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•2020-07-04 • Comentários Desativados em

CAPA_SimplesmentePorto

A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

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DA TRADIÇÃO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Na rua mais pequena do Burgo, dedicada a Afonso Martins Alho (que, por ter comido as papas na cabeça dos camones, merecia melhor), havia uma tabuleta de vidro. Há muito desaparecida, apontava um dedo para o outro lado dizendo «Adega do Olho é ali». Mas o olho era desenhado e não escrito.

E o outro lado era um beco sombrio. Ao fundo estava a propriamente dita encimada por outra tabuleta, com o mesmo símbolo, informando: «A Adega do Olho é aqui». Uma parte da sua popularidade adveio-lhe desta iconografia que a transformou de antiga casa de pasto servindo aquela zona da Sé, em símbolo da tradição do agrado da classe média.

Na última fase, a Adega do Olho, sem o fulgor de outrora, representava o encanto nostálgico de certo Porto a despedir-se. A cozinha mantinha os pergaminhos de D. Alice: as tripas das 5.ªs feiras e o bacalhau à Braga eram imbatíveis. Mas havia outro património: o mestre de cerimónias Snr. Sousa, com o maior bigode da Invicta (fazia contas na toalha da mesa e filosofava). Quanto ao mais, o beco era um misto de degradação, estacionamento selvagem e decadência urbana. Até a velha tabuleta fora substituída por uma réplica.

Passei por lá há dias e vi tudo mudado. A arquitectura foi reabilitada, o espaço é atractiva esplanada e a adega da nossa saudade deu lugar a um restaurante de bom desenho e excelente cozinha. Moral da história: nem sempre a tradição qualifica a cidade. Coisa que o poeta Luis Cardoza y Aragón assim explica: «A tradição é uma fénix, não uma múmia. Há uma diferença entre viver na tradição e criar a tradição, porque ela é uma criação incessante.»

Helder Pacheco 2020

UM SÉCULO DE ORGULHO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Em 13 de Maio de 1798 era inaugurado o Teatro do Príncipe que, no ano seguinte, passaria a chamar-se de S. João. Desde logo, a sua vocação operática teria expressão numa cidade contraditória entre o provincianismo do fundo rural e popular e o cosmopolitismo de uma burguesia aspirando a voos europeus (e, pelos negócios, habituada a eles). Seguindo as modas da época, a opção seriam óperas e bailados italianos, hábito mantido até meados do século XIX. Só em finais de oitocentos compositores franceses e alemães viriam à ribalta. No entanto, a supremacia italiana voltaria a impor-se. De permeio, algumas óperas portuguesas conseguiram «furar o cerco». A par, sucediam concertos memoráveis.

Com sucessos e sobressaltos económicos, o S. João chegou ao século XX como alicerce da vida cultural do Porto. E quando, em Abril de 1908, um incêndio destruiu o teatro não abalou a devoção portuense pelas artes musicais e cénicas.

Assim, em 1920 o actual edifício seria inaugurado. Projectado por Marques da Silva, assumiria a influência francesa na sua arquitectura inovadora e manteve a vocação do teatro lírico. Todavia, em 1932, no meio do desgosto e dos protestos de parte da cidade, sucumbiria à tentação irresistível do cinema.

Pertenço à geração cinéfila que fazia do S. João local de peregrinação, mas não tenho dúvidas de que a sua compra pelo Estado o salvou da mediocridade, em época de decadência urbana do Porto. Devo, todavia, confessar: tenho pena que uma cidade como esta – e como sucede em quase toda a Europa (e não só) – não mantenha o seu teatro de ópera. Apenas isso.

Helder Pacheco 2020

DA SERRANA

•2020-10-06 • 1 Comentário

A qualidade do poder económico, social e cultural é-lhe concedida na relação com o chamado Bem Comum. O poder indiferente aos princípios cívicos da sociedade, desqualifica-se.

Li no JN que a “Confeitaria Serrana é loja histórica mas tem acção de despejo” e que o dono do imóvel quer o espaço livre para «construir um negócio sustentável, aberto a todos os portuenses e viajantes». Como se tais atributos não correspondessem àquele «tesouro escondido na R. do Loureiro»! (JN, 19.1.15), criado pelo Arq. Francisco Oliveira Ferreira para a Ourivesaria Cunha, inaugurada em 1913. Misturando estilos, do Luís XVI à arte nova, com decoração de José Oliveira Ferreira e pintura de Acácio Lino, associa ao requinte os artigos que confecciona, com destaque para as bolas de Berlim.

Dizia a notícia que as ditas «não têm qualquer ligação ao Porto, nem constituem factor de unicidade ou originalidade. A sua valoração deve ser zero em matéria de produtos identitários da cidade». Tal defesa da tradição ignora que ela se inventa quotidianamente, o prestígio também se faz pela diferença e o Aleixo era famoso pelos filetes de polvo, o Standard Bar pelos de bacalhau, a Palace pelos jesuítas, a Quinta do Paço pelos «eclairs», o tasco do Caneiro pelas iscas, etc., que os tornaram referências e nada tinham de «produtos identitários».

Por tudo o que a Serrana representa e contra os apetites que desprezam o espírito portuense esperemos que a Justiça lhes modere os ímpetos, a Câmara exerça o papel de guardiã do nosso património e a opinião pública não se deixe intimidar pelos assomos do poder financeiro.

Helder Pacheco 2020

COM PINÇAS

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Entre 1853 e 1855, o escritor poveiro Francisco Gomes de Amorim publicou em “O Panorama” a sua “Viagem ao Minho”. Residindo na capital, não resistiu à visão lisboetocêntrica ao retratar a sociedade nortenha da época. Aborda o Porto de modo crítico, mas a realidade era o que era e limita-se a comentar o que observava. Designadamente a evolução da cidade: «Tem-se edificado muito e bem, mas não é ao município que se devem os grandes melhoramentos que tenho achado. É (a)o dinheiro dos particulares (…)». Todavia, efeitos perversos pautavam a inovação: «Se em todas as construções se tivesse seguido o mesmo gosto que se nota em grande parte, mais visível ainda seria o aperfeiçoamento; porém, à feitura de muitas propriedades tem presidido um gosto depravado, que desnatura a beleza de algumas ruas e (…) das melhores praças.». E: «às Câmaras competia o velar por todas as edificações que se fazem, examinando os riscos, dando um plano geral de construções, e impondo aos engenheiros, arquitectos, mestres de obras e proprietários, a obrigação de se não arredarem de um certo sistema nem de uma ordem determinada.» O seguimento é um tratado de gestão urbana.

