Helder Pacheco: o Porto em mais de 50 livros

•31/10/2016 • Deixe um Comentário

Passaram mais de 30 anos desde a publicação de Porto, o seu primeiro livro sobre a cidade, de capa azul, difícil de encontrar actualmente e ainda motivo de muitos contactos recebidos pelo historiador. Antes desse mergulho na história da urbe, tinha feito estudos na área da educação. Estudou Belas Artes, Ciências Pedagógicas e História, nas Universidades do Porto e de Coimbra. Passou por várias cidades europeias. É cronista do Jornal de Notícias há mais de 25 anos e continua a dar aulas uma vez por semana, no Instituto D. António Ferreira Gomes. É em casa, no escritório de prateleiras cheias, com o Douro como vizinho, que gosta de escrever. À mão, a lápis. Aos 76 anos, produz a um ritmo alucinante — como atestam as mais de 50 obras publicadas. Para este livro — tamanho XL à venda por 48 euros — contou com a colaboração de mais de 20 fotógrafos e uns tantos amigos e conhecidos. Uns passaram os escritos do papel ao digital, outros mergulharam em arquivos, leram jornais do século XIX, outros do século XX. “Nesse aspecto é um livro colectivo”, diz como quem agradece. O próximo, “nostálgico e poético”, já está a ganhar forma.

Algumas adegas em imagens:
S. Martinho
Alfredo Portista
Adega Rio Douro
A Badalhoca
Casa Louro
fotos: Manuel Roberto / Nelson Garrido – P3Cultura Público 30.10.2016

O Porto em extinção visto das tabernas

•31/10/2016 • Deixe um Comentário

Começou com as adegas, as tabernas e as casas de pasto. Acabou a falar de toda a cidade. De tradição e modernidade, opções e inevitabilidades, reabilitação urbana e suas consequências. Uma viagem nostálgica pela história do Porto com o novo livro do historiador Helder Pacheco

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A hora de almoço ainda vem longe, mas no Alfredo Portista os relógios não impõem a agenda. Bebe-se vinho, cerveja, uma “pinga” qualquer. Pede-se “um mastigo” para acompanhar. A adega está composta. Numa mesa ao fundo da sala, duas turistas japonesas observam a parafernália da decoração como quem vê um monumento. Uma dezena de clientes discute futebol — e o ânimo não deixa dúvidas: o fim-de-semana correu bem ao FC Porto. “Hoje é um bom dia para vir aqui”, comenta sorridente Helder Pacheco, ferrenho adepto azul e branco. À mesa com o historiador portuense, a conversa é sobre tascos, a propósito do seu novo livro lançado esta semana. Mas, ao falar sobre eles, já o assunto é o Porto — e “a morte de uma certa cidade perante um mundo em mudança”. Uma inquietação por aquelas bandas do centro histórico, morada do Alfredo Portista, onde os habitantes vivem a braços com a “invasão” turística.

— Oh senhor professor, queria pedir-lhe um favor. Fale lá com quem manda nisto, que eles ouvem-no. O turismo na cidade é preciso, mas tudo tem um limite. Já não se pode viver aqui!

 Helder Pacheco está habituado ao modo “cunha”, ainda que no seu percurso não tenha cargos de decisor. José Lisboa, 66 anos, reformado, conhece o “professor” há muito tempo. Dos livros, jornais, televisão. Nos últimos anos, anda aflito com a cidade à la carte para os turistas. Vive na Rua do Comércio, em pleno coração do Porto, e jura a pés juntos que mesmo já tendo passado por várias cidades da Europa nunca viu fenómeno assim. “Os turistas são bem-vindos, mas que diacho: não se esqueçam de nós.”

 A narrativa não saiu dos trilhos ao fugir para a “batalha” entre moradores e visitantes da urbe, entre a tradição e a modernidade.

Mas vamos recuar. Falávamos de tascos.

Helder Pacheco tinha feito um inventário em 1997. Em pesquisas para um livro sobre o Santo António, patrono do comércio tradicional, contou na cidade uma centena de tabernas. Eram ainda muitas — e ao mesmo tempo poucas, pensando nas mil contabilizadas em 1920. Quando há cerca de quatro anos integrou o Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto (GAATP), apercebeu-se de que algo tinha mudado. “A confrontação entre o que vi em 97 e nessa altura alertou-me para o problema”, contou ao P3.

