•2020-10-14 • Comentários Desativados em

Capture

VEJA O NOVO LIVRO AQUI

 

A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

IMG_5327

•2021-05-28 • Comentários Desativados em

•2021-05-28 • Comentários Desativados em

Cartazes da Festa 1996-2021 / Novo livro de Helder Pacheco sobre a romaria

•2021-05-28 • Deixe um Comentário

26 anos depois da 1.ª edição de “Senhor de Matosinhos, Cartazes da Festa”, obra que revisita os cartazes de 1956 a 1995, ano da sua publicação, o historiador e cronista Helder Pacheco foi novamente convidado pela Câmara de Matosinhos para regressar às memórias da romaria.Dessa “viagem” nasceu “Senhor de Matosinhos, Cartazes da Festa 1996-2021”. A obra foi hoje apresentada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa cerimónia que cumpriu todas as regras de segurança estabelecidas pela Direção Geral da Saúde.”Até me custa abrir para não estragar”, disse o autor do livro, rendido ao “excelente objeto estético”. Um misto de caixa de memórias e “objeto de culto”, concebido pelo designer Nuno Leal, e cuja forma acabou por influenciar a escrita do historiador.”Confesso que pensei em fazer uma análise e comentário aos cartazes, dar continuidade ao trabalho que comecei a fazer há 26 anos. Era como uma sequência do que já estava escrito. Mas depois o Nuno apresentou-me as suas ideias e percebi que repetir um modelo de 1995 em 2021 não fazia sentido”, explicou o autor. O objeto influenciou a escrita, a maneira de contar uma mesma história que se faz “de tradição, de gente, de devoção”, mas também de “um país diferente, melhor em muitos aspetos”.A sessão contou a apresentação feita pela Diretora da revista “Artes entre as Letras,” Nassalete Miranda, e com a presença da Presidente da Câmara Municipal, Luísa Salgueiro, do Vice-presidente e Vereador da Cultura, Fernando Rocha, entre outras personalidades.Na publicação, Helder Pacheco propõe-nos uma viagem de imagem, cor e simbologia, às memórias da Romaria do Senhor de Matosinhos, recordando as cerimónias religiosas, a feira da louça, os divertimentos ou as farturas.Os cartazes do Senhor de Matosinhos acompanham a evolução dos tempos e as mudanças que o país foi atravessando nas últimas décadas, transformações bem patentes no design escolhido por cada um dos seus autores.O apelo de Helder Pacheco deu lugar à certeza de Luísa Salgueiro que rematou a sessão com um convicto “Para o ano há de ser na rua!”, não sem antes referir a “tranquilidade” que este livro lhe traz “por saber que estamos a deixar um legado para as gerações vindouras”. “Este livro será um marco na tradição da festa. Para memória dos que cá estão e para os que hão de vir, esta obra enobrece a tradição de Matosinhos”.Aliás, o impacto da pandemia do último ano e meio na organização da própria romaria é referido na publicação que deixa, inclusive, um apelo: “No futuro socialmente armadilhado, incongruente e contraditório que aguarda as culturas e tradições populares, resta a esperança de que o Senhor Bom Jesus de Bouças, na sua graça e infinita sabedoria, anime a vontade dos homens-bons matosinhenses, para que não esmoreçam nas fadigas e fidelidades anuais de fazer a festa”.Com esta publicação, a autarquia pretende enriquecer ainda mais o acervo documental, histórico e literário do concelho.Também hoje inaugurou a exposição de fotografias e de cartazes da Festa do Senhor de Matosinhos, patente em frente ao edifício dos Paços do Concelho, numa forma diferente de celebrar a romaria condicionada pela pandemia por COVID-19.

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Helder Pacheco 

“O património mais importante do Porto são os portuenses”, diz Helder Pacheco 

No seu mais recente livro, “Simplesmente, Porto”, Helder Pacheco, autor de mais de 50  publicações sobre o Porto, diz-nos que a cidade é feita “de pequenos nadas”. Da gente,  dos animais, das casas, das varandas, dos jardins, das ruas, da celebração, das pequenas coisas e coisas sem importância, do que nos faz rir e dos lugares invisíveis. No total, são  22 capítulos, escritos com a sabedoria de quem conhece o Porto melhor do que ninguém  e o amor que por ele foi nutrindo desde tenra idade. Tudo com um único objetivo:  proporcionar uma viagem pelos pormenores da urbe portuense e mostrar que há muito  mais para descobrir, além dos grandes monumentos pelos quais é internacionalmente  conhecida. 

“Nos países e nas cidades tudo depende das pessoas. O património mais importante do  Porto são os portuenses, depois vem o resto. Portanto, eu parti das pessoas, das suas  solidões, depois abordei os sítios onde param, os interiores, as portas, as janelas, as  casas, etc. E assim consegui decompor a cidade, desde o sentido principal, as gentes, até ao pormenor mais ínfimo, que pode ser a campainha ou o batente da porta”, adiantou o  célebre autor, historiador e docente portuense, em entrevista à revista VIVA!. 

Foto: Manuel Roberto 

Todos os textos, assegurou, foram escritos à mão, numa conhecida confeitaria da Foz,  com um ar “simpático e sossegado”, pela qual tem grande apreço, A Bolacheira. As  imagens foram, por sua vez, conseguidas através de amigos fotógrafos, a quem quis  também dar oportunidade de expor um pouco do seu “magnífico trabalho”. 

Helder Pacheco contou-nos tudo sobre este novo livro, revelou a forma como vê e pensa  o Porto atualmente e como acredita que esta poderá mudar depois de ultrapassado o  período pandémico. 

Como resume este novo livro, “Simplesmente Porto”, que acaba de lançar? 

Este livro é um projeto antigo, que me andava a dançar na cabeça. De vez em quando  vinha à superfície, depois era esquecido, depois vinha outra vez…. Isto já há alguns uns  anos. 

Sempre fui um grande admirador de Miguel Torga. A obra dele é para mim uma espécie de horizonte com que me identifico. E há um poema, que é a Bucólica, que começa por  um verso que eu considero muito inspirador – “a vida é feita de nadas” – e era isso que  me andava a bailar na cabeça já há uns tempos, porque se a vida é feita de nadas as  cidades também são feitas de nadas, de pequenas coisas, que, muitas vezes, passam  despercebidas. 