É sabido que defendo a inovação arquitectónica nos espaços históricos e no limite a categoria do projecto. Mas não me parece que o imóvel construído junto do Bairro da Arrábida (herança da nossa memória operária) e as intervenções em torno da Capela de Santa Catarina correspondam à defesa do Bem Comum que tais sítios exigem. Renovar, sim, mas com pinças, para não subverter uma cidade que deve ser um bastião contra a vulgaridade.

Helder Pacheco 2020

1820

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Já que a Revolução de 1820 mereceu pouca atenção de um país distraído com a pandemia, nunca será de mais falar dela. De facto, a 24 de Agosto daquele ano, a História pátria rumou na direcção do futuro.

O país assentaria numa Constituição que, plasmando os ideais da nova ordenação política, garantisse os direitos individuais («o anelo supremo, quase místico da revolução», Joaquim de Carvalho). Dos mais bem elaborados de sempre, o texto de 1822 enunciava: «As Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa intimamente convencidas de que as desgraças públicas, que tanto a têm oprimido e ainda oprimem, tiveram origem no desprezo dos direitos do cidadão (…)» e tinha «por objecto manter a liberdade, segurança e propriedade de todos os portugueses». Definindo liberdade e propriedade como elementos básicos, consagrava (art.º 7º.) a liberdade de expressão e a livre comunicação dos pensamentos e opiniões, sem dependência de censura prévia. A lei é igual para todos (art.º 9.º), ninguém pode ser preso sem culpa formada (art.º 4.º), sendo abolida a tortura e a infâmia (art.º 11.º). Eis a revolução num país inquinado por séculos de Inquisição.

Contra a Constituição de 1822 concentraram-se as forças do Antigo Regime e os que a consideravam demasiado avançada (e lesiva dos interesses instalados). Em 90 anos de Liberalismo só vigorou durante três! Agora que os descendentes rançosos do Miguelismo (que odiou os direitos fundamentais saídos de 1820) voltaram com novas roupagens, impõe-se recordar (e defender) os princípios que «anunciaram as ideias essenciais da democracia.»

Helder Pacheco 2020

EM 1820, A REVOLUÇÃO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Em 24 de Agosto de 1820, a associação secreta o Sinédrio iniciou no Porto uma revolução destinada a mudar o país. E mudou, pois somos herdeiros dos ideais da Constituição de 1822.

Influenciados pelas revoluções Americana (1776) e Francesa (1789), os membros do Sinédrio seriam o retrato ideológico da nova sociedade: três juristas, três militares, cinco proprietários e comerciantes e dois aristocratas, a maioria oriunda da média burguesia. Com a adesão militar, o movimento, sem disparar um tiro, captou as elites para o inevitável.

De facto, o Antigo Regime já não dava resposta aos problemas de um país -protectorado britânico, que assistira às vitórias liberais em Espanha e Nápoles na situação de penúria económica, quase bancarrota e descontentamento pelas miséria e condições de trabalho. E embora os “suspeitos do costume” desvalorizem o acontecimento por não ter origem na capital, o país passaria do atraso à modernidade.

No Burgo, os moradores da Rua da Ferraria de Cima, cantaram o seguinte “Hino Patriótico”: «D’altos varões / a heroicidade, / a Liberdade / hoje nos deu. // E já ditosa / a pátria amada, / que desgraçada / tanto sofreu. // Já não existe / opressão dura: / paz e ventura / lhe sucedeu. // Esses tiranos / que nos calcaram / já nos deixaram / a pesar seu. // Só nos domina / lei bem formada, / em vez da espada / que nos regeu. // Autor o Porto / da independência, / a prepotência / audaz morreu. // Cidade excelsa / em que nascemos, / quanto devemos / ao valor teu.»

Não vejo entusiasmo em celebrar a Revolução Liberal. Efeitos do confinamento democrático?

Helder Pacheco 2020

PAÍS MODERNO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Razão tinha Ricardo Jorge: «O centralismo predominante da capital, entretido por causas de toda a espécie, entre as quais avulta uma viciosa orientação de política geral, essa absorção desmesurada e mórbida, quasi cancerosa, sobre todo o organismo nacional, tem abatido os fóros seculares que o Porto selou ainda em nossos tempos com sangue e sacrifício. Lutar contra essa hegemonia deprimente e nociva é-lhe um dever (…).» Nem mais. O Burgo tem de se afirmar nacional e internacionalmente e construir um presente alavancando o futuro da sua grandeza histórica.

É que andam por aí vendedores de ilusões, defendendo interesses que não os do verdadeiro processo de descentralização. E, enquanto se adia a transformação do país, os centralizadores vão impondo a sua tutela.

Vejamos o relato de um activo empreendedor portuense apanhado nas malhas da burocracia. Espantai-vos: «Há mais de um mês que tento fazer a renovação do passaporte. Para isso é preciso marcar numa loja do cidadão, ou, disse-me simpaticamente um senhor que me atendeu o telefone quando liguei directamente para o SEF, que o melhor seria ir mesmo ao aeroporto Sá Carneiro.

Antes de o fazer tentei ligar. Ainda não consegui que atendessem. Como sou curioso fui ver os balcões do SEF nos aeroportos portugueses. FIQUEI ESPANTADO… afinal sou um parolo, mal educado, iletrado e pobre. O SEF do aeroporto de Lisboa tem 4 números de telefone. O SEF do aeroporto de Faro, quintal dos Lisboetas, tem 2 telefones, o resto das Províncias, Porto, São Miguel, Terceira, Funchal,… têm 1 telefone. Não têm vergonha e nem dão por ela.»

Helder Pacheco 2020

CIVILIZAÇÃO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Sendo eu catraio, a cidade era animada por manifestações de rua, que afirmavam um sentimento de pertença a espaços de sociabilidade. Eram os propagandistas que, na Cordoaria, vendiam banha de cobra (o famoso Machado foi precursor da Stand-up Comedy). E os circos pobres – palhaços, ilusionistas e contorcionistas. Os robertos. Os chineses que vendiam gravatas. Os vendedores de limonada. Os ceguinhos que fadistavam assombros. E outros.

Eis a paisagem onde a cidade se desenhava. Mas havia os detestados, pela desumanidade, como «a rede», caçando os cães abandonados: funcionários camarários motorizados cercavam o animal, sobre o qual atiravam uma rede que o imobilizava. E metiam-no em espécie de jaula de aprisionados.