 Estava encontrado o ponto de partida para o livro “Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo” (Edições Afrontamento). Helder Pacheco atirou-se à pesquisa a pensar numa obra sobre esses lugares onde o Porto é tão Porto: as adegas e as tabernas, por definição “locais de venda de vinho a copo”, e as casas de pasto, onde ao vinho se junta o petisco. Não pretendia burilar um estudo etnográfico, nem tão pouco um roteiro gastronómico desses locais castiços — ainda que pelas quase 400 páginas do livro estejam também as moelas, a farinheira e as pataniscas, a orelheira, pratinhos de presunto e punhetas de bacalhau.

 Queria estudar e homenagear essa tradição popular e operária, as “pátrias da conversa” (como lhes chama o historiador Christopher Lasch), “sítios do lazer por excelência”, representantes da “cultura dos pobres” (por sinal “bem mais rica do que muita da erudita que para aí anda”), como diz Helder Pacheco. Queria falar de solidariedade e dos vizinhos feitos família em convívios de taberna, dos mealheiros e das “caixas de 20 amigos”, onde se recorria com juros baixos em caso de aflição. Recordar os grupos excursionistas, que se quotizavam para sair uma vez por ano até Guimarães, Viana do Castelo, no máximo Lisboa.

O passado ficou lá atrás

A história contada por Helder Pacheco não é, ainda assim, a da morte dos tascos, ou pelo menos ele não gosta de a nomear dessa forma: “Prefiro chamar-lhe o último ciclo de um mundo em extinção”. Esse mundo do século XIX, sobrevivente no século XX, ainda a respirar, com dificuldades, em 2016, readaptando-se à época ASAE. “As tabernas estão a acabar. Foram abandonadas, emparedadas, esquecidas. Deram lugar a prédios e hotéis.”

 Das genuínas, restam “não mais de uma dúzia” em toda a cidade. O Alfredo Portista, a Adega Floresta, a Adega Mesquita, a Adega do Olho, a Flor do Palácio, a Casa Louro, O Golfinho, A Badalhoca, a Tasca da Dona Cremilde. Pouco mais. “A mais bonita e tradicional”, a Adega S. Martinho, fechou a 12 de Agosto, estava já Helder Pacheco a dar os últimos retoques no seu livro. Teresinha, Maria Teresa Teixeira, sucumbiu à força do imobiliário. Na sua adega, onde por 46 anos se fizeram contas em escudos no mármore do balcão, vai nascer um hotel. A notícia valeu ainda uma página, “in perpetuum”, no fim da obra do historiador: três parágrafos e algumas imagens, em jeito de homenagem, testemunhas de um tempo que passa rápido demais.

 Teve sabor agridoce, o acontecimento. Por um lado certifica a reabilitação urbana a dar cartas na cidade, por outro arrasa-lhe o que de mais genuíno ela tem. “O Porto é hoje um espaço contraditório entre forças muitas vezes antagónicas”, analisa Pacheco. E esse foi, a dada altura da escrita do seu livro, o seu “drama”. Para quem quer ser “intelectualmente honesto”, este jogo é realmente de “difícil equilíbrio”.

 Qual dos caminhos escolher? A tradição, onde é o povo quem mais ordena, mas sem sustentabilidade económica? Ou a modernidade, cheia de turistas e de bolsos cheios, mas sem a população lá dentro? Helder Pacheco aponta para uma terceira via, uma balança onde caibam os dois mundos — mas isso, diz, ainda ninguém descobriu como fazer.

 Do livro sobre tabernas, desenhou-se então uma reflexão sobre dois séculos de uma cidade. E nessa análise não entram só as mudanças naturais do tempo. Se a desindustrialização era inevitável, se a rejeição desses espaços pelo povo, à medida que melhorava de vida, era previsível, o mesmo não se pode dizer da “deliberada terciarização do centro do Porto”, aponta. “A partir dos anos 60, disse-se que o centro era para os serviços, para a banca, para os escritórios. E vai daí os cinemas acabaram, o comércio acabou, os tascos acabaram, as pessoas foram-se embora.” A realidade é-lhe próxima. Alguns dos seus melhores amigos, “portuenses de gema”, mudaram-se para os arredores, tal como fizeram 100 mil pessoas nos últimos 30 anos.

Nostalgia sim, saudades não

Foi essa a “grande tragédia da cidade” e “não tinha de ter sido assim”, meneia a cabeça, irritado com os “sucessivos erros políticos”. Que ninguém confunda o seu discurso com saudosismo. O mundo mudou — e ainda bem que mudou. “Neste sítio onde estamos agora o passado significava desemprego, pobreza, degradação absoluta. Não tenho qualquer saudade disso.” O que lhe vai no coração é outra coisa: “Nostalgia por uma certa cidade humanizada, densa, popular e cheia de identidade.”

