Novo livro – Porto Nos Dias do Meu Tempo

•07/10/2017 • 1 Comentário

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APAGOU-SE UMA ESTRELA

•06/07/2018 • Deixe um Comentário

Diziam os antigos que quando morre um poeta se apaga uma estrela. Desaparece na noite. E não é Vénus a que os pescadores da Foz chamavam Aurora, porque essa, tal como no Príncipe de Lampedusa, lá está sempre, esperando por nós. É outra. Sem nome. Desconhecida e quanto maior o poeta maior a escuridão que deixa em seu redor.

O poeta da estrela que se apagou é Albano Martins a quem devemos uma miríade de versos escritos na claridade, sem rebuscamentos (apreciados por quem prefere o encobrimento à simplicidade). E devemos admiráveis traduções da poesia grega (a partir da original). Sobretudo a monumental “Antologia Grega Clássica” e as antologias helenísticas reunidas em “Do Mundo Grego, outro Sol”, pautadas pelo rigor e a fidelidade ao espírito dos autores. Sem fazer da tradução uma «traição».

Beirão, guardando a consonância com as raízes, plasmou-as em versos onde muitos cosmopolitas deviam aprender que o universal está ao nosso lado: «Herdámos uma casa. Para nela morar. Para olhar, de seus verdes terraços, o horizonte do mundo. Uma casa chamada futuro. Chamada esperança», escrevia o poeta. E dizia tudo.

Além do mais, o Porto deve a Albano Martins alguns dos mais belos poemas sobre ele escritos. Assim: «Uma cidade / pode ser o nome dum país, dum cais, um porto, um barco / de andorinhas e gaivotas / ancoradas / na areia.»

Não. Não sei como vão ser os dias e os anos que ainda tiver pela frente, sem a sua presença – constante, sincera e sem artifícios. Quarenta anos de amizade, companheirismo e cumplicidade é muito tempo. Deixa marcas e uma saudade que magoa.

“Porque não chamar-lhe francesinha?” A história de como foi batizada a famosa iguaria portuense

•05/07/2018 • Deixe um Comentário

Júlio Couto comeu a primeira francesinha de sempre e é responsável máximo pelo nome que hoje já correu o mundo. O Observador foi falar com ele e conta-lhe como tudo aconteceu.

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“Carne, queijo, gordura e pão: a combinação imortal”, dizia Anthony Bourdain quando regressou ao Porto em 2017. Por muito que tivesse razão, a verdade é que sim, existem muitos pratos a cruzar esses ingredientes, mas nenhum deles consegue igualar a célebre francesinha.

O imaginário gastronómico português está cheio de curiosidades, histórias (muitas vezes rocambolescas) e os chamados fun facts que tanto jeito dão, por exemplo, durante uma partida de Trivial Pursuit. Particularidades como o facto do famoso prego no pão ter sido criado ao pé da Praia das Maçãs (Sintra) por Manuel Dias Prego ou que o pão-de-ló tem esse nome porque foi feito em homenagem a Ló, o filho de Abraão que foi salvo por anjos às portas de Gomorra, são exemplos de que há quase sempre uma história interessante por trás daquilo que comemos. A francesinha não é diferente e foi para conhecer melhor o passado desta gulodice que o Observador foi falar com Júlio Couto, o homem que a batizou.

“Eu não sei cozinhar, comecemos por aí”, disse Júlio Couto ao Observador numa chuvosa manhã de Junho. Sentado na sua poltrona, emoldurado por pilhas de jornais, revistas e folhas sem fim, o octogenário (tinha feito 83 anos há poucas semanas) apresentou-se. “Eu era economista, técnico de contabilidade, e isso dava-me um grande contacto com este e com aquele”, explicou. “Quando era novo”, gostava de se juntar com os amigos e saltitar por várias tascas e restaurantes do Porto, “por volta das seis e meia”, depois do trabalho, para “comer qualquer coisa” e “pôr a conversa em dia”. Um dos sítios que mais costumavam visitar era o restaurante Regaleira, vizinho do lado da Rua Sá da Bandeira.