A população abominava a «rede» e, não raro, insultava os perseguidores e libertava os cães. Por isso, a polícia confrontava os apoiantes da cãozoada que, quando fugia, era aplaudida. Neste ritual de resistência, o “Canil”, em Serpa Pinto, para onde os canídeos eram levados e, segundo constava, exterminados, reunia a animosidade popular.

Tais práticas e suspeições contrastam com o conceito subjacente à abertura, pelo Município, nas Águas Férreas de Campanhã, do “Centro de Recolha Oficial de Animais”, onde são tratados segundo normas sanitárias e humanitárias modernas (na 1.ª semana foram adoptados sete cães e um gato). Como a civilização nos chega tarde, este Centro dá sentido à ideia de D. Alice Hulsenbos que, em 1920, na fonte oferecida a Miragaia, mandou escrever: «A caridade para com os animais é a prova real da caridade para com o nosso semelhante.»

Helder Pacheco 2020

7 MARAVILHAS

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

A RTP1 apresentou uma série de programas para a selecção das «7 Maravilhas da Cultura Popular». Sendo função de um Serviço Público celebrar o país, assistimos a momentos de beleza, autenticidade e resistência do povo que afirma a sua identidade, o seu espírito. Estes repositórios são uma dádiva e um lenitivo que nos recompõem e reabilitam face à escumalha de alto e baixo coturno que conspurca e quase faz esquecer a dignidade da nação.

Vendo a religiosidade popular profundamente expressa, a criatividade das comunidades, o saber-fazer ancestral dos ofícios, o sentimento melódico das canções, o modo cortês e espontâneo dos artistas populares, reencontramos um universo que parecia perdido no turbilhão das mudanças sociais e tecnológicas. Mas não. O país profundo permanece íntegro e coerente, num presente que não desmente, trai ou avilta a sua herança cultural. Conservando-a não em redoma mas através de uma justa e, diria, hábil adequação à modernidade. Aplaudam-se as regiões e a RTP pela iniciativa.

Só lamento que esta Invicta Cidade, eivada de personalidade e orgulho, não se tenha disposto ou interessado em candidatar duas das suas «maravilhas». Cívicas, participativas e únicas: a Noite de S. João e seus atributos colectivos e a festa de S. Bartolomeu, da Foz do Douro, com o seu cortejo de trajos de papel. Ou a cidade se considera acima destas coisas, mercê do seu prestígio internacional (todavia, tal imagem também se alcança através do culto das tradições), ou, com a crise pandémica, se esqueceu de aproveitar uma oportunidade de afirmação nacional? Responda quem souber.

Helder Pacheco 2020

AMBIÇÃO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Em 1.12.2012 publiquei no JN a crónica “Reabilitar o Inútil”, integrada em 2014 no livro “Crónicas da Cidade de Dentro”. Nela, defendia a transformação da linha da Alfândega, desactivada há 30 anos, num parque urbano, em linha recta, com passeio pedonal, ciclovia e áreas verdes. Inspirava-se no recém-criado parque de Nova Iorque aproveitando a via férrea que atravessava Manhatan. A intenção era alertar para o potencial cívico e turístico daquela abandonada estrutura.

Noticiou o JN que a Câmara da Invicta estuda duas hipóteses para reabilitar esta vergonha. Uma, seria a criação de um percurso misto, pedonal e ciclovia. Outra, mais ambiciosa, a ligação rápida, em transporte pendular, entre Campanhã e a Alfândega.

Surgiu, entretanto, uma Carta Aberta enviada ao Presidente da Câmara, pelo GARRA – Grupo de Acção para a Reabilitação do Ramal da Alfândega, defendendo a construção da ferrovia e a discussão pública antes da decisão definitiva. Confesso ter ficado rendido aos argumentos expostos. De facto, um transporte inovador do centro histórico até ao moderno Terminal Intermodal, proporcionaria a ligação da frente de Miragaia a Matosinhos, a Campanhã. E vice-versa. Milhares de utentes, independentemente da atractividade turística de um percurso sublime incluindo túnel, paisagem sobre o Douro, vista das quatro pontes, panorama para o Areinho e o Freixo, etc.

E, além do mais, permitia a reabilitação do espaço nobilíssimo da ex-estação da Alfândega, utilizado como indigente parque de estacionamento. Tudo, portanto, a ganhar com a ligação ferroviária. Esta cidade precisa de ambição.

Helder Pacheco 2020

COMPENSADOS

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

No “Auto da Barca do Inferno” o Diabo exorta: «Põe bandeira, que é festa!». Para dar seguimento ao apelo de Mestre Gil Vicente pendurei, na varanda da minha casa, a bandeira de sempre. Azul e branca. Cores do Porto Liberal opostas ao vermelhusco, a pender para o acastanhado, do absolutismo a que esta cidade pôs heroicamente termo. (Esperemos que não regresse disfarçado.)

Sim, é festa. Recatada, caseira, contida é a minha festa. Depois de tudo o que temos passado e enfrentado nestes tempos de muitas angústias e ainda mais renúncias. Depois de um confinamento que soube a reclusão, estávamos a precisar disto. Da compensação. De ganhar alguma coisa. De ver a cidade acordar da letargia para onde a maldição importada dos confins do nosso descontentamento a empurrou. De dar alegria a quem levou no corpo, andou aos caídos, perdeu amigos e vizinhos, esteve isolado, abdicou de festas, convívios, tertúlias, conversas, beijos e abraços. Convenhamos: estávamos a precisar de dar vazão à esperança e conteúdo à ambição ocultada em milhares de corações que, se pudessem alterar os ritmos da vida, bombeavam umas litradas de sangue azul. Seria um fenómeno, um acontecimento biológico, não monárquico mas fielmente portista.

Enfim, ganhámos. Este já cá canta. E, tal como tinha combinado com o meu neto, já que não podíamos (ou não devíamos) ir para a Baixa comemorar, ficará a bandeira pendurada na varanda. Ficámos compensados de tudo quanto abdicámos e, tal como poetou o meu amigo Orlando: «Já brilha o balão no céu / Já canta o povo contente / Já S. João nos deu / O que queria a sua gente.»

Helder Pacheco 2020

Aviões

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

A minha geração era fundamentalmente parola. Só falava francês e nem dizia desconstruir, resiliência e «à séria». O cosmopolitismo esgotava-se em viagens a Vigo, musicais no Trindade, exposições «picassianas» na Galeria da Portugália, contar anedotas «do contra» e armar na Praia Internacional.