 Helder Pacheco nunca fez das tabernas segunda casa — até porque é um abstémico convicto. Mas desde miúdo que se sentiu atraído por elas. Na Rua do Correio (agora Conde de Vizela), onde nasceu, não se cansava de espreitar um tasco que por lá havia. O pai, cliente da Adega do Galo, onde comprava fogaças, levava-o muitas vezes com ele. Mais tarde, “parava intelectualmente” em várias. Gostava de “observar”. Ao restante comércio tradicional faz questão de se manter fiel: só faz compras na Baixa e recusa-se a entrar em grandes superfícies.

 Ao terminar a empreitada deste livro sentiu-se leve: “Acabou por ser um testemunho espiritual do meu incómodo com certas mudanças”, diz em jeito de balanço. Agora basta desse “pesadelo” por uns tempos. Na próxima obra, já em andamento, caberá apenas “a cidade bonita”, pintada com textos “nostálgicos e poéticos”.

Entretanto, a pensar na preservação da tradição das tabernas, o historiador tem sonhado com o GAATP um espaço museológico onde se recriasse a S. Martinho. Têm todo o espólio guardado — a porta vai e vem, cadeiras, balcão, mealheiro — e aguardam apenas bons ventos políticos. O futuro, esse, é um manto de nevoeiro. Subordinado às opções dos descendentes dos donos dos tascos. À vontade de outros jovens pegarem em projectos do género. Até quando resistirão as adegas, tabernas e casas de pasto genuínas da cidade? “Honestamente, não sei”, responde. “Como diria o Bob Dylan: ‘The answer, my friend, is blowin’ in the wind’.”

Texto de Mariana Correia Pinto – P3Cultura / Público 30.10.2016

A Pele do Porto

•27/10/2016 • Deixe um Comentário

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Como os tascos explicam o Porto

•27/10/2016 • Deixe um Comentário

Adegas, tabernas e casas de pasto da Invicta deram a Hélder Pacheco pretexto para resgatar memórias da cidade violentada e sobrevivente. Um livro cheio de Povo e de copo cheio. Muito além do petiscanço.

Hélder Pacheco, autor do livro 'Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo'

Hélder Pacheco, autor do livro ‘Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo’

Se dúvidas houvesse, o fim recente de uma das mais antigas e castiças tascas do Porto, para dar lugar a um futuro hotel, prestou-se a epitáfio de um tempo e dos seus lugares. A 12 de agosto, a Adega São Martinho, “sobrevivente tardia de um mundo em extinção”, despediu-se de amigos e compinchas. Serviu os últimos petiscos e desmontou as portas “à Texas”, azuis e brancas. Dona Teresinha, proprietária do espaço, recolheu os santinhos de barro, mandou retirar o relógio do FC Porto da parede, a dar os últimos batimentos, e distribuiu abraços apertados sem tirar o avental.

Naquele dia, não se finou apenas um dos raros exemplares do já moribundo universo tasqueiro da cidade. “Assistimos ao desaparecimento de uma forma de cultura popular, do lado fraterno e inclusivo da cidade, das suas gentes trabalhadoras”, descreve o escritor e investigador portuense Hélder Pacheco. “As tabernas vão acabando emparedadas, violentadas, destruídas, para darem lugar a prédios. Sobram meia dúzia de resistentes e uns poucos que se modernizaram para alimentar a nostalgia da classe média e saciar a curiosidade turística pela tradição e pelo exótico”, resume o autor do livro Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo (Edições Afrontamento). A obra será apresentada esta terça, 25, pelas 21.30, na Fundação Engenheiro António de Almeida, pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, e terá, além de apontamentos musicais, uma intervenção do jornalista Alfredo Mendes em jeito de desafio: “São servidos meus senhores?”.