Nós estamos habituados a ver nas cidades as coisas grandiosas, os monumentos, os  espaços públicos, as estátuas, as multidões, as festas, os acontecimentos, a arquitetura  em geral, etc. E passamos à margem de pequenas coisas que fazem o encanto, o  pormenor relevante, o batente da porta, a flor que está pousada, o pássaro que pousa no  beiral, a camélia florida, as magnólias no Largo 1.º de dezembro… Portanto, milhões de  pequenas coisas que nos envolvem, que dão um conteúdo afetivo e estabelecem uma  espécie de relação com o território onde nos movemos. E eu pensava “vou partir à  descoberta das pequenas coisas da cidade, dos pormenores e publico um livro”. Assim  foi! 

Como foi o processo envolto deste livro? 

Primeiro, escrevi os textos, à mão, e eles foram sendo processados. Depois comecei a  pensar nas fotografias… E como eu tenho muitos amigos (o que seríamos nós sem os  amigos?) fotógrafos, quer profissionais como amadores, comecei a encomendar-lhes as  fotografias que precisava – gente, interiores de casas, portas, janelas… Durante muitos anos só utilizava fotografias minhas. Neste momento, raramente utilizo.  Primeiro, porque dou possibilidade a amigos meus fotógrafos, alguns magníficos, de  mostrarem o seu trabalho. É uma maneira de os projetar também. Segundo, porque  muitas das fotografias deles são melhores do que as minhas; e terceiro, porque eu só  trabalho com diapositivos, nunca aderi ao analógico em fotografia. 

Mas, continuo a fotografar o Porto, sobretudo as mudanças, o antigo, o moderno, etc., o  que era e como ficou depois da reabilitação.

Foi fácil a escolha do título? 

Normalmente ando a pensar, durante alguns dias, nos títulos dos livros. Muitas vezes  vou a guiar, lembro-me de um título e depois escrevo, outras vezes acordo à noite,  lembro-me de um título, levanto-me e escrevo. Escrevo entre 10 a 20 títulos e depois  peço à família e aos amigos para escolherem um. O mais votado, muitas vezes, não é  aquele que eu gosto mais, mas, se o público, que eles representam, escolhe, eu aceito. Sendo este um livro sobre a simplicidade da vida e a simplicidade das coisas, achei que o título que mais se adequava era um título deste género. É o mais vulgar, o mais banal  e o mais simples possível, “Simplesmente, Porto”. 

“A vida é feita de nadas”. Essa é a principal mensagem que o livro pretende  transmitir, adaptada ao contexto da cidade? 

Sim. O livro pretende ser um mergulho sobre as coisas simples que também fazem a  cidade. Pretende chamar a atenção para que o património não é só o Palácio da Bolsa. É  também o batente das portas da Rua das Flores, por exemplo. 

A escrita também deve conter alguma intenção social, no sentido de fazer passar para a  sociedade em que nos movemos determinado tipo de ideias, de conceitos e de  mensagens. Neste caso, o livro pretende chamar a atenção para a importância do  património simples, mas que também dá encanto a uma cidade como o Porto. 

“Considero-me em primeiro lugar portuense e em segundo lugar português” De todos os livros que já escreveu sobre o Porto, qual é o mais especial? 

Há amigos meus que consideram que o meu primeiro livro é o melhor de todo, o que é  um pouco melancólico. Pessoalmente, gosto muito do livro das tabernas, “Porto – Adegas, Tabernas e Casas de Pasto”, do “Livro do S.João” e gosto particularmente  deste último, porque talvez seja, até, aquele que diz mais do meu sentimento sobre a  cidade. Para mim, o Porto é muito isto, estes pequenos pormenores e estas descobertas  que podemos fazer. Qualquer um de nós, se tiver a visão apurada para isso ou a visão  educada, pode descobrir esta realidade palpável que são os pormenores da cidade.

Já está a pensar no próximo livro? 

Sim, aliás, já estou a trabalhar nele. Estou a preparar o terceiro volume das crónicas que  publico, semanalmente, no Jornal de Notícias. Tenho tido a preocupação de reunir todos  os artigos, porque a escrita na imprensa é uma escrita no vento, ou escrita na areia,  desaparece rapidamente. Um artigo que sai hoje num jornal, no dia seguinte já passou.  Já ninguém se lembra, muitas vezes, porque vêm outros factos novos. Enquanto o jornal  se desfaz, o livro fica, para sempre. E esta é uma forma de dar uma certa longevidade às  crónicas que fui escrevendo. 

Já tem definida uma data para o lançamento? 

Queria ver se o lançava lá para o final do ano. Depende também da pandemia. Vamos  ver! 

Qual é a sua principal fonte de inspiração quando escreve? 

A minha ignorância é cada vez mais altamente especializada. Eu só escrevo sobre o  Porto. E, portanto, a minha fonte de inspiração única e primordial é o Porto. 

Foto: Filipa Brito 

E como vê e pensa o Porto atualmente? 

Eu penso o Porto de uma maneira positiva e otimista. Se não fosse esta tragédia que nos  assaltou, o Porto estava a passar por uma fase brilhante da sua vida cívica, da sua vida  económica. Há 10 ou 15 anos, o Porto estava a cair de podre. Havia ruas onde já nem se  podia circular, quase, com as fachadas todas decrépitas. Mouzinho da Silveira era um  quadro de vergonha e de decrepitude. O Porto, literalmente, estava a desfazer-se. E com a reabilitação urbana que foi avançada, e que começou a dar frutos, neste momento o  Porto está irreconhecível em matéria de reabilitação. 

O grande desafio que se coloca ao Porto é, além de resolver o problema da habitação  degradada, uma política de habitação social contínua, para, de uma vez por todas, se  eliminar o problema das ilhas que estão em mau estado. Há ilhas boas e ilhas más. As  ilhas boas, tal como aconteceu na Bela Vista, devem ser reabilitadas com projetos de  arquitetura moderna, que mantenham a coesão social. As ilhas que não têm solução  devem ser demolidas e substituídas por habitação confortável para quem ainda vive em  más condições. 

Deve também haver uma política de habitação para a classe média. Quem pertence à  classe média deve ter capacidade de acesso à habitação. E quem não pertence à classe  média nem é milionário também deve ter a mesma possibilidade. 