Além da volta dos tristes e do coçar as costas à porta do Palladium, íamos a Pedras Rubras ver aviões. Os Constellation, que deslumbravam. O aeroporto era um apeadeiro em estilo português suave e parecia a estação dos CTT. Tinha um terraço com acesso por uma escada de caracol, onde a parolada se postava, esperando o lá vem um de vez em quando.

Por mero acaso, calhou-me morar debaixo da trajectória das aeronaves na direcção do aeroporto. Vejo, ouço e controlo quanto, pelos ares, vem do Sul e do Atlântico. Como passam baixos, sei as horas dos primeiros e dos últimos. O barulho não incomoda. Habituei-me. É sinal de animação e gente que chega.

No pico da internacionalização da cidade, cheguei a contar, a certas horas, a passagem de um avião de 5 em 5 minutos! Com a maldição chinesa tudo desapareceu. Durante meses, não vi nenhum! Nem o de barriga azul que, diariamente, passa pelas 8 da noite. Nada. A agonia urbana transformou-se em reclusão.

No sábado tive um sobressalto. Até o pacemaker que me regula bateu mais depressa quando comecei a ouvir, de novo, o ruído dos aviões. E recomecei a contá-los. Por alto e a olho, foram 25. E no domingo terão sido mais. Sejam bem-vindos! E que a TAP (que agora significa TODOS A PAGAR) não continue a trair o ressurgimento económico e social do Porto.

Helder Pacheco 2020

What a Wonderful Town

•2020-08-18 • 1 Comentário

Sinthelder_pacheco_foto_Manuel-Robertoo por esta cidade heróica uma profunda simpatia.

Talvez por ser tão amante da liberdade como eu.

Júlio Dinis, Teatro I

Se querem que lhes diga francamente, já estou a ficar farto de ouvir (e ler) as catilinárias dos profetas da desgraça a quem recentemente se acrescentaram os arautos do pânico. Juntos, constituem parelha de respeito para nos azedarem ainda mais os dias e incutirem, nos ânimos sensíveis, receios, temores, desânimos acrescidos aos naturalmente derivados destes tempos ensombrados pelo vírus que de longe nos veio estragar o estrugido e infernizar o quotidiano.

Os profetas da desgraça (com especial ênfase em alguns que facturam milhares mensalmente), no comentário televisual, na crónica revisteira ou nesse inefável universo das redes sociais, argumentam e investem quase colericamente contra os efeitos perniciosos de um desenvolvimento do país (e desta cidade) assente no turismo. Há dias li escrito que estamos cada vez mais atrasados, na cauda das caudas de todos os indicadores de progresso social, educativo, etc., etc. Por aí fora. Um horror de terra, com gente quase miserável.

Independentemente de, em democracia, todos terem direito de opinião (só que algumas causam danos, por vezes irrecuperáveis), acho que tais profetas não têm razão. Lembram-me as carpideiras (profissionais, eram pagas para isso), que derramavam copiosas lágrimas de crocodilo sobre os males dos outros. E, sobretudo, ou precisam de consultar um oftalmologista ou de mudar de óculos para verem melhor a realidade. Não vêem as alterações profundas que estão a intervir no país na reabilitação de aldeias, vilas e cidades, na quantidade inumerável de locais, comércios, alojamentos, empresas que leram bem os sinais dos tempos e se modernizaram com qualidade inquestionável. Não vêem o que, em muitas autarquias, o poder local construiu, arejou, renovou para as tornar mais atractivas para os de fora e geradoras de auto-estima para quem nelas mora. Nem o esforço e a explosão criativa de jovens empresários que, país fora, estão a transformar a agricultura (e a vinicultura) em empreendimentos actualizados, dinâmicos e, céus! internacionalmente competitivos. Não vêem o que em terras grandes, pequenas e assim-assim foi feito em matéria de equipamentos culturais – museus, auditórios, centros interpretativos, etc – inovadores ou valorizadores das tradições locais e de salvaguarda e celebração de patrimónios e identidades. Basta assistir aos programas sobre as “Maravilhas da Cultura Popular” e o “Aqui Portugal”, para perceber – quem quer perceber -, como este povo permanece íntegro, apesar das agressões dos profetas do cosmopolitismo provinciano e da cultura da pseudo-modernidade. No fundo, os profetas da desgraça, além da obtusidade dos juízos, demonstram um profundo desprezo pelo que muita gente (tantas vezes maltratada por um centralismo totalitário e burocrático), com esforço e perseverança, tem conseguido para transformar Portugal em algo de que nos possamos orgulhar e, especialmente, num lugar onde possamos viver melhor.

Por sua vez, os arautos (ou, melhor dizendo, os viciados) do pânico cumprem a sua missão, acrescentando aos malefícios e catástrofes anunciados pelos seus homólogos da desgraça, previsões e notícias demolidoras sobre a pandemia e os seus efeitos na cidade e no país (no mundo não falam, porque não está nos horizontes do quarto onde se confinam). Se mandassem, continuaríamos parados, escondidos, e a cidade seria cercada por barreiras de arame farpado e polícia armada. Ninguém se mexia, nem saía de casa porque o terror impera. Nada se partilha e comunica. Nada vale a pena, a não ser amontoar géneros na despensa e comprar quilómetros de papel higiénico (são finos, o papel de jornal não serve). Alguns, também são chamados açambarcadores. Estes profetas da desgraça (a que certos meios de comunicação se juntaram criando o que a OMS designou como «infodemia», ou pandemia de informação ou informação pandémica) também não têm razão. Além de serem vesgos para a realidade, juntam ao medo a indiferença pelos outros. Porque a verdade é que enquanto muitos se confinavam com os seus vencimentos, reformas, aposentações pagos na hora e se refastelavam no sofá vendo TV ou no skype dando entrevista doutoral, comentando a desgraça e mandando palpites, outros, milhares, para sobreviver enfrentaram o inimigo invisível, mantendo o país a funcionar e as cozinhas apetrechadas. Sem falar nos muitos profissionais de saúde que arriscaram tudo, os anónimos dos supermercados, das entregas domiciliárias incessantes, da segurança, dos transportes e outros, para os quais nunca teremos gratidão à altura do seu trabalho.

Porque, de facto, o inimigo existe. Está aí a atormentar-nos, a fazer de nós joguetes de um destino com tanto de provável como de improvável. Como ninguém sabe o que está para vir, bom ou mau, resta-nos praticar as cautelas possíveis, ser rigorosos (nem fui à Baixa festejar a vitória do FCP!), exigir decência e prevenção, mas viver o que vale a pena do dia-a-dia. E continuar a lutar para melhorar a casa comum e quem cair que caia de pé, cumprindo o seu dever no lugar competente. Porque, de facto, esta maldição (sem alimentar teorias da conspiração, nem imbecilidades trumpistas, acredito que o inimigo veio mesmo das bandas do Celeste Império do neo-capitalismo) apanhou-nos na pior altura e colocou de rastos a perspectiva económica que o turismo proporcionava.