Memórias da cidade cerzida

Hélder Pacheco, em boa verdade, não se atirou a esta empreitada de três anos à boleia do “dantes é que era bom”, com propósitos saudosistas. Detesta-os, fica já aqui lavrado. “Se fosse dado a passadismos, o Porto ainda jogava no Campo da Constituição e eu ainda tomava banho no Rio Douro”, ironiza o autor. Mudança e transformação da cidade são, pois, inevitáveis e “bem-vindas”, até porque, reforça, “a História não se escreve em marcha atrás”. Seria até heresia dizê-lo num momento em que a cidade vive, aqui e ali, pujante. “Se não nos pusermos a pau e passarmos o tempo a lamentar o que já foi, daqui a nada estamos a defender uma sociedade que não queremos e não era, de todo, mais justa”, refere o escritor. O problema é outro: para chegar aonde chegou, a urbe permitiu a destruição de boa parte da paisagem social e humana profunda, de laços e solidariedades, na qual os tascos assumiam papéis insubstituíveis de vizinhança, comunidade e socialização, com algazarra e chagas operárias à mistura. “Esta feição, esta personalidade da cidade, feita de bairros onde tudo estava próximo e todos os relacionamentos, proteções e cumplicidades eram possíveis, foi quase completamente varrida do mapa em nome de uma lógica de progresso, desenvolvimento e modernização cuja espiritualidade é difícil descortinar”, escreveu Hélder Pacheco na introdução do livro, passagem cuja escrita lhe deve ter revolvido as tripas. “Em boa verdade, apeteceu-me começar a desancar os executivos da Câmara, a partir de 1930. Contive-me, mas é imperdoável que tenha sido assim. E não tinha de ser”, reforça, em conversa com a VISÃO.

No início, Hélder Pacheco queria escrever uma obra com propósito de inventário, realçando as gentes, sabores, odores, virtudes e tragédias – que também as há – destas “pátrias da conversa”, parafraseando o historiador norte-americano Christopher Lasch, uma das suas influências. Em 1997, o escritor portuense dera por si a contar ainda mais de cem adegas, tabernas e derivados, resistentes e contagiantes. Quase vinte anos depois, notou, desalentado, que a cidade mudara mais do que ele próprio pensara. “A grande maioria de sítios já não existe. Há fotos lancinantes do seu fim. Outros levaram com prédios de 15 andares em cima”, lamenta.

Dessa realidade, dos elogios fúnebres das notícias e dos resquícios dessas “testemunhas perturbadoras de um tempo extinto”, nasceu “outro” livro. Perto de 400 páginas serviram, pois, para “refletir sobre as mudanças na cidade”, a perda de população (100 mil pessoas em pouco mais de três décadas), o desbotar dos laços que a cidade tece, o desterro dos seus habitantes. “Alguns dos meus melhores amigos vivem hoje em Ermesinde, Valadares, Santo Ovídio”, atalha Hélder Pacheco. Por isso, as perguntas, a partir das tabernas ou da memória delas, tiveram de ser outras: “O que mudou no Porto porque tinha de ser mudado? O que mudou por motivos políticos e o que mudou por destruição?”, exemplifica o autor.


Outro Porto, outros caminhos

Daí nasceram outras histórias.

Por isso, o livro começa por ser habitado por um “repositório de estabelecimentos pitorescos”, mortos e vivos, sem fantasias nem aspirações a idolatrá-los. A partir do olhar cúmplice da taberna, e de barriga encostada ao balcão, abre depois caminhos para a discussão – conflituosa, claro, que se há de fazer? – sobre dois séculos de vida na cidade e o que nela houve de inclusivo, ou do avesso, com rasteiras passadas às gentes mais vulneráveis e fragilizadas ou perdas irremediáveis geradas pela “erosão cívica”.

O livro promete partilhar o cheiro de cozinhas e cozinhados, sim, era o que mais faltava! Conversas salgadas a tripas enfarinhadas, pataniscas, orelheira, bucho, rancho, em cenários de azulejo com dizeres populares ou arrebiques clubísticos, onde nunca faltaram pipas, humor, vidas no arame, e camaradagem rua fora. Sem esquecer as coesões à volta da bola, dos pombos, das cartas, do teatro popular, dos mealheiros comunitários, ou os vícios, marginalidades e violência, tantas vezes resultado de existências a verem-se pelos remendos e costuras. “Lutei contra o meu próprio instinto nostálgico ao escrever este livro”, admite Hélder Pacheco. “Não há comparação com a qualidade de vida e as condições sociais de hoje. Mas o que se fez às gentes e a alguns lugares desta cidade mais humanizada foi, em alguns casos, criminoso”, assume.

Por isso, além dos tascos e das mercearias “tem tudo”, das suas montras “às três pancadas”, das decorações de São João, das tabuletas de folheta, dos nomes castiços, das ementas escritas por mãos besuntadas com letras gordas, estas novas páginas da lavra do escritor e respigador de décadas e incontáveis obras sobre o Porto e os portuenses, são também sobre personagens: trabalhadoras, biscateiras ou coçadoras de esquinas, defumadas no quotidiano remediado, afectas ao palito, às azeitonas, à sopa caseira, ao bacalhau frito, plenas de gorduras bárbaras, hoje policiadas por leis e viveres padronizados, de fusão.

