•2020-10-14 • Comentários Desativados em

Capture

VEJA O NOVO LIVRO AQUI

 

A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

IMG_5327

SÓ ESPERO

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

No relatório apresentado a D. Pedro para justificar a criação da Real Biblioteca Pública da Cidade do Porto, o Ministro Cândido José Xavier afirmava: «A ignorância é a inimiga mais irreconciliável da liberdade (…)» Por isso, em plena guerra civil, em 9.7.1833, a biblioteca seria instituída para salvaguardar os livros apreendidos aos conventos e a indivíduos “traidores” à causa liberal. Assim foram salvas da destruição milhares de obras.

Após várias andanças, a Biblioteca (pública, em 1841 e Municipal, em 1871) instalou-se no antigo Convento de Santo António da Cidade. E cresceu, à altura das expectativas iniciais e de notáveis directores e bibliotecários que por ela passaram. A Biblioteca de S. Lázaro é guardiã de «todos os conhecimentos humanos», como pretendiam os fundadores. Infelizmente, nunca teve condições materiais e recursos tecnológicos dignos do seu património e das transformações da sociedade. Em tempos, falou-se de uma audácia arquitectónica em torre, que proporcionasse a ampliação do seu espaço (em 2010 possuía mais de um milhão e duzentos mil volumes, ocupando 15 km de prateleiras).

Fiquei agora surpreendido ao ler a notícia do projecto do Arq. Souto de Moura para conceder a justa grandeza à maior reserva científica e cultural da cidade. Retomando a ideia da torre para resolver o problema. Só espero que: a) o Município avance, para a maior glória da urbe; b) o Tribunal de Contas não estorve; c) não apareçam os imobilistas de serviço a contestar, porque etc.»; d) os anjos do céu e os santos da terra abençoem a obra, anulem a ignorância e iluminem o futuro.

MODERNIDADES

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Nos tempos da Outra Senhora havia em Coimbrões um tasco chamado “O Clarão do Sabugo”. Nele parava o povo. Reformados pobres (como o Aníbal Passarinho), estivadores, pedreiros, operários, lavradores (dos campos em redor), etc. Copofónios. Um dia, o dono da loja resolveu experienciar os domínios da “Nouvelle Cuisine” e, para isso, foi ao pinhal próximo e caçou a maior ratazana das que ali havia, bem alimentadas. Ratazana campestre completamente «vegan».

Esfolou-a e arranjou-a, como se fosse coelho, pô-la em vinha d’alhos, a marinar um dia ou dois, e serviu-a à clientela, estufada, acompanhada de sopas de pão, em molho apetitoso. A clientela chamou-lhe um figo: «Que bom que está este coelho», comentavam. Mais tarde, o cozinheiro confessou-lhes a origem do pitéu e não houve rejeição mas pedidos de repetição. Estes acontecimentos demonstram que, além de cultural o comer é uma questão de paladar. Ou, falando à moda da Vitória: «Todo o burro come palha, o importante é saber dar-lha.»

Vem isto a propósito do anúncio da próxima entrada nos nossos costumes gastronómicos de novidades como larvas, gafanhotos, grilos e besouros, matérias-primas já licenciadas. De caracóis já sabíamos haver quem goste, tal como de crocodilo, cangurú, búfalo e outras espécies exóticas que por aí se anunciam. Por mim, tudo bem: em cidade liberal cada um come do que gosta. Mas, por causa das coisas, doravante vou andar à tabela quando me apresentarem novidades culinárias, não vá aparecer um empadão de larvas ou besouros disfarçados. Dispenso. Passo e continuarei fiel ao bacalhau e especialidades afins.

ESQUEMAS

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Nos tempos difíceis que vivemos, encontro sobreviventes de um mundo de que restam memórias e algumas fotografias. Essas recordações surgem quando menos esperamos e repetem situações que mais não são do que gestos de sobrevivência. No fundo, histórias que parecem ficção. Curiosamente, muitos relatos comparam as dificuldades do obscuro presente, com as suportadas durante o período da II Guerra Mundial. Vejamos um episódio.