É, portanto, a altura de falarmos sobre este assunto: foi errado assentar uma estratégia de desenvolvimento, progresso urbano e qualificação da cidade, na sua capacidade de constituir um destino turístico de excelência? De atrair milhares ou milhões de visitantes? Foi a expansão do turismo que destruiu o espírito e a forma do ser portuense? Indígena da Vitória, portista dos quatro costados e tripeiro visceral, responderei: não. Não foi. A cidade há muito, desde os anos 70 ou 80, estava em declínio. Em declínio populacional (passou de 327 368 hab., em 1981, para 216 606, estimados, em 2019). Em declínio comercial, financeiro, político, cultural e social. E nem a Porto 2001 (que, apesar de tudo, teve contribuições positivas: Caminhos do Romântico, Funicular dos Guindais, Casa da Música) ou a construção do Metro (obra estrutural importante mas não suficiente para o relançamento do Burgo – também Detroit possui o seu Metro e não deixa de ser uma cidade em extinção), nem o Euro 2004 salvaram a urbe da degradação. Não. Não foi o turismo que trouxe a catástrofe. Ela começou com o congelamento das rendas (compreensível num país de moeda forte e sem inflação, mas desajustado do Portugal pós-25 de Abril), que empobreceu milhares de senhorios e, abandonada a manutenção dos imóveis, converteu as ruas em cemitérios arquitectónicos e despovoamento sistemático. E, juntando-se-lhe o abandono do Centro Histórico e da Baixa, trocados pelas periferias, onde as condições de habitabilidade eram melhores, e da falta de políticas de habitação no próprio coração do Burgo, assistimos à terciarização do buraco do donut (alguns até acharam piada a esta metáfora, considerando-a inevitável das políticas sociais e económicas do capitalismo pós-moderno, especulativo, fundiário e, sobremaneira incompetente), ao (que eu designo como) ataque bancário ao comércio e cafés da Baixa. (E, já agora, as livrarias não foram mortas pelo turismo. A incomparável Portugália, a Internacional, a Simões Lopes, a Figueirinhas, a Educação Nacional, a Brasília, a Athena, a Moreira, a Lopes da Silva, a Progredior, a Leitura, a Avis, a Tavares Martins, a Luso Espanhola, a Divulgação e mais algumas extinguiram-se na morte da Baixa, dos anos 60 em diante. Antes do boom turístico cujos danos, neste capítulo, foram mínimos.) A par, sem gente e numa cidade em crise, fecharam cinemas e teatros (salvo a Seiva Trupe e o TEP, que constituíram faróis na escuridão) quase levaram sumiço. O Porto à noite e, em certos locais, de dia metia medo. Era um fantasma de si próprio, enquanto a Sé, S. Nicolau e Miragaia empobreciam e se despovoavam. No meio desta tragédia o Projecto SAAL trouxe um fulgor de esperança no sentido de não continuar a expulsar habitantes mas reabilitar os locais mais vulneráveis (os resultados dessa política são visíveis nas Antas, no Leal, na Lapa, nas Águas Férreas). Mas foi sol de pouca dura. Era bom de mais. Em contra-corrente ao deixar andar, cair e despovoar, o CRUARB afirmaria outro movimento essencial à manutenção coerente da cidade e da sua população onde devia permanecer. Mas, além de nunca ter tido os meios suficientes à amplitude dos objectivos e ao estado degradante a que tinham chegado os locais da sua actuação, começou a ser claro (ao menos para mim, que, sendo favorável ao funcionamento do mercado – em condições que sirvam o Bem-Comum -, não sou dado ao liberalismo selvagem e especulativo), a ser claro, dizia, que o investimento público não era suficiente para salvar a cidade da degradação e da ruína. Bastava observar o estado a que chegaram Mouzinho da Silveira, o Bairro da Sé, Codeçal, Flores, Lóios, ruas de Trás, Loureiro, Chã e por aí fora, sem conta, para se perceber isso. E só não percebia quem não queria ou vivia em boas residências para as bandas da Foz ou das Antas. Ou quem ligava mais ao que diziam as cartilhas e ignorava a calamidade estendida pelas ruas do Porto.

E com todos os alarmes a tocarem para os portuenses ainda atentos ao que se passava, já neste milénio surgiria a Sociedade de Reabilitação Urbana, a SRU (que, tantas críticas, ódios de estimação, gozos e piadas anti-fachadísticas dos defensores das Novas Ordens viria a concitar). E com ela avançariam as primeiras experiências de regeneração: Carlos Alberto e seu envolvimento, reabilitação do edifício da Papelaria Reis, na Rua das Flores e, com o peso de uma imensidão de problemas e adversidades, o Quarteirão das Cardosas. Contrariamente ao que pensam os defensores das Novas Ordens, no interior da SRU sucederam estudos, análises, debates e, por vezes, confrontações no sentido de melhorar os planos e ajustá-los a uma realidade emergente, urgente, exigente e pragmática.

E com o Estado centralista a assobiar para o lado em matéria de investimentos para a reabilitação, designadamente a de carácter social, que deveria caber nos objectivos que serviriam os interesses da cidade e de parte da população, a regeneração, ou reconstrução (ou salvação) urbanas foram avançando. E tudo se precipitou quando, mercê da classificação como Melhor Destino Turístico Europeu, a chegada dos voos low-cost e a existência de um aeroporto excelente, o Porto ganhou foros de internacionalização e a governação autárquica começou a colocar a reabilitação urbana, social e económica como fundamental aos seus propósitos estratégicos. Num ápice a cidade transformou-se num enorme estaleiro de obras e sítios vistos, até aí, como abandonados, perdidos, reprovados foram mudando para sítios cómodos, inovadores e, em não poucos casos, de excelente arquitectura. E, neste processo que salvou o Burgo da auto-implosão, o turismo constituiu a alavanca essencial à reconversão e renascimento de um Porto a cair de podre, quase em ruínas, a viver a nostalgia por um passado e uma grandeza perdidas.