Neste momento, o Porto atravessa uma crise, como todas as cidades do mundo, mas,  internacionalmente, mantém o seu prestígio. Continua a ser um destino de eleição, eleito  por organismos internacionais de turismo e, portanto, penso que, desde que a pandemia  passe, o Porto vai reconquistar o seu lugar. Tem uma estrutura montada invejável, com  unidades hoteleiras e uma oferta de qualidade, e obras em curso que o podem mudar  qualitativamente. É o caso do Terminal Intermodal em Campanhã, que vai mudar  completamente aquele espaço. Quando o projeto do Matadouro avançar, a parte oriental  do Porto vai levar um grande avanço, também do ponto de vista cultural. E, portanto,  em relação ao futuro do Porto sou otimista. 

De que forma é que acredita que esta pandemia poderá mudar a cidade? 

Nós andamos todos esfomeados de cidade. E, portanto, quando podermos andar à  vontade nela, se calhar vamos reaprender a vê-la e a usá-la. Eu, por exemplo, ando  absolutamente esfomeado de ir passear para a Baixa e para o Centro Histórico. Ando  absolutamente esfomeado de ir passear para Miragaia. Provavelmente a pandemia vai  trazer uma nova vontade de utilizar a cidade, quer o espaço urbano, os cafés, os bares,  os restaurantes, os cinemas, os teatros, etc. A fome vai ser tanta que as pessoas vão ter,  forçosamente, de regressar ao Porto. 

E as gentes do Porto? Sairão ainda mais resilientes depois de tudo isto? 

As gentes do Porto já aguentaram, no passado, situações terríveis. Aguentaram o Cerco  do Porto durante um ano, aguentaram a peste bubônica, nos finais do século XIX,  aguentaram a inquisição 300 anos, o salazarismo durante 48 e nunca se vergaram. O  Porto tem sido um resistente. Tem sido um resistente, sempre, ao Terreiro do Paço e à diminuição da sua imagem. Continua a manter a sua autoestima em alta. E, por isso, sou  otimista em relação ao Porto… e em relação ao país também! 

Foto: Manuel Roberto 

Este Porto, do qual é público que não presume sair, é efetivamente o seu porto de  abrigo? 

Porto de abrigo é o território onde eu me sinto feliz. Isto até dava um título de um  romance – “O território da minha felicidade”. 

Em que altura da sua vida é que começou a descobrir este grande amor ao Porto? 

Tive a sorte de ter um avô em estado de graça. A minha família viveu um drama um  pouco estranho. O meu pai era republicano assumido e o meu avô era um monárquico  assumido. Então eram permanentes as discussões em casa. Um dia o meu avô, pura e  simplesmente, fez as malas e foi-se embora a dizer que não havia espaço para os dois.  Então, ao sábado, o meu avô vinha buscar-me e íamos passear e o meu pai saía comigo  ao domingo. Com o meu pai, sendo ele um grande desportista da cidade, privilegiava o  desporto. Com o meu avô, era andar de elétrico e conhecer a cidade. Normalmente  íamos até à Foz, até Leça, até à Ponte da Pedra, etc. E, portanto, o meu avô ensinou-me  a descobrir a cidade, desde muito cedo e comecei a ficar muito afetivamente ligado a ela  (…) Tinha até um caderno onde comecei a escrever um livro de viagens sobre o passado  do Porto. Recordo-me que começava assim: “Chega o viajante ao alto de Santo Ovídio e  olha em frente e vê o anfiteatro da cidade”. Escrevi isto tinha 10 anos… 

Foto: Leonel de Castro 

Prefere este Porto ou o Porto de antigamente? 

Este, porque este tem o de antigamente. O de antigamente é que não tinha este. Porque o  de antigamente também significava 80% de analfabetos, a mais alta taxa de tuberculose  da Europa, cólera, condições de higiene absolutamente insuportáveis em muitos sítios  da cidade, precariedade no emprego, salários baixíssimos, etc. O Porto de antigamente  também era isto. Mas o Porto que devemos celebrar não é este, é o do liberalismo, que fez a Revolução Liberal, que fez o 31 de janeiro, que se bateu contra a inquisição e que  era um Porto culto. Era um Poro burguês e liberal, mas que ocultava o Porto de miséria  e de vergonha. O Porto atual herda o melhor do Porto antigo e ultrapassa e despreza o  pior do Porto antigo. 

(Foto de entrada: José Rui Correia)

O performer do Bolhão

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

À entrada do Mercado do Bolhão, quadro insólito: um homem, boné do Futebol Clube do Porto, gravador ao peito, auscultadores nos ouvidos, a cantar. A cantar e a bater com as canadianas: o acompanhamento musical. Uma orquestra de muletas, um vocalista desafinado, a espantar os transeuntes. E há mãos comovidas a caminho dos bolsos, dos porta-moedas. Outras não.

O performer do Bolhão
Estou aqui a dar carinho às pessoas, a animar o povo. E as pessoas reconhecem, gostam, dão gorgetas. Só de olhar para mim ficam alegres, depois eu falo em certas coisas.

Mãe que partiste
e não voltaste
mas deixaste
o teu retrato tão lindo.

Mãe o teu retrato
é tão lindo
parece que me está ouvindo.

Eu dantes cantava em Valongo, nas paragens. E também cantava aqui, mas desde as eleições para a Câmara comecei a cantar só aqui. O Melo, presidente da Câmara, podia ser de que partido fosse, mas era uma jóia de pessoa. Agora este que para lá foi não me deixa cantar e eu vim para o Porto. Na Internet apanharam-me e estou em todo o mundo. Dantes era cantor de Valongo, agora puseram-me também cantor do Bolhão.
Eu francamente não precisava de andar nestas coisas, mas tenho pena das pessoas. O padre da capelinha das almas já me conhece, e o bispo, até os que andam a estudar para padre estiveram aqui e disseram que eu estava a fazer um papel importante. Quando estou a cantar cantigas da igreja até me vêm as bagadas aos olhos.
As pessoas têm muito amor à minha pessoa. Vem gente do Sobrado, de Valongo, vem tudo aqui. Ainda hoje Ai você nasceu em Valongo e anda aqui? Deixei Valongo porque lá não sabem respeitar as pessoas. Aqui tem mais coiso. Lá não há aquele carinho como aqui. Uns pagam por causa dos outros. Aqui até as pombas me conhecem.
Dou-lhes pão aos bocadinhos. Se eu lhes der aos bocados grandes, elas entalam-se. Alguns dão pontapés nas pombas. E eu digo, As pombas não fazem mal a vocês. Vem um, pumba, dá um biqueiro, vai outro caço-lhas, metem-nas no bolso e levam-nas para casa. Já vi um gajo a dar de comer e a caçar nas pombas, a meter ao bolso e a levá-las.