O narrador cresceu numa ilha da Rua Firmeza e os factos ocorreram em 1945, quando o pai trabalhava numa padaria. A mãe era padeira e ao fim do dia trazia para casa, já torrados, bocados de pão que sobravam nas canastras. Então ele e a irmã montavam num corrimão a máquina de picar carne que havia em todas as famílias (Universal, made in England), com o crivo mais pequeno. E enquanto um manejava a manivela o outro introduzia-lhe pedaços de pão duro. O pão ralado que saía desta produção, era posto em cartuchos que entregavam no Restaurante Sequeira, na antiga Viela da Neta, entre Sá da Bandeira e a Rua Formosa. Estabelecimento de certo luxo, tinha três filas de mesas, empregados fardados e copa ao fundo. Ganhavam assim alguns escudos, quase clandestinamente, por ser proibido aquele fabrico devido à falta de farinha e de pão que então se sentia.

Eis um esquema engenhoso para resistir com imaginação. Dizem que actualmente há gente a viver de expedientes assim, adaptados à modernidade. Ou a depender do Banco Alimentar contra a Fome. Enquanto isso, alguns passeiam no espaço por 210 000 Euros! Decididamente – como diria minha avó – este mundo está mesmo roto…

OS SERÕES

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Nos tempos desprovidos da civilização electrónica e digital comunicava-se boca a boca. Falava-se e convivia-se. Podia-se morrer de tuberculose mas não da doença moderna chamada solidão.

Os convívios, no Porto, dividiam-se em três categorias: piqueniques (lanches ou almoços ao ar livre); súcias, de conotações ordinárias, no Minho significavam patuscada; e serões, reuniões familiares noite dentro a que a burguesia chamava saraus (e, em selecto, «soirées»), com música, canto ou dança.

Um leitor enviou-me dois testemunhos dos serões. Na noite de 16.1.1926 realizou-se uma «Soirée íntima oferecida a um grupo de gentis rapazes, como testemunho de gratidão e simpatia». Segundo o Convite a «Comissão organizadora», constituída por 12 «gentis meninas», tinha «o prazer de convidar V. Ex.ª a abrilhantar com a sua presença esta “soirée”, que se realiza na Rua Faria Guimarães, 394».

E no «Sábado, 27.10.1926, às 211/2 horas», os senhores Alcindo, Armando e Mário Teixeira organizaram uma «Festa Íntima dedicada às famílias das nossas relações». O programa incluía composições para piano, violino e canto, de Beethoven a Óscar da Silva, além de «poesias, monólogos e recitativos».

1926 foi um ano conturbado. O Porto ressentia-se de grave crise financeira e bancária, a I República agonizava, a agitação política era permanente, em Maio um golpe militar instaurava a Ditadura, a censura e o esboço da polícia política. Ainda assim, nos interstícios da crise, a burguesia portuense procurava manter a qualidade de certa espuma dos dias em que a amizade, a convivialidade e a cultura se confundiam.

VILANAGEM

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Fomos surpreendidos com a notícia de um «empresário» ser «detido por arrancar mão e jornal da estátua do ardina». Como se falava numa «discussão entre dois indivíduos», às 3.30h da madrugada, ficamos sem saber se o dito discutia com a estátua e a agrediu num episódio de vandalismo urbano.

Na Praça, o monumento a D. Pedro IV sofreu vários ataques. O primeiro atingiu os baixo-relevos em mármore da sua base: substituíram-nos por réplicas em bronze. Sob os mesmos existem placas evocativas dos «Mártires da Liberdade», ali executados. Roubaram-nas, em 2007, mas a Câmara pôde replicá-las a partir de fotografias. Quanto à figura do rei, são incontáveis as espadas que tinha na mão e foram partidas.