Apesar do confinamento e do pós-confinamento, da prisão domiciliária provocada pela maldição asiática, fui andando por aí a espreitar as obras e concluí um fenómeno espantoso: não obstante as restrições, convulsões e desgraças profetizadas (independentemente da tragédia económica que nos atinge), a reabilitação dos espaços urbanos não cessou. Prosseguiu ou foi concluída. Fui há dias, com a Francisca, à Santini, da Rua das Flores (infelizmente a dos Lóios ainda não abriu), comer um gelado e vigiar as obras em curso. Caí das nuvens: além da enorme Casa dos Constantinos ter sido recuperada para hotel a – para mim – mais bela rua do Burgo, dantes a caminho da perdição, está quase reconstruída. Razão tinham os técnicos da SRU, que me garantiam: a qualificação do espaço público induz e atrai o mesmo no edificado. E podemos comprovar isso no ritmo da reconstrução e nas consequências das obras efectuadas. A bela e setecentista Casa dos Maias e os seus dois brasões, durante anos em estado calamitoso e indigno da sua valia, foi impecavelmente reabilitada para estabelecimento hoteleiro (por mim, tudo bem). Na esplêndida Casa da Companhia (das Vinhas do Alto Douro), que pertencera ao Figueiroa que deu nome à Travessa, em Cedofeita, estão em curso obras de reabilitação que incluem o lado que dá para a Travessa do Ferraz. Obras que a transformarão, pelo que se vê, em mais uma referência. Em frente, o edifício setecentista dos Brandões e Silva, na esquina com a Rua da Ponte Nova, está tapado para remodelação que o libertará da indigência onde definhava. Do outro lado da Travessa do Ferraz, a um palmo da Casa da Companhia, as duas moradias dos Sousas e Silvas (com o brasão familiar dos Sousas, de Arronches, a meio, com a data de 1703) estão praticamente recuperadas incluindo a sua longa extensão lateral e respectiva capela (que servia de armazém e recentemente nem isso), Ferraz acima.

Viajantes à redescoberta da cidade reconquistada ao desleixo e ao atraso, resolvemos subir a ladeira íngreme da Travessa do Ferraz. Em boa hora chegámos à antes degradada Rua da Vitória e vimos que um dia destes tudo nela são moradias reconstruídas e – céus! – habitadas! E, nas traseiras das habitações seis ou setecentistas dos Caldeireiros, as gruas fazem o seu serviço na regeneração. Foi pena que, de um dos muros dos quintais das mesmas, derrubados pelas obras, se tenha perdido a pedra que continha as marcas do impacto de uma bala de canhão – miguelista – do Cerco do Porto. Mas quem vai adivinhar a importância de um pormenor no granito de muro cheio de ervas?

Enfim, isto é para dizer o seguinte: é claro que o impacto da maldição vírica foi um atraso para a expansão cultural, social e económica do Porto e sua afirmação. E não sou estúpido para ignorar ou fazer de conta que não existiram danos, algumas infâmias e consequências negativas do desenvolvimento urbano promovido pelo turismo, que converteu o Porto numa cidade em convulsão criativa. Houve erros e efeitos perversos, alguns evitáveis, sobretudo com melhores leis e maior sensibilidade social de alguns investidores. E, como ouvi a um empresário «Nós não viemos aqui praticar a caridade», falando da mudança de um bairro operário, de onde a população de séculos foi excluída, para alojamento turístico. Realmente não têm obrigações caritativas mas, pelo menos, deveriam manter um nível de repartição da oferta de modo a que a gentrification (prefiro escrever a palavra inglesa) cause menos estragos no tecido da cidade. Ao menos isso: habitação ao alcance da classe média e dos jovens em início de vida activa. E que os idosos e os comércios antigos não fossem expulsos em nome de princípios arrogantes e injustos das políticas de arrendamento com tanto de oportunistas como de incapazes de entenderem as necessidades e carências do país que somos. Porque o exclusivo objectivo do lucro não cria progresso, de igual modo uma renovação voltada para a especulação (ainda estou para perceber a razão da existência de dezenas de andares, apartamentos, residências devolutos depois de renovados, nas ruas centrais da cidade, ou, pensando bem, percebo que se encontram em banho maria, esperando o aquecimento do mercado), tal renovação especulativa, dizia, não constrói a cidade inclusiva que pretendemos.

Voltando ao princípio. Os profetas da desgraça tiveram aquilo que sempre vaticinaram: a tempestade perfeita, que abalou a estrutura económica em que a cidade assentava a sua regeneração ou, dizendo melhor, o seu Renascimento. Que fez encerrar centenas de pequenos negócios, inventados para substituir muitos dos que deixaram de responder aos desafios e exigências da nossa época. Que roubou milhares de visitantes, fechou as portas a dezenas de Alojamentos Locais, frustrando sonhos e delapidando algumas poupanças duramente alcançadas. Que transformou lugares pletóricos de animação e entusiasmo pelo douceur de vivre neles pressentido, no vazio dos cemitérios. Que trouxe o desemprego e asfixiou o bulício do Douro, recurso e atracção tornado deserto de que só restavam recordações. E, além de tudo, a tempestade perfeita roubou-nos amigos, vizinhos e conhecidos liquidados pela pandemia. Mas não só: proibiu-nos abraços, beijos e simples conversas cara a cara. Trouxe a pandemia das solidões ainda mais intensas, promoveu o Skype a vedeta (já estou farto de ver caras distorcidas e mudo de canal quando aparecem) da conformidade digital. De qualquer modo, a tempestade perfeita não foi um falhanço da cidade e do seu modo de viver e prosperar. Foi, sim, o desastre induzido por uma globalização com tanto de má fé como (se alguém ocultou o surgimento do vírus) de criminoso. E, perante a tragédia que nos alterou os dias ou damos ouvidos aos profissionais do pânico e desistimos de viver a cidade (a única maneira de a fazer reviver) ou cerramos fileiras e enfrentamos o inimigo com as armas da inteligência, perseverança e segurança. De preferência acompanhados de sorrisos, alicerçados em ideias e projectos para retomar o que nos foi subtraído, criar emprego, relançar o comércio, atrair visitantes por todos os modos e feitios.

Porque, como acontece às maldições, as tempestades perfeitas também passam. Acabam, extinguem-se. E quando isso acontecer fica-nos uma cidade renovada, de que podemos orgulhar-nos e sai da crise sem trair o seu desígnio histórico. Que pode ser mais justa e acessível a mais habitantes. Que possui instituições científicas de referência, uma universidade prestigiada, uma oferta hoteleira magnífica, uma vida cultural à espera de novos públicos, paisagens de excelência, rio e mar (a costa atlântica continua à espera da reconversão em atractivo). Que mantém vivas tradições, costumes, hábitos, falares e maneiras de ser que identificam a sua diferença.