Sou portista, graças a Deus
Os benfiquistas, quando eu estou a cantar, ficam danados. Sou portista, graças a Deus, desde que tinha cinco anos. Sou do Porto há 63 anos. Lembro-me do Miguel Arcanjo, do Marujo, daqueles jogadores que já estão no outro mundo. E o Yustrich, o Pedroto. Eu sou do tempo do Monteiro da Costa, do Jaburu, Gaston, Valdemar, Carlos Duarte, Acúrsio, Hernâni, Barrigana. Sou desse tempo.

Rosas brancas
como tu não há igual
o Porto é o maior
dos maiores de Portugal.

Os benfiquistas não gostam que eu cante. Já chamaram a polícia para me autuar. Uma mulher veio aqui atirar-me com água, o pai dela anda a vender rifas. Trouxe um balde de água e atirou-me. Também o gajo da loja é um ranhoso, é um benfiquista ranhoso. Metia-se comigo, não sabe respeitar as pessoas, mas desde que o Benfica foi eliminado da taça UEFA nunca mais apareceu.
Um chegou à minha beira e disse Se você tivesse um cachecol ou um chapéu do Benfica dava-lhe uma gorjeta. E eu disse Olhe, eu não quero gorjeta do Benfica. Olhe o céu, eu assim para ele, olhe o céu, o azul, o azul e branco. É muito lindo, é a cor de Deus. Deus também é azul e branco.
Há três que vêm aqui todos os dias chatear-me. São dois trapalhões e mais um, equipado, usa óculos e tem a mania que é o maestro. Para aferroar dizem que o Benfica é campeão e que o Porto anda de caganeira. E eu digo, A caganeira passa, mas vocês dão carne podre à águia. Ide pagar o que devedes. O Porto é o maior. O Porto ganhou tudo. O Porto ganhou 20 taças Cândido de Oliveira, o Benfica ganhou 2, o Sporting ganhou 7, o que é que vocês querem? Nem o Real Madrid  tem uma Taça Intercontinental. Só o Porto. O Porto ganhou a Taça das Taças, uma Taça Intercontinental, dois Campeões Europeus, duas taças UEFA: seis. E o Benfica? Dois Campeões Europeus no tempo do Salazar.

Em Valongo são padeiros
em Sobrado lavradores
em Lordelo marceneiros
a terra dos meus amores.

Sou da terra dos móveis: Lordelo, Paredes. Os de Paços de Ferreira aprenderam a arte com os de Lordelo. Trabalhei como entalhador. O meu avô é de Valbom, também entalhador. De móveis. De todas as madeiras.
Sei mogno, sei eucalipto, sei castanho, sei de toda a madeira que calhar. Século XVII, século XVIII. Trabalhava com goivas, caixobi (o que faz a gravação), o martelo, não é martelo é maceta. E muitas goivas. Palheta 1, 2, estreitinhas, mais largas, formões. Para cima de umas 50 peças. As peças eram minhas. Eu deixei isto há mais de 20 anos, deixei lá numa mala. Na família também aprenderam a arte comigo e levaram a ferramenta, compreende. Os meus irmãos também os ensinei. E gente de fora. Às vezes pediam-me e eu ensinava-os. Eu trabalhei em casa do Madaleno, em vários. Fábricas que tinham uma média de 50 empregados. Um era Quinzinho, outro era Jardim Ferrinha. Eu às vezes trabalhava à peça em casa. Agora a coisa de entalhação foi abaixo: é tudo obra lisa. E eu também não posso trabalhar por causa da coluna e tudo o mais. Caí, fiz operação à anca, tenho a perna inutilizada.

O assobio
Estive na tropa em Moçambique. Em Tete, Beira. Era de uma companhia de Apoio Directo: mecânicos, bate-chapas, carpinteiros. Fazíamos tudo. Na tropa estive no ano de 1969 e vim em 1971. Eu era soldado. Tinha a escola de cabos, compreende, mas de certa maneira houve um problema na companhia. Cheguei dois minutos atrasado na formatura e mandaram-me cortar o cabelo. Eu agarrei e não deixei cortar o cabelo, são coisas que acontecem. Deram-me cinco dias de detenção. Depois, em Tete, no refeitório, não deixei fazer pouco. Lá um chefe de mesa começou a mandar comigo e deram-me mais três dias. Quilharam-me, ao cabo não.
Depois houve mais um problema: estava de Oficial de Dia o capitão de outra companhia, que a mim não encarava, e queria que eu acusasse um gajo. O capitão disse: Você estava na caserna tem de saber quem era. E eu disse: Não sei, eu não vi, eu até podia estar na casa de banho. O gajo era de Vila do Conde, eu não queria prejudicá-lo, compreende. Os gajos de Vila do Conde alto lá com eles. São os de Vila do Conde e os alentejanos e os madeirenses. O gajo tinha dito Quem quer ir ao cu ao oficial de dia que dê um assobio. Mas eu não disse ao capitão quem foi.

Direitos iguais
Alguns não me encaram. Não respeitam quem está no seu trabalho a dar carinho às pessoas, aos idosos, juventude, turistas. Há mulheres que ficam com ciúmes por verem as idosas a darem-me beijos. Há um que tem um clarim e uma mala e tem dinheiro dentro a entusiasmar as pessoas. O clarim dele dá muito barulho, eu tapo os ouvidos. O ceguinho que toca na esquina já foi escorraçado da Batalha. É ceguinho, mas é uma jóia de pessoa.
Olhe, àquela senhora que vem aqui roubaram-lhe a carteira:
– Oh minha senhora, noutro dia roubaram-lhe a carteira.
– Roubaram-me a carteira com a minha reforma.
Tive pena e emprestei-lhe o que tinha. Eu também fui roubado. Roubaram-me uma sacola de couro. Foram os do Benfica, não foi mais ninguém. Mas piores que os do Benfica são os da droga.
Eu tenho pena das pessoas, eu francamente já telefonei para os bombeiros irem buscar idosos. Caíam lá na estrada e eu apanhava-os. Eu tenho muito crédito em Valongo, nos bombeiros e tudo o mais. Mas há mais de um ano que eu não canto lá. Deixei. Lá tem pessoas que não têm mentalidade e eu, para não me chatear… O presidente da Câmara não é da minha cor. Eu sou militante do PSD. Durão Barroso, Santana Lopes, todos me conhecem. Já estive com eles. Estive com eles no Coliseu, estive com eles em Valongo. Às vezes dizem-me, então tu és pobre e és do partido dos ricos? E eu respondo “Então os pobres não têm os mesmos direitos que tem um rico?”.