Mas a actividade dos predadores prosperou. Como o crime compensa, há anos, a “Anja”, de José Rodrigues, do Shopping dos Clérigos, foi roubada e cortada para sucata (o que aconteceu aos vândalos?). O busto do educador Raul Dória desapareceu do seu pedestal, no Largo do Bonjardim. Não têm conta as vezes que a baioneta do soldado, do monumento em Carlos Alberto, lhe foi surripiada (creio que agora é de plástico). E o memorial de António Nobre, inaugurado na Cordoaria em 1926, foi sendo, aos poucos, despojado dos ornatos decorativos e das letras, em bronze, e, finalmente, o busto do poeta, obra de Tomás Costa, foi levado por um energúmeno. Também na Cordoaria, do belo conjunto que homenageia o floricultor Marques Loureiro, foi arrancado o baixo-relevo com o seu retrato, de Teixeira Lopes. Enfim, como dizia o outro: «Quando a cultura desce o animal sobe» e o resultado está à vista.

UNS E OUTROS

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Num texto brilhante, pendendo para o nostálgico, o Professor Osvino Toillier escreveu: «A geração de ouro, dos anos 40, 50 e 60 está indo embora. Somos uma geração única. E agora quem vai nos substituir? Somos a última geração que ouviu seus pais, seus avós e seus tios. Respeitávamos os professores e as pessoas mais velhas. Amávamos de verdade. Tínhamos apelido, e não era desrespeito. As músicas que ouvíamos, não agrediam os ouvidos. Atravessámos a era do rock, do pop, woodstock, dos hippies. (…) Somos uma edição limitada. Todos os dias somos menos. Aproveite enquanto pode. Infelizmente, estamos indo embora e qual o mundo que deixaremos para nossos filhos e as próximas gerações?»

No campeonato sem 2.ª volta da nossa vida, a fornada da minha geração foi-se ou está quase a ir-se embora. Agora partiu o meu excepcional amigo Élio, assumido aveirense, professor, formador e gestor, desempenhou todas as etapas pedagógicas com a isenção e a competência de um cidadão empenhado na res pública. O Élio (de família Terrível, mas pacífico) foi a última despedida de um imenso adeus que começa a ser doloroso: Ilda e Vasco Morais Soares, Jorge de Melo, Emílio Peres, João Semedo, Armando Pinheiro, Júlio Couto, Albano Martins, Benjamin Veludo, Manuel Magalhães, Rebordão Navarro, Maria Cristina, Miguel Veiga, Jaime Rebelo. E ainda faltam alguns. Convenhamos: com ou sem Covid, são muitas ausências!

No filme “Les Uns et les Outres”, Claude Lelouch colocava na abertura de uma das histórias, a frase «A nossa dor é uma ilha deserta». Nem mais. Afinal, a nossa dor é pessoal e intransmissível.

A RUA É UMA FESTA

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Conforme as perspectivas, cada qual via a rua à sua maneira. Para uns, era foco de vícios, degradação e perigos, para outros espaço de convivência e formas insuspeitadas de educação para a cidadania através do relacionamento com os outros e o meio envolvente. A palavra arruaceiro e a expressão «mulher da rua» são bem explícitas.

Pertenço à geração que cresceu na rua. Nela brincávamos, jogávamos, conversávamos, fazíamos 30 por uma linha. De manhã, à tarde e à noite, a rua pertencia-nos. Aliás, é difícil entender a vida urbana e conceber a cidade sem o espaço da cultura das ruas. E da gente. Com residentes, lojas e lojistas, conhecidos, animação, falares, sorrisos, agressividade ou gentileza. Tudo junto.

Foi o melhor do espírito da rua como instrumento de sociabilidade que inspirou o Centro Social e Paroquial de S. Nicolau a lançar o projecto “S. João, a Rua é Tua”. Com o objectivo de desenvolver a vertente cultural da população, foram convidados moradores e comerciantes a criarem quadras alusivas à época para serem expostas ao longo dos 180 metros da rua. Manjericos gigantes, coloridos, e uma cascata, construídos pelos utentes do Centro serviriam de fundo à decoração. E ainda se apelava a que os vizinhos enfeitassem as varandas.

Como diziam os organizadores este é um «S. João diferente, mas sempre presente». Nos tempos de Guerra que estamos vivendo, eis um exemplo de que na cidade ainda há quem não se resigne nem abdique e continue a manter viva a tradição. (E a rua, coberta de milhares de bandeiras coloridas, nunca teve festa assim. Um inesperado deslumbramento.)