O que se impõe, então, neste momento inesperado, decisivo e complexo da nossa contemporaneidade? O que fazer com a cidade (a que, convém não o esquecer, os românticos chamavam eterna)? Obviamente, resistir. Resistir à tentação de considerar perdida a batalha pela redenção e persistir criando desígnios, inventar planos, engendrar ambições. Vencer, em definitivo, a batalha da reabilitação, atacar de frente a guerra pelo repovoamento (rejeitando a inevitabilidade do efeito donut), desenvolver as indústrias que interessam, nas áreas tecnológicas, científicas, digitais, culturais, atrair visitantes (que venham, às centenas, enchendo a cidade de linguagens e gente diferente). Insistir na cidade como polo de investigação e ciência. Avançar com projectos que qualifiquem o espaço urbano e o viver portuense: novas linhas do Metro, Parque Oriental, reconstrução arquitectónica da Marginal entre as pontes Luís I e Maria Pia, conclusão do ambicioso Terminal Intermodal, urbanização (há tanto tempo adiada) da encosta da China e do Vale de Campanhã, abertura à cidade da (inútil) linha da Alfândega, concretização do Plano de transformação do Matadouro da Corujeira, em centro cívico e cultural (e sua ligação ao Dragão), reconquistar o Batalha para benefício de todos, construção da nova travessia do Douro e eliminação da vergonha da passagem da Ponte de Baixo que há muito deveria ser apenas pedonal. Tanta coisa para fazer, incluindo o combate sem tréguas contra o Centralismo que sufoca o país, obrigando-o a repartir com o Norte, equitativamente, os milhões que vão chegar de Bruxelas (nem devem ir para bolsos corruptos, nem privilegiar os suspeitos do costume – ignorava que o Presidente da Câmara também assim designou os «tais»).

Resumindo e concluindo: o objectivo essencial é, não nos resignando à mediocridade, ambicionar a lua (para podermos ter a certeza – como diria Jorge de Sena – de, pelo menos, conseguirmos um bom candeeiro que contente a todos). E, enfrentando o que ninguém sabe o que pode suceder, continuar a pensar a urbe tripeira à escala dos nossos sonhos, esperanças e ambições. Porque, trazendo Bernstein à colação: “What a Wonderful Town” continua a ser esta, nossa, incomparável.

Helder Pacheco

In VIVA! O Grande Porto Online, 18 de Agosto de 2020

Foto entrada: Manuel Roberto

IR À PÓVOA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Em 1872, foi presente à C.M.P. o projecto da linha do C.º Ferro do Porto à Póvoa. Passava pelo Carvalhido, seguia pela Rua do Rosário e terminava junto do Hotel do Louvre (perto do Carregal). Foi, obviamente, reprovado.

Em 1873 seria constituída a Companhia do Cº. F.º do Porto à Póvoa, com o sector da exploração entregue a Oliveira Martins. A Estação Central foi construída na Praça da Boavista e o entusiasmo pelo projecto foi tal que, iniciados os trabalhos em 2.9.73, a linha seria inaugurada em 2.10.75. Presidiu Fontes Pereira de Melo, sendo Pinto Bessa Presidente da Câmara. No edifício, embandeirado e guarnecido com flores e arbustos, o átrio, forrado a damasco magenta, ostentava as armas da cidade. Na Gare, a tribuna mostrava um docel de damasco vermelho e uma girândola de foguetes saudou a partida do 1.º comboio, enquanto a Banda da Guarda tocava o Hino. A linha converteu-se num sucesso popular.

O edifício da estação-términus sobrevive na Rotunda e representa, na cidade, o espírito de uma época fulgurante e a própria história do C.º de Ferro no Norte. Sem a espampanância das grandes gares, conjuga a simplicidade com a escala humana da linha de bitola estreita. Com espanto, li no JN que a inefável Direcção-Geral do Património Cultural considerou que o edifício «não reúne os valores patrimoniais inerentes a uma distinção com valor nacional». Então adianto a seguinte proposta: que a Câmara o classifique como imóvel de «interesse Municipal» e seja integrado no projecto do El Corte Inglês, que nunca deveria ter saído do Porto e é essencial ao relançamento da Boavista.

©helderpacheco2020

INVICTA

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Os portuenses essenciais, nunca se sentiram tão carentes como com o S. João deste ano. O emérito João Manuel, dias antes do confinamento festivo provocado pela maldição chinoca, que nos veio deles comerem morcegos, poetou: «S. João tão festejado / E que tanta gente tinhas / Mas mesmo assim mascarado / Não falto nas Fontainhas!» (Era metáfora poética. Não foi.)

Devo dizer que o hara-kiri da alma a que o Porto se votou é inequívoco da firmeza, determinação e carácter de uma cidade que sabe distinguir o dever cívico do que temos assistido para as bandas do Sul. Até nisto se mostra a diferença entre a coerência para combater um inimigo invisível e a desordem a que o Terreiro do Paço e seus arredores se têm dedicado, rebaixando o país para o rol dos indesejáveis. Apesar dos discursos sobre o «milagre» que se evapora, a resposta do Porto foi abdicar do melhor que temos, em nome de um desígnio maior.

Apesar de tudo, em minha casa festejámos comendo uma sardinhada. A alegria foi melancólica mas valeu a pena: estivemos juntos, tirámos a máscara e brindámos com Porto à nossa saúde. E pedimos ao Santo precursor que nos livre de ter de mandar médicos, hospitais e recursos para colmatar as consequências das festanças «de lá de baixo».

A este respeito, o meu amigo Orlando também poetou: «Eu aposto (em como a RTP não dedicava emissão são joanina ao Porto) / Mas é tão fácil saber / Que entre o Sul e o Norte / É tão pouca a nossa sorte / Ficamos sempre a perder. // Ai, se o S. João me acode / Inda lhes dá de lição / Que o Porto c’os mesmos pontos / Venha a ser o campeão.» Respondi: amen!

©helderpacheco2020

ESTOU P’RA VER

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Para evitar juízos precipitados, devo dizer que nada tenho contra o povo de Lisboa. O lisboeta que sobrevive em Alfama, no Alto do Pina, em Marvila e noutros sítios sofre os mesmos atropelos, injustiças, desigualdades e impostos do resto do país. Tenho tudo, sim, contra a ganga oportunista, parasita e arrivista que se movimenta nos meandros da centralização de um Terreiro do Paço que serve de guarda-chuva a esquemas que subvertem o Bem Comum da República.