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Daniel David de Silva era o proprietário desse espaço e dava-se muito bem com Júlio (“ele era um moço da minha geração, andávamos sempre juntos”). Motivado pela pobreza extrema, Daniel mudou-se para a Bélgica ainda novo e lá encontrou trabalho no ramo da restauração. “Ficou por lá uns bons anos” mas as saudades de casa falaram mais alto e acabou por regressar com a vontade de montar “uma casa de comidas” bem sucedida. “Ele trouxe a ideia do croque monsieur e tentou servir isso cá”, conta o anfitrião. A ideia não pegou, mas Daniel estava convicto de que dali podia sair alguma coisa boa. Algures no ano de 1952, Júlio e a “rapaziada” desaguaram no Regaleira, como era costume, e foram surpreendidos pelo ex-emigrante: “Ele disse-nos que tinha feito uma coisa nova, uma invenção, e queria que nós provássemos”, explicou. Em pouco tempo chegou à mesa uma sanduíche generosa, banhada a queijo derretido e molho alaranjado. Júlio foi um dos primeiros a provar e o resultado foi, no mínimo, amor à primeira dentada. “Ele tinha feito um prato do caraças”, clamou, mas havia uma dúvida: Que nome é que iam dar àquela iguaria?

“Quando acabámos de comer perguntei-lhe: ‘Olha lá, que nome é que vais dar a isto para servir amanhã?’”, disse o anfitrião. Daniel não se lembrou de nada, mas Júlio sim: “Naquele momento baixou a minha maldade toda [risos] e comecei a pensar: isto era uma coisa picante, muito agradável… Porque não chamar-lhe francesinha?”

À partida a ligação pode não fazer muito sentido, mas ele existe — pelo menos segundo o entrevistado. “Na altura as mulheres portuguesas eram muito conservadoras, mas as francesas não, eram bem mais liberais e confiantes”, relatou. Ora na sua cabeça, a junção de ideias foi simples: as “catraias francesas” faziam-lhe lembrar as características do prato e ficou assim. “Depois deste batismo não serviu de nada tentar chamar-lhe outra coisa qualquer.”

A invenção do senhor Silva foi um sucesso quase instantâneo. Júlio recorda que em pouco tempo “as pessoas começaram a fazer fila à porta do restaurante” e muitas vezes comiam mais que uma. O sabor intenso e o cariz pesado desta criação de Daniel estava em linha com os típicos sabores nortenhos e isso “poderá ter sido a chave do sucesso”. Escusado será dizer que também não tardaram a haver outros espaços a servir francesinhas, sempre diferentes desta original (que era feita com pão bijou e não com o já habitual pão de forma) mas igualmente populares. “Os empregados iam saindo para outros sítios e depois tentavam replicar a receita”, e um desses casos foi o do “gajo que saiu de lá e foi para Gaia, para um restaurante que fica logo à saída da ponte, à direita”, o café Mocabe. “Ele decidiu replicar a receita — à sua maneira — e passaram a haver francesinhas em Gaia. A coisa foi funcionando assim sucessivamente.”

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Hoje, a francesinha tem tanto de importante como de polémico. Todos os anos debate-se sobre qual é a melhor da cidade, discute-se a receita de molho mais perfeita, mas Júlio não dá relevância a nada disso. “Opa, não há receita nenhuma original, toda a gente faz a coisa à sua maneira. Não há um papel que diga ‘esta é que é a verdadeira receita”. Fiambre, queijo, linguiça, um bife de vaca, pão e molho são alguns dos elementos mais facilmente encontrados, mas a variantes são quase infinitas (“Até há uma que lhe espetam um camarão em cima, veja lá!”).