Até os netos
O meu nome é António Ferreira Coelho. Mas, na terra, todos é por Leite que me conhecem. O meu falecido pai era russo e naquela maré puseram-lhe Leite, por ser russo. Tenho 68 anos. Casei, tive de tratar da minha vida e tudo o mais. Tenho seis filhos, três casais. Eles não querem que eu ande a cantar, mas quem manda sou eu. A minha mulher está assim um bocadinho da cabeça e eu não estou para me chatear por causa dela. Há coisas muito mal compreendidas e quando as pessoas, os filhos, querem mandar nos pais desta maneira e daquela. A mãe deu-lhes muito abuso. E têm mais amor à mãe do que ao próprio pai. Depois há certas coisas, compreende, em casa é tudo vermelho, tudo mouro. Até os netos são do Benfica.

Fotografia e texto do jornalista Augusto Baptista (texto redigido após conversa com António Ferreira Coelho, meados de 2015)
Publicado no blog “Azul Canário”

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

UM RETRATO

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Em 1984, vivi um episódio que, em livro, descrevi assim: «(…) Ao pé do nicho onde está a Santa Catarina (…) ouvi um pst envergonhado de voz de mulher “pst, ó sinhor, tire-me um retrato com os meus filhos. Ninguém nos tira um retrato pró jornal” Era a mulher das violetas, de olhos novos na face gasta, com a vida nas canseiras da dignidade, mais os filhos com os mesmos olhos novos, sim, ainda de olhares para crescer. São os filhos caras-lindas. Depois a mãe passou-lhes para as mãos uns ramos de violetas “pra ficarem milhor”. Fotografei-os. A mãe agradeceu e foram embora. Os caras-lindas olharam para trás e um deles acenou. Nunca mais os vi. Não foram pró jornal mas aqui ficaram num retrato com história breve. Para sempre. Peço a quem me ler, o favor de lhes mostrar esta página, se os encontrar nos meandros portuenses.»

Via Facebook recebi agora esta mensagem: «Ao fim de 37 anos de busca finalmente encontrei a foto que me marcou um dia, no quotidiano da minha infância. (…) Resolvi escrever-lhe por vários motivos, o primeiro é que de facto não saiu nos jornais, conforme pensávamos, segundo não foi ninguém que leu e nos fez chegar, foi a nossa pesquisa (minha e do meu irmão) que sempre ficamos com a ideia que um dia haveríamos de a encontrar. (…) A criança que lhe acenou fui eu, recordo ainda o gesto. Ainda não possuo o livro, estou à procura dele (…), tenho de preeencher esta nossa memória.»

Vendo bem, o mundo é mesmo pequeno. O Porto, disse João Chagas, não é uma cidade, é uma família. E recordando o filme de Etienne Chatiliez: “A Vida é um longo rio tranquilo”.

Helder Pacheco 2021

OLHANDO O CÉU

•2021-04-24 • 1 Comentário

Por acaso, habito um prédio situado sob a rota dos aviões que demandam o aeroporto do Porto (a pista ficará numa linha recta na direcção da minha casa). Durante anos, ver passar aviões teve pouca relevância. Era um de vez em quando (vindos do Sul, os do Norte não os vejo).

Mas sucederam acontecimentos tão milagrosos que pareceram intercessões dos padroeiros S. Pantaleão e N.ª S.ª de Vandoma. O primeiro foi o Terreiro do Paço, em momento de distracção, ter avançado com a renovação do aeroporto, transformando-o à altura das necessidades do Norte. O segundo, quando a cidade parecia um espectro, foi ter avançado a sua reabilitação que a retirou da ruína. O terceiro foi terem inventado os voos low-coast e a Rayanair descobrir o filão que a região representava. E, finalmente, com o prestígio e atractividade internacionais alcançados, o turismo converteu o Porto num destino de excelência.

E ao lá vem um sucedeu um corrupio de aviões a passarem. No último ano de vida sorridente, emprego e ruas cheias, aos fins-de-semana, a certas horas, cheguei a contar um avião por minuto. Atrás uns dos outros!

Com a maldição vírica tudo mudou. Os aviões foram rareando. Na 1.ª, 2.ª e 3.ª vagas quase nem vê-los. Um, manhã cedo, outro ao cair da tarde. Uma tristeza. Com os tripeiros em prisão domiciliária e sem visitantes tudo mudou. Na sexta-feira, tive um sobressalto: ao meio da tarde passou um avião, depois um segundo e, inesperadamente, começaram a passar cadenciados. Nem saí da varanda e fui contando: cheguei aos doze. Só faltou deitar foguetes. Será o princípio do fim deste pesadelo?

Helder Pacheco 2021

ESPLANADAS

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Ainda sou do tempo em que, no Porto – salvo na Feira Popular –, não havia esplanadas ao ar livre. Talvez por preconceito dos invernos frios, húmidos, etc. Nada convidativos para andar e conviver na rua. Desculpas… A verdade é que, europa fora, as esplanadas funcionavam com ou sem aquecimento e os portuenses preferiam os interiores a estarem ao sol ou ao relento. Fora isso, a Câmara, com a mentalidade de um Regime que suspeitava de tudo, inclusive ajuntamentos, não ajudava a que o hábito enraizasse.