Por isso, resiste também neste livro a memória da “cidade rumorosa, povoada e profunda”, coerente, fecunda e de desolações amparadas. Sim, os bairros, as ilhas, as ruas, as fábricas e “as relações apertadas de vizinhança e do trabalho ao pé da porta”. Escritos que nos levam à memória “de um certo Porto popular e operário”, à “cultura dos pobres”, à rudeza dos dias e da mão-de-obra quase escrava e paga como tal.

E se o olhar repousa nas ruínas desse tempo, diante de portas fechadas, janelas entaipadas e gentes centrifugadas para a periferia, o que sobra desse mundo, ao menos, para tasquinhar? Hélder Pacheco, excursionista militante do Grupo de Amigos das Adegas e Tascas do Porto, recomenda que se passe pelo Alfredo Portista, Adega Mesquita, Flor do Palácio (que, em breve, receberá distinção a condizer com a tradição), Adega Floresta, Adega do Olho ou Casa Louro, e se espreitem – e se experimentem – o sabor de abraços feitos, da tasca da Dona Cremilde. “Noutro tempo”, refere, nostálgico, Hélder Pacheco, “ter-se-ia justificado um SAAL [Serviço de Apoio Ambulatório Local, projecto arquitectónico e político pós-revolução] para as tabernas, mas agora é tarde”.

Miguel Carvalho / Visão online / 24.10.2016

Livro de Helder Pacheco recorda adegas, tabernas e casas de pasto do Porto

•27/10/2016 • Deixe um Comentário

26-10-2016

Foi esta terça-feira lançado o mais recente livro de Helder Pacheco, “Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo”.

O novo livro do escritor recorda adegas, tabernas e casas de pasto da cidade e fala de memórias da cidade de outrora. No livro, o autor afirma: “este não pretende ser um livro apenas sobre os tascos do Porto, nem um itinerário gastronómico ou um repositório de estabelecimentos pitorescos para usufruto de certas franjas da classe média. O lançamento do livro decorreu com a Fundação Engº António de Almeida e contou com a presença do presidente da Câmara, Rui Moreira.

porto.pt / Miguel Nogueira

 

“PORTO – Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares de convívio do Povo”

•22/10/2016 • Deixe um Comentário

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Lembrança de D. Teresa

•06/09/2016 • 1 Comentário

No dia 12 deste Agosto sobressaltado, o Porto perdeu um ícone: a Adega S. Martinho. Não por inutilidade mas porque, simplesmente, as mudanças no tecido da cidade não se compadecem com os símbolos de uma tradição cujo sentido era diferente do nosso.

De uma tradição popular e operária que atravessou o séc. XX e se desvanece com o fim das comunidades de que emergia. E de uma cultura em que as tabernas desempenhavam papel fulcral como espaços de convivência. Nelas firmaram raízes o mutualismo (nas Caixas dos 20 Amigos), o aforro (nos mealheiros), os lazeres (nos grupos excursionistas), o desporto amador (clubes de futebol, pesca, atletismo e columbofilia), o entretenimento (jogos, rádio e T.V.). E, sobretudo, o encontro com os amigos. A conversa e a discussão – essências da vida cívica.

Lugares de socialização informal estreitamente ligadas à vizinhança eram, vendo bem, os «lugares intermédios» (Oldenburg) entre o trabalho e a habitação. O seu desaparecimento representa não a morte da cidade (que está viva, mas é outra e já não a que sustentava 1 000 tabernas, em 1755, e 1862 – incluindo casas de pasto – em 1924), mas o ocaso de «uma certa cidade», densa, terra-a-terra, significante. Ou, se não quisermos iludir os factos, pobre. Uma cidade mais de povo e menos de classe média.

Depois do fim da Casa Correia, da Adega Vieira («o melhor bucho do Porto») e de dezenas de outras, com a Adega S. Martinho encerra-se um ciclo da vida portuense. Da nossa própria vida. Dos sobreviventes de uma cidade “ao nível do rés-do-chão” de que um dia destes restam a memória e a nostalgia. (E a lembrança daquele sorriso, cheio de doçura, de D. Teresa, que fazia contas em escudos e preparava um polvo com molho verde que não era deste mundo pré-fabricado a que nos vamos adaptando.)

©helderpacheco2016