A do recém encerrado Regaleira (fechou portas há poucos dias porque foram “corridos” pelas pessoas que compraram o edifício onde sempre morou), a original, tem duas grandes diferenças: o pão, como já foi mencionado, e o facto de ter carne assada em vez de bife. Independentemente da forma como são feitas, as francesinhas estão intimamente ligadas a Júlio, que é democrático ao dizer que não tem nenhuma favorita, “gosta de todas”. Quando questionado sobre quantas já comeu, a resposta foi bastante incisiva: “Chiiiiii… tantas! E atenção, eu não as provei, eu comi-as!” Olhando para a sua idade e sabendo do elevado número de francesinhas que já comeu, fica no ar a suspeita de que talvez elas não façam assim tanto mal (por terem um alto teor de gordura, por exemplo) como se diz. Ainda bem.

Diogo Lopes / Observador / 10 Junho 2018

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

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POLÍTICA E BANHA DE COBRA

•04/07/2018 • 1 Comentário

Passei pela Cadeia da Relação e vi um pano onde escreveram: «Nasci na Vitória, posso morrer na Vitória?» Isto assim, nem mais, nem menos. E disseram-me que dísticos semelhantes vão apelando à permanência dos habitantes nos seus locais de origem.

A centrifugação de moradores para fora dos habitats onde residem está a espalhar-se – de Lordelo à Foz, Ramalde, Santo Ildefonso, Bonfim. Não chegou a deportação de portuenses, nos anos 80 e 90, assistimos agora, quando a requalificação do Porto atravessa o seu melhor período, ao reaparecimento de doença antiga.

O congelamento das rendas conduziu à degradação urbana e ao declínio da cidade. O empobrecimento de proprietários de edifícios ou andares como fonte de rendimento, conduziu ao seu abandono. Agora a pressão sobre os habitantes para abandonarem os sítios onde vivem destina-se a nova perversão: o aproveitamento para fins turísticos, a venda ou arrendamento em condições leoninas.

Entusiasma-nos a renovação da cidade (não a oriental, onde o ímpeto renovador ainda não chegou). Mas, numa obra notável e esquecida, de 1996, Fernando Namora escrevia que nos nossos olhos «pode andar a euforia do renovo, a sedução do risco, o acerto com o tempo (…) o gosto de ir em diante agindo.» (“Estamos no Vento”)

Todavia, a «euforia do renovo» deveria ser estruturada não só pela engenharia, a arquitectura, o mercado e o lucro mas – sem negar a importância de tudo isto – «ir em diante, agindo» com competência. Substituindo as políticas de banha de cobra por legislação activa que garanta o direito à cidade pelos seus cidadãos.

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BOLO DE S. JOÃO

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

Com o Bolo de S. João sucedeu um fenómeno ou um mistério de desaparecimento até hoje insondável. Todos sabemos que em Portugal não há festa sem doce e faltava-nos isso no dia do Santo Precursor, tão caro à cidade. Comíamos creme e pronto. Em 2004, por acaso, descobriu-se, numa notícia do JN, de 23.6.1901, que a Confeitaria Costa Moreira anunciava aquele bolo como «verdadeira especialidade desta casa». E assim continuaram os anúncios até 1949. E subitamente acabaram com a promoção tal como o doce até aí disputado por várias confeitarias. Porquê? Ninguém sabe. (Pelo menos eu não sei.)

Nascido e crescido na Invicta, nunca tinha ouvido falar em tal bolo, quanto mais prová-lo. Nada. Até que, graças aos esforços da UNIHSNOR e da APHORT e com a colaboração do Snr. João Oliveira, durante sessenta anos confeiteiro da Costa Moreira, que generosamente forneceu a receita original do bolo e o confeccionou expressamente, foi possível recuperá-lo. Com enorme sucesso. Ocorreu agora nova descoberta: um anúncio, de 23.6.1881, da Confeitaria Nova Brasileira, da Rua de St.º Ildefonso, comunicava a venda do bolo de S. João, a partir das 11 da manhã. Estamos, pois, diante de uma tradição anterior à vinda para o Burgo do bolo-rei (em 1882) e nada tem a ver com ele, como se pensava.