Mas como a terra é redonda e o tempo tudo muda, neste capítulo assistimos a verdadeira revolução. E, por quanto é sítio, a cidade, quase do pé para a mão, converteu-se às esplanadas. Grandes (como as da Praça), médias e pequenas, conforme os passeios, largos, pracetas e algumas ruas (como em Santa Catarina). Vendo bem, com a proliferação de esplanadas (licenciadas mais 123 com um acréscimo de 810 m2), a paisagem urbana alterou-se e, acho eu, para melhor. Ganhou animação. Ganhou gente usufruindo dos espaços públicos. Impulsionada pelo turismo, jovens Erasmus, influências, aculturações, a cidade mudou virando uma página do imobilismo para novas realidades.

Mas apesar da terra ser redonda, não há mundos perfeitos. E assim, por oportunismo, incompetência, afã do lucro ou simples falta de chá, em alguns locais, mesas e cadeiras das esplanadas quase impedem a circulação dos passantes. Dificultam cadeiras de rodas e carros de bebés, obrigam a fazer gincanas para não cair nos pratos da sopa. Sim, vivam e multipliquem as esplanadas e os comeres com paisagens ao fundo, mas haja respeito.

Helder Pacheco 2021

UMA ESPERANÇA

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

O Bairro da Tapada possui tipologia sui generis e localização incomparável. Sui generis porque a sua construção utilizou como parede de apoio o muro do Passeio das Fontainhas. A localização oferece a vista esplendorosa sobre o rio, a ponte, a Serra do Pilar. Na «aldeia urbana» da Corticeira, o bairro integrava um complexo operário oitocentista na vizinhança das indústrias. Povo e trabalho, junto da Alameda construída pelo Corregedor Almada para usufruto da burguesia do Bairro Oriental.

O Bairro concitaria, nos tempos das vacas gordas, apetites imobiliários. Assim, em 2017, anunciava-se que seria comprado por uma empresa do ramo, abrangendo 88 casas das quais 35 habitadas (os contratos a prazo ficariam até ao seu termo e o mercado não tinha de fazer caridade, etc…)

Para surpresa minha (e agrado, pois pensava ter nascido no local mais um «resort» – contra os quais não tenho nada, mas não ali) vejo que o Bairro da Tapada foi comprado pela CMP e está a ser reabilitado para habitação de famílias carenciadas. A ser assim, retoma-se um pensamento que se tivesse continuidade dos anos 70 até agora, mudaria a urbanidade portuense no sentido da renovação das zonas históricas, nelas mantendo a população. Refiro-me ao projecto SAAL, cujos resultados, quase meio século depois, permanecem nas Antas, no Leal, em Salgueiros, em S. Victor, na Bouça, na linha de actuação que, nos locais onde a reabilitação se impunha, teria salvo o Porto da implosão dos seus habitantes.

Porque é vital para o futuro da cidade, espero que o projecto se concretize e possa demonstrar a justeza do conceito.

Helder Pacheco 2021

O ÂNSIAS DE CIDADE

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Depois de um ano de prisão domiciliária, vendo multidões passeando na beira-rio como se não fosse nada, estou ougado. Ansioso de Porto. De tardes libertas para ir de autocarro à Baixa. Merendar na Ateneia, meia de leite e torrada untada com manteiga. Descer os Caldeireiros até à Rua das Flores e flanar até S. Domingos. Ver se a reabilitação avançou apesar do imprevisto.

Subir Belomonte para assistir ao crepúsculo mais belo, no Passeio das Virtudes. Tomar um chocolate quente com outra torrada a pingar manteiga, no café da Porta do Olival. Abaixo a ditadura do colesterol: venham francesinhas e, se possível, farturas – ando com saudades danadas delas. E venha gente, abraços e beijos (que mal fiz eu para viver enjaulado?).

Roubaram-me o Porto. Impediram-me de calcorrear os Arcos de Miragaia. Ainda não estreei as escadas rolantes do Monte dos Judeus e há que tempos não subo até à Bandeirinha para ver a paisagem pela milésima e não sei quantas vezes. Vivo esfomeado das tílias do Palácio e de percorrer Miguel Bombarda cheia de gente. De sentir uma cidade que só espera o renascimento. Esperançadamente. O renascimento urbano e o reencontro de multidões enchendo as ruas, a reconstruírem a vida que, à falsa fé, nos subtraíram.

Ando a jogar furiosamente no Euromilhões. Se me sair, compro a casa onde nasci, na Rua do Correio, em mau estado, mando-a reabilitar e mudo-me para lá. Em espécie de retorno às origens, viver na Baixa seria usufruir das ruas andando a pé, e, com tudo a menos de 15 minutos da residência, como defendem os futurologistas pós-covid, reencontrar o Porto.

Helder Pacheco 2021

ABANEM ISSO

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Nos tempos da Outra Senhora, em que se contavam anedotas a propósito de tudo e de nada (caíram em desuso por causa das redes sociais e dos telejornais), havia uma com efeitos garantidos.

Tinha a ver com a frequência dos cinemas que, no Burgo, era assim: queques, meninas bem, senhoras da alta e selectos ocupavam o 1.º Balcão (mais caro e com melhor visibilidade), o poviléu ia para a Plateia. No Olímpia, Batalha, Rivoli, Trindade, etc. Pois certo dia dois queques sentaram-se nos lugares mais cobiçados: a 1.ª fila do 1.º Balcão e ia o filme a meio quando um deles teve vontade irreprimível de verter águas. Contorcendo-se, segredou ao amigo que não aguentava mais e urinava ali mesmo. Ao que o outro respondeu: «Nem pensar, chegas-te à beira do balcão e faz para baixo. Eles estão habituados a que lhes mijem em cima.» Assim fez, mas, às tantas, ouviu-se alguém da plateia berrar: «Ó chefe, abane isso pra um lado e pró outro, pra molhar mais gente».

Esta história veio-me à ideia a propósito do concurso da RTP “Joker” que, por razões pessoais, vejo diariamente. É que, sobretudo após a elevação do prémio para 75 000 Euros, reparei que os concorrentes são, na maioria, de Lisboa e Vale do Tejo. Como o centralismo é um desígnio nacional, presumo que o conceito subjacente a tal selecção deve ser: vamos dar oportunidade de ganhar umas massas a gente daqui e os provincianos que chuchem no dedo.

De maneira que, perante a flagrante disparidade, é caso para dizer aos senhores da RTP: «Ó chefes, abanem isso para um lado e para o outro e dêem dinheiro a mais gente, de Norte a Sul do Império.».