Também nada tenho contra as tradições praticadas para comemorar o santo popular querido dos lisboetas. Nem faço comentários ao costume de marchar segundo a invenção salazarista do António Ferro (exportada para o resto do país e até aos arredores do Burgo que, em boa hora, a rejeitou em favor da pura tradição das rusgas). Tudo bem e que cada um marche como quer.

Na calha do confinamento opressivo a que o país se obrigou, a RTP entendeu, em período de interdição das manifestações festeiras, recompensar os alfacinhas, em véspera e dia do santo casamenteiro, com uma avalancha de programas alusivos à sua tradição. Eles foram “Enquanto houver Stº. António” (de La Féria) e uma tarde compacta, até às 8 da noite, com o Santo instalado no seu pátio típico e um rodopio de artistas e manifestações. E filmes a propósito: “O Pátio das Cantigas” e “A Canção de Lisboa”. Simpático e popular. Nada contra.

Mas ainda estou p’ra ver se, por alturas do Santo querido dos portuenses e muitos mais, na noite e dia de S. João, a RTP nos brinda com programação a propósito de uma das maiores tradições festivas do país. Aceitam-se apostas.

©helderpacheco2020

O TEATRO DO POVO

•2020-07-04 • Deixe um Comentário

Notícias recentes dão-nos o edifício do Teatro Sá da Bandeira classificado como Imóvel de Interesse Público, entrando no rol do Património nacional. Finalmente podemos ter relativa tranquilidade quanto aos riscos do edifício ser transformado em hotel, residências para chineses ricos ou outra especulação imobiliária. Mas nunca se sabe já que, entre nós, o mercado tem razões acima (ou abaixo) de qualquer lógica social.

Inaugurado em 1874, como Teatro Circo Príncipe Real, passaria, em 1910, à designação actual. Na sua nova etapa seria recinto operático e espaço de galas, recebeu companhias de opereta, concertos, recitais, espectáculos de canto e magníficas representações teatrais.

Ao longo do século XX, o Sá da Bandeira desenvolveu a sua vocação popular, através do teatro de revista. Por ele passaram peças, companhias e actores que enchiam a casa e faziam as delícias de um público apreciador do género, que tinha na cidade e seus arredores milhares de espectadores. (Falaram-me, que, de Leça da Palmeira, vinham eléctricos repletos de gente para assistir às estreias.)

Como depois do 25 de Abril, para uns quantos, revistas e comédias eram reaccionárias, o Sá da Bandeira entrou em fase de apagada e vil tristeza, apresentando filmes pornográficos e outras bizarrias sem categoria. Mas acabou por reencontrar a sua história de casa de músicas e teatradas para o público anónimo e comum que, numa cidade inclusiva, tem o direito de ver aquilo de que gosta e lhe traz a vivência do contentamento. Esperemos que as armadilhas da modernidade mal entendida, não alienem tal tradição.

©helderpacheco2020

TI AI PI

•2020-07-04 • Comentários Desativados em TI AI PI

Quando o Porto ainda não era cosmopolita, falando línguas, viajando para o mundo, com prestígio em alta e hábitos culturais refinados, o nosso estrangeiro era ir de camioneta a Vigo, Santiago e, quando muito, à Corunha.

Com esta prática internacionalista, a minha primeira viagem a sério foi ir de avião para (e logo!) Belfast, para onde me recambiaram como bolseiro na NUU, em Coleraine, em plena guerra civil, longe das cidades onde o terrorismo era diário. Integraram-me num grupo de estudo com ingleses (que não ligavam aos irlandeses) e irlandeses católicos e protestantes (que não se falavam). Caí no meio daquele ambiente tenso e lá procurei sobreviver.

Os «bifes» preferiam falar comigo, mais do que com os irlandeses e um perguntou-me se sabia o significado da sigla «ti, ai, pi». Depois percebi que falava da TAP e acrescentou a explicação: «Take Another Plane» e ria de gozo. Em ímpeto patriótico, não gostei que mandasse «Apanhar outro avião» e repontei. Arrependo-me.

Depois da ausência de pudor, centralismo bacoco, falta de visão estratégica nacional, e, se calhar, incompetência demonstrada pelos que decidem contra os interesses do país que vai de Aveiro a Bragança, não temos, de facto, outra alternativa. Atrair e utilizar os serviços de companhias aéreas que não sofram de miopia dos olhos e do cérebro, eis o novo desígnio. E não falem em bandeira e patriotismo, porque tal gente não tem pátria nem conhece outra coisa que não seja o limite do Terreiro do Paço. Tomemos, pois, outro avião. Dos que nos querem servir e ajudar à retoma e ao renascimento da cidade e sua região.

©helderpacheco2020

REGRESSAR À BAIXA

•2020-07-04 • Comentários Desativados em REGRESSAR À BAIXA

Nasci a dois passos da Praça e conservei-me fiel ao território da Baixa, que moldou a personalidade cívica da minha geração. Centrifugado para Ocidente, ali penei a prisão que me cerceou o ritual de ir à Baixa fazer compras. Em espécie de peregrinação às raízes e hábitos do burguês típico. Após dois meses de exílio lá voltei. Mas só não chorei porque, dizem, um homem não chora.

Encontrei a Baixa vazia. De lojas fechadas, sem a multidão falando uma babilónia linguística, sem engraxadores, cauteleiros, jazz-bandistas, esplanadas, cultivadores de selfies, guias turísticos e seus rebanhos, japoneses (chineses, coreanos – não sei distingui-los) aos magotes, bichas na Lello, tuk-tuks, animação, música e o entusiasmo de ver a cidade cheia de gente e tão bela. E, sem isso, a Baixa não é Baixa. É abstracção e equívoco, um pontapé no coração. Caiu-me a alma aos pés.

Mas apanhei-a e desinfectei-a para não ser contaminada pelos profetas do pânico e ainda menos pela doença viral chamada infomedia. E pensei: uma cidade a caminho da Ressurreição que, apesar da crise, não parou de se reabilitar, uma cidade a renascer da degradação e do aviltamento urbanos não pode parar. Impõe-se um novo desígnio, uma nova utopia: regressar à Baixa. Em força. Enquanto o aeroporto e o Cº Ferro não voltarem a inundar o Porto de visitantes, têm de ser os portuenses a apostar no Renascimento do coração do Burgo. E enquanto não ouvirmos a babel de línguas que enchia os dias, que se ouça, alto e bom som, o falar tripeiro. Utilizar a Baixa é um imperativo. A determinação vital para o nosso futuro.

©helderpacheco2020