Portanto, tripeiros amigos meus: neste S. João que estamos vivendo toca a manter o costume que vem de longe. Comamos na noite ou no dia da festa o bolo inventado para tal efeito. Porque a alma da cidade, o seu carácter e diferenciação também são feitos de coisas assim. A ele, pois e Viva o Bolo de S. João.

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CHI ATANGA

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

A revista inglesa “Courier” (dedicada à divulgação de “histórias de negócios modernos”) traz o Porto à ribalta. Pela mão da artista plástica e jornalista Berri Blue, que trocou Dublin pela Invicta («É a cidade mais criativamente estimulante que já experimentei», Público, 2.11.17), mostra uma faceta do Burgo que nos deixa perplexos.

E esperançados. Porque noticia os “novos” portuenses que, vindos de longes terras, não abrem lojas dos trezentos, mas trazem categoria e afirmam a qualificação da cidade. Berri Blue escolheu como sua «Favorita» uma marca de pijamas sediada no Porto, intitulada “Walls of Benin”. O seu fundador utiliza fibra natural com a qual produz um tecido de alta resistência com a macieza da seda. Chama-se Chi Atanga e escolheu o título, em homenagem às muralhas do Reino de Benin, destruídas pelos britânicos em 1897.

Na concepção dos pijamas Chi utiliza desenhos tradicionais africanos, considerados fascinantes. E exporta os tecidos e respectivos padrões do Porto para produção final no Quénia e Ruanda, por razões éticas: compensar as suas raízes criando emprego em África. Assim, desde 2015, este pacato e anónimo cidadão, no silêncio da sua actividade conquistou prestígio mundial. É de gente desta que o Porto precisa e tem de receber de braços abertos. Não vivemos tempos para a pasmaceira do «aquário dos imbecis» que, encostados nas Cardosas, se limitavam ao bota abaixo e à conquista das caixeiras. Venham, portanto, os Chis que, como este, ajudem a tornar o Burgo uma cidade mais criativa na conjugação da tradição com a modernidade. Internacionalizando-se.

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DO RENASCIMENTO

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

Adoptando uma frase de Lawrence Durrell, a ideia que mantemos do Porto é a da «perenidade das coisas»: património, herança e tradição, através de coincidências primordiais que se transformam em persistência da memória. E, nesses momentos, o Porto transforma-se em sedução.

Sedução que permanece no entardecer da Ribeira sob os Arcos; nas varandas floridas com begónias e sardinheiras colorindo, aqui e ali, as ruas de S. Nicolau e da Vitória de contrastes com a pedra granítica que os séculos amareleceram; na geometria da ponte da Arrábida, asa recortando-se nas neblinas mareiras que sobem da barra. Na intimidade envolvente da vilazinha, em redor do adro de Nevogilde, ou da matriz de S. João da Foz, encimada, no seu nicho beneditino, pelo Baptista padroeiro. Nas varandas do muro dos Bacalhoeiros; no homem-estátua, em Santa Catarina (a nova estética da pobreza); nos vultos que espreitam por detrás das cortinas rendadas, ou assomam, a tomar o fresco, às janelas de Miragaia e S. Francisco; no voo das gaivotas que pousam nos pináculos de S. João Novo, do Corpo Santo ou da Vitória. No perfil da Torre dos Clérigos (vista, quem desce 31 de Janeiro) no crepúsculo; no silêncio irreal do Passeio Alegre; no encanto rural no Beco de Carreiras; nas canseiras dos últimos pescadores da Cantareira…

Ah! Este Porto, imutável na sua substância essencial, sob a aparência da instabilidade e da inconstância, permanece. Resiste. E, para delícia do nosso olhar e alimento das nossas ilusões de que as cidades são eternas, renasce, transformado noutra realidade (ou na verdadeira realidade?).

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