Helder Pacheco 2021

JOÃO MANUEL

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Brecht dizia: os homens que lutam toda a vida são imprescindíveis. Um conheço eu, a quem o retrato se aplica na perfeição pois, ao longo do último século, fez de tudo e por toda a gente, grandes e pequenos, velhos e novos, homens e mulheres. E, sobretudo, a gente desta cidade, onde nasceu e de que sempre se considerou fiel servidor: na Misericórdia, no Hospital Maria Pia, no Lar do Comércio, na Casa do Gaiato (apoiando, na rádio, os peditórios para a instituição), na Ordem da Trindade.

Mas não só. Nos seus momentos de maior dádiva, altruísmo e dedicação à causa do Bem-Comum, foi impulsionador das generosas Cruzadas de Bem Fazer do Porto. E ainda mais: aos milhentos versos e prosas que escreveu, acrescentou a Marcha Oficial do Glorioso F.C.P. Mas, sobretudo, inventou a inesquecível fábrica de paródia, gozo, crítica, gargalhadas e boa disposição chamada “A Voz dos Ridículos”, o mais antigo programa humorístico da rádio portuguesa.

Salvé, pois, o centésimo aniversário do jovem (por dentro, sim, mais novo do que muitos que andam por aí lacrimejando) João Manuel Lopes Antão, portista indefectível e portuense indestrutível que muito admiro. Dele se pode dizer, conforme Pascoaes, que «está à margem do tempo, isto é, na eternidade.» E como a maldição vírica que nos atormenta impede a jantarada que lhe iríamos oferecer (com discursos e tudo), aqui vai a homenagem de um indígena da Vitória, dando o que pode e o que lhe resta, em palavras ouvidas em Vila Chã de Aguiar: «Entra, amigo, nesta casa / se és deveras meu amigo. / Entra, abraça-me, descansa. / Senta-te à mesa comigo.».

Helder Pacheco 2021

ON THE AIR

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

A história da comunicação portuense é o retrato da iniciativa da cidade. E de descentralização. Se pensarmos que, nos meados do séc. XX, existiam no Porto três jornais matutinos, um vespertino e dois desportivos fazemos ideia da vitalidade da imprensa.

Na falta de TV, a rádio era familiar. Conforme o território, assim a estação preferida: Rádio Porto, Orsec, Electromecânico, Rádio Clube do Norte, Ideal Rádio, que formariam os Emissores do Norte Reunidos. Em 1937, para responder ao lisboeta Rádio Clube Português, surgiu o Portuense Rádio Clube, “Associação Cultural e de Recreio”. Na Av. Rodrigues de Freitas, os estúdios do PRC distinguiam-se pelas condições técnicas, convertendo-os em auditório de espectáculos e entretenimento. Neles nasceu, em 1945, a “Voz dos Ridículos”.

A paisagem radiofónica da cidade, afirmava uma cultura que a identificava, com locutores que o público admirava. Recordo alguns, celebrando quanto trouxeram aos portuenses: Fernando Gonçalves, Mário Socorro, Júlio Guimarães e Rocha Curado (que formariam um dueto musical), da escola do PRC. O popular Júlio Silva (Ideal Rádio), Laura Moreira (Electromecânico), Ramiro da Fonseca (Orsec). Ou Carlos Silva, Abílio da Fonseca, Ernesto Oliveira, João Montalverne, Ápio Garcia, Alfredo Alvela, Eugénio Alcoforado. A emissora do regime (dita “Massadora Nacional”) tinha, no Porto, locutores apreciados: Humberto Mergulhão, Carlos e Fernando Vitorino de Sousa, Alfredo Pimentel…

Eis um património em vias de extinção, tal como a independência, a autonomia e, sobretudo, a identidade tripeira em matéria de radiodifusão.

Helder Pacheco 2021

UM MONUMENTO

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

No notável livro “1820 a Revolução Liberal do Porto”, José Manuel Lopes Cordeiro põe tudo em pratos limpos. Desde a ligação imprescindível entre o Burgo e a revolução, até às reticências e traições de saudosistas do Regime deposto.

Um assunto permanece actual: a construção do monumento consagrado ao acontecimento. Facto controverso, o livro retoma argumentos expandidos em 1912 por Alberto Bessa dando a conhecer a história do projectado monumento, cuja primeira pedra foi lançada na Praça da Constituição, em 24.8.1822. Para o efeito, seria aberto um concurso ao qual concorreram Joaquim Rafael, João Baptista Ribeiro e João Francisco Guimarães. Depois de muita discussão foi escolhido o projecto do primeiro, súmula grandiosa dos ideais do liberalismo expressos em alegorias à Constituição ou ao patriotismo.

A iniciativa ficou gorada logo em 1823, com a contra-revolução absolutista. Até 1834 não seria possível construir o monumento, e, após a vitória liberal, no seu lugar ergueram a estátua de D. Pedro IV.

Já que, salvo no Porto, o aniversário da Revolução passou como se não fosse a semente da nossa democracia, era digno assinalar os 200 anos do lançamento da 1.ª pedra construindo, finalmente, o monumento ao arrojo e determinação tripeiros. No sítio certo: o Campo 24 de Agosto, um projecto grandioso (como fora pensado), com o espírito do nosso tempo e a memória de 1820. E se não temos Miró, Zadkine, Moore ou Calder para o conceber, possuímos gente à altura na cidade: Zulmiro ou Helder Carvalho, José António Nobre, Souto de Moura…

Aqui fica o desafio à Ilustríssima Câmara.

Helder Pacheco 2021

DA DIGNIDADE

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Quero dizer: da dignidade do trabalho. Que nem sempre é respeitado e retribuído na justa medida da sua utilidade social. Sobretudo o trabalho indiferenciado, de pouca evidência. Muito dele braçal, exigindo esforço, incomodidade e risco. Nem celebrado ou reconhecido com a consideração das profissões vistas como «nobres».

Nos espaços públicos do Porto existem algumas homenagens aos que o jornalista Armando Gonçalves designou (em 1939) como «humildes que trabalham». Através da escultura foram consagrados o pedreiro, o ardina, a camponesa e, recentemente, a carquejeira. Convenhamos: é pouco povo. E a situação mais evidente respeita à classe operária: chegou a constituir um terço da população da cidade, que lhe deve muito da sua grandeza (a única representação encontra-se no baixo-relevo da fachada do Cinema Batalha, onde o operário é representado pela figura que empunha um martelo e um cadeado).

