferente.

Quanto à pirataria informática de jornais e livros, é herdeira dos tempos em que alguns (nem sequer pobres ou desempregados) liam os periódicos nos cafés mediante o pagamento de uma taxa. Para pouparem, num acto amplamente praticado. Não admira: há dias, na T.V., ouvi alguém dizer que só tinha lido dois livros em toda a vida!

Este assunto diz-me muito pois comecei a editar o primeiro jornal (chamado “Revista Desportiva”) aos 11 ou 12 anos. Era semanal e fabricado à mão, em papel costaneira. Desde aí e até ao JN, não têm conta os sítios por onde andei. Desde os primeiros artigos (sobre educação) no saudoso “Mar Alto”, da Figueira da Foz, até Viana do Castelo, Castelo de Vide, Taveiro, Lisboa, Gaia, Póvoa, Aveiro. E por aí fora. A imprensa foi a minha escola de escrita.

Por isso considero que, neste tempo de sobressaltos, a construção da nossa capacidade de perspectivar o futuro passa pela sobrevivência de uma imprensa à altura dos desafios que enfrentamos. Estranhamente, fala-se pouco da importância do relançamento deste elemento fundamental da nossa vida colectiva. E da própria democracia.

©helderpacheco2020

BAIRRO DO LEAL

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

A OMS registou o termo «Infodemia», para descrever «as práticas informativas que promovem o pânico e as condutas incorrectas». Também temos tido disso, através dos (e das) que Javier Marias designa como «Entusiastas do Pânico». Mas, sejamos justos, são menos comparativamente com a comunicação espanhola (de que aquele articulista do El País dizia «Sem a má fé de muitos meios, a população teria ficado mais sossegada»). Não me apetece, pois, falar do Covid 19, mas projectar o futuro. Ou reinventá-lo.

E o futuro passa pela minha cidade. Vê-la melhor, mais justa, mais culta e habitada por gente falando à moda do Porto. Mas, para isso, são necessárias habitações para uma classe média condenada ao exílio. E um mercado do arrendamento não restritivo. Nesta matéria, um arquitecto amigo ligado ao imobiliário e a trabalhar para amanhã, estudando e planificando o sector, garantiu-me que muito alojamento local pode converter-se em habitação permanente.

E como não acredito no discurso «infodémico» sobre a impossibilidade de repovoar a cidades vitimadas pelo «efeito donut» (centros desertos e periferias super-habitadas) continuarei a defender a reabilitação (projectando a modernidade) de bairros como o do Leal. Nele viviam, no coração do Burgo, há poucos anos, dezenas de famílias – agora é uma ruína. Porque chegamos a isto quando, entre 1974 e 77, o SAAL ali iniciaria uma renovação exemplar? Eis, quanto a mim, a oportunidade soberana para fazer avançar – como o previsto – a construção de meia centena de habitações para, também no Leal, dar sentido ao renascimento urbano da cidade.

©helderpacheco2020

RUA DAS FLORES

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Fui há dias à Rua das Flores matar saudades. Saudades de mim, pois durante anos lá passava. Do Marquês, descia o Bonjardim, atravessava S. Bento e estava na minha rua favorita. Conhecia-a de ponta a ponta. Comprava polvo seco na mais bonita mercearia do Burgo e queijos na queijaria mais abaixo. Cumprimentava o Tony, amigo de infância, dono de ourivesaria centenária (na esquina dos Caldeireiros). E assinava o ponto no alfarrabista Chaminé da Mota. E da Casa Orchidea, de flores artificiais, quando fechou, ainda comprei a tabuleta.

Escrevi saudades de mim porque, da rua antiga, fora a lembrança de algum comércio e seus lojistas, nada me deixa saudoso. O estacionamento era anárquico, o trânsito agressivo, os pavimentos incómodos, o edifícado calamitoso, os moradores raros. Bela mas decadente, o que não acontece agora.

Agora (e desde a reabilitação do prédio da Papelaria Reis) tudo mudou. Além de rua pedonal, a maioria dos edifícios foi reconstruída. Milagrosamente: a Casa dos Maias (do brasão), a dos Sousas e Silva (dando para a Travessa do Ferraz), a esplendorosa dos Constantinos (até à Rua da Vitória) e outras. Tudo impecável e asseado. Para nosso usufruto abriu o MMIPO (mostrando os tesouros da Misericórdia) e muito comércio de outrora foi substituído por novo comércio – algum de qualidade.

Todavia, para a Rua das Flores atingir o patamar da reabilitação de sucesso, falta resolver um problema: mais do que recurso turístico, acrescentar-lhe moradores já que, à noite, nos andares de cima, reina a escuridão. E reabilitação sem gente dentro, é cosmética. Ou cenário.

©helderpacheco2020

OUTRO CERCO?

•2020-04-28 • 1 Comentário

O país, fora os que queriam praia, enfrenta a tragédia com maior categoria do que a de alguns senhores do mundo. E a cidade – longe do Algarve – correspondia ao confinamento. Civilizada e solidariamente. Apareceram dezenas de pessoas oferecendo-se para fazer as compras de vizinhos doentes, idosos ou inválidos. E também para passear animais, ajudar com crianças e serviços domésticos, desinfectar espaços comuns e elevadores, etc. A cadeia interactiva ganhava forma diariamente.

Até sucediam actos inesperados: uma rapariga guineense disse-me que ia para o trabalho e viu parar um automóvel a seu lado. A senhora que o conduzia perguntou-lhe se tinha desinfectante. Respondendo que não, recebeu um frasco de álcool e luvas, com a explicação: «Temos de ser uns para os outros.» E, tal como veio, a condutora desapareceu. Espantoso! Mas a fotografia deste «unidos venceremos» estragou-se. Inesperadamente.

Até recebi a seguinte mensagem de um leitor: «As coisas vão mal em Lisboa. E mais se nota quando “há um autarca lá nas províncias que teima em lembrar-se de fazer coisas antes da gente! Mas nem é de lá de baixo, nem pertence à “entourage”. São dois defeitos juntos”. A título informativo: os números estão mesmo baralhados. (…) Anunciaram que iriam fazer um programa de testes nos lares de Lisboa e Vale do Tejo. Só hoje? Que os façam e vão ver quem precisa de cordões sanitários.»

Apesar dos apelos à união, alguém «lá de baixo», antes de nos condenar ao cerco, devia contar até 50, como dizia meu pai – homem sábio -, que também acrescentava: quem não se sente não é filho de boa gente.

©helderpacheco2020

Carquejeiras – As Escravas do Porto

•2020-04-28 • Deixe um Comentário
Desde 1928 a 1951 existiram 210 metros na cidade do Porto onde o trabalho da “besta” foi substituído pelo ser humano.
Quem via aquelas mulheres carregadas com 144 molhos de carqueja chamava-as de “ouriços humanos”.
Documentário de Arminda Sousa Deusdado sobre as carquejeiras do Porto, mulheres esquecidas que durante o séc. XIX início do séc. XX faziam chegar à cidade a carqueja que descarregavam dos barcos acostados às margens do Douro.