Da varanda de minha casa vejo quase diariamente um desses anónimos despercebidos. Que, sem darmos por isso, são indispensáveis. Sem eles, o quotidiano seria pior e a cidade insuportável. Falo do varredor que, Verão ou Inverno, faça chuva ou sol, imperturbável, limpa ruas e passeios, com um ferro retira detritos dos bueiros, de vassoura e pá em riste apanha o lixo. E, varredela feita, ala, empurrando o carro de mão que lhe serve de depósito.

Nem precisa que alguém o vigie ou controle. Persistente, cumpre o seu dever em benefício de todos e da decência do meu bairro. Até aos sábados e domingos anda por aí, incansável. Na sua solidão daqui o saúdo e admiro, trabalhando pelo Bem-Comum.

Helder Pacheco 2021

DOS CONFINAMENTOS

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Dizia não sei quem: «Quando a cultura desce, o animal sobe». Embora se aplique à situação actual, a realidade proporcionou o aparecimento de nova máxima: «Se queres saber o estado da Nação, confina a população».

De facto, o confinamento permite-nos radiografar a la-minuta a casa comum. E possuo observação privilegiada para um hipermercado, a esplanada de um restaurante, a marginal do Douro. Assim, no 1.º confinamento, o povo amedrontou-se. Tomou-o a sério e reagiu como na Guerra: bichas, sacos a abarrotar, açambarcamento nas despensas, toneladas de papel higiénico. Mantimentos para meio ano repostos diariamente.

No 2.º confinamento veio o Natal. Soft: almoçaradas e jantaradas em grupos (a boa comida é uma tentação), como se a pandemia tivesse voado para Marte. Azáfama consumística para compensar sacrifícios. E quais máscaras, quais carapuças, na beira-rio as multidões passeavam-se!

No 3.º confinamento, com a vaga a subir como as da Nazaré, as televisões continuaram a despejar o pânico e os comentários de centenas de «especialistas». Acabaram as jantaradas de convívio, não há bichas, o papel higiénico flui normalmente. Na beira-rio nota-se que seremos campeões olímpicos, tal a quantidade de corredores, as pessoas passeiam mais cães do que crianças, os casais acasalam. Nalguns sítios, os ratos desviam as vacinas. Enquanto isso os lixeiros trabalham de noite, o varredor varre de dia, o hipermercado mantém-se activo, o carteiro traz a correspondência. O saldo final vai em 15 600 mortos e esta é a ditosa Pátria minha amada. Mas como não tenho outra, por ela me fico.

Helder Pacheco 2021

DO FACHADISMO

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Noticiou o JN que o ICOMOS, organismo da UNESCO, colocou o Centro Histórico do Porto na lista do património em perigo. Para isso identificou 14 obras em andamento ou realizadas, recomendando um projecto de intervenção no Morro da Sé. Continua a aludir ao «fachadismo» em processos como as Cardosas e pôs em causa o projecto da “Time Out” para a Estação de S. Bento.

A menos que o ICOMOS tenha representantes no Porto, é mais Terreiro do Paço aplicado ao Burgo. E, por tal motivo, enviesado. O «fachadismo» das Cardosas é argumento que, sem querer, diz a verdade: quem conhecia o Palácio das Cardosas sabia que só tinha fachada. O resto, há muito fora alterado. Quanto à Estação de S. Bento, também só tem fachada: fantástico hall e pouco mais nos corpos laterais. Até ao túnel, são armazéns de mercadorias, sem qualquer valor. S. Bento nunca foi completada, por falta de recursos. Começa esplendorosa e remata indigente. O projecto da “Time Out” será a oportunidade de valorizar um espaço sem categoria urbana. Quanto à Sé e à intervenção naquele bairro, dou a palavra ao meu amigo Joel Cleto, que sabe do que fala: «nos anos 80 e 90, como arqueólogo, em escavações na Viela do Anjo, na Bainharia ou na Rua Escura, ia assistindo literalmente ao desmoronar de uma cidade ao abandono. Quem hoje fala de gentrificação e fachadismo nem sabe que, àquele ritmo, nem fachadas teríamos por muito mais tempo. É claro que o Turismo (uma conquista civilizacional e democrática) fez muito, mesmo muito pela cidade. Estou farto desses “profetas” que nunca conheceram essa cidade de miséria e abandono.».

Helder Pacheco 2021

COINCIDÊNCIAS

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Três factores motivaram os portuenses para revoluções: irem-lhes ao bolso, ofenderem-lhes direitos, verem a liberdade ameaçada. E a reacção do Terreiro do Paço traduzia-se em repressão ou boicote. Sem o poder na mão, a Corte reagia.

Em 22.10.1629 o Secretário de Estado veio ao Porto sacar impostos. O povo, amotinado, expulsou-o. Além da intervenção militar, a Corte enviou uma alçada. Debalde. 1661: Motim do papel selado. O Porto recusou-o e a Corte mandou Cavalaria e Infantaria imporem a ordem. 1757: Motim dos Taberneiros contra o monopólio da venda de vinho: 283 presos e 17 execuções. 1828: Revolta liberal e formação, no Porto, de uma Junta Revolucionária. Repressão e execução de 10 implicados. 1846: Patuleia: Junta de Governo do Porto, vencida pela intervenção inglesa e espanhola a pedido da Corte. 31.1.1891: Revolução republicana, nem o Partido Republicano da capital a apoiou. Feridos e mortos indeterminados e centenas de presos. 3.2.1927: Revolta contra a Ditadura Militar. Apesar dos apelos, Lisboa aderiu a 7.2, com o Burgo bombardeado, 500 feridos e 100 mortos. Sarmento Pimentel diria: «chamávamos àquele levante tardio a “Revolução do Remorso”».

O livro sobre a Revolução Liberal de 1820 revela as reticências da capital e a aversão da Regência. Enviado a Lisboa para obter apoios, Silva Carvalho informaria «que nada se podia esperar da indolência e inércia dos habitantes daquela cidade, em que não encontrou nem resolução, nem esperança do mais pequeno auxílio». Fica explicado o quase esquecimento que rodeou a comemoração dos 200 anos da matriz da nossa Democracia.

Helder Pacheco 2021

•2021-01-23 • Deixe um Comentário