REENCONTRAR A MÚSICA

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Num livro de curso portuense, de 1955/59, na página dedicada a certo noctívago exortava-se: «A vida nocturna precisa de mais convicção e cabaretes.» Coisa difícil na época. Mas agora o assunto vem a calhar: se tudo correr nos conformes, o Porto voltará a ser destino privilegiado para muitos.

De cabaretes sei pouco. Ouvi falar de um, na Travessa da Picaria, famoso pelas bailarinas espanholas. Mas, entranhado costume tripeiro eram os cafés-concerto, tradição viva nos anos trinta, que a supracitada dificuldade eclipsou nos anos quarenta. Ficaram recordados o Recreio, no Laranjal, o Monumental (que incluía baile), na Avenida e o Avenida, depois chamado Vitória (lembro-me, em catraio, de o ver, deslumbrante, cheio de plantas, espelhos e com um trio tocando).

E havia o Guarany. Deste, encontrei uma sobrevivente dos anos da II Guerra que se recordava de, aos domingos e em noites da semana, estar cheio de gente por, além do excelente café, oferecer música ao vivo, com destaque para piano e violino. As melodias mais tocadas eram valsas de operetas – “A Viúva Alegre” e “Os Sinos de Corneville” – e uma música muito em voga (dançavam-na quando o “Titanic” foi abalroado pelo icebergue). As melodias de Strauss também faziam parte do programa. E assim as famílias passavam as tardes de domingo.

Quando a cidade se prepara para renascer do tédio, é a altura dos empreendedores que renovaram o seu comércio, darem trabalho aos artistas retomando a tradição dos cafés-concerto. Nem seria preciso muito, bastava dar sentido ao que Stephen Sondheim chamou “Uma pequena música nocturna”.

O MEU ARRAIAL

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Dizia João de Araújo Correia: «Felizmente, aqui para os meus lados, ainda não morreram as indústrias inocentes.» Apeteceu-me dizer o mesmo quando vi chegar os barraqueiros e suas barracas e pavilhões. De farturas, cachorros, matraquilhos, tômbolas, carrocéis, automóveis e outras indústrias que animam as nossas evasões e nostalgias.

Chegaram e instalaram-se, no Jardim do Ouro, como acontecia e em 2020 a pandemia impediu, sem S. João e gente animando as noites. Convivendo ao sabor do imponderável, sentindo o vento mareiro e extasiando o olhar com a paisagem do Douro. Ainda assim, o arraial de Lordelo fica a meio gás porque festa sem baile, nos calores de Junho, é como praia sem sol. Mas temos de ser cautelosos: com os tangos e sambas para os agarradinhos e os hip-hop e modernices para os restantes, a D.G.S. poderia declarar outro cerco da cidade.

Todavia, este arraial sem festa custou a engolir a certos/as jornalistas, cronistas e comentadores capitalinos. Era vê-los e ouvi-los ansiosos, interrogando sobre se não havendo Santos em Lisboa os do Porto seriam aceites. Aqui d’el-Rei, bolsaram alguns: é discriminação. E coisas piores. Vindos do pensamento único centralizado, não espanta. Espantam sim, comentários de quem devia contar até vinte antes de falar. Porque se os Santos (ou a maneira de os viver, conforme a situação de cada cidade) são os mesmos as circunstâncias são diferentes e nem ao diabo lembrava obrigar a Invicta a subordinar-se à Corte. Posto isto: vamos até ao arraial comer um cachorrão, seguido de um churro com chocolate. (Para que servem as vacinas?)

MILAGRE!

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Quando o povo era sábio dizia que «Quando a esmola é grande, o pobre desconfia». Assim é, sobretudo quando a dita-cuja provém de entidades públicas. É caso para arregalar os olhos e manter a conveniente reserva. Desconfiar e indagar.

Vem isto a propósito da carta que recebi, assinada pelo Director Municipal de Finanças e Património do Porto ponto (ou seja: a Câmara). Com boas maneiras – marketing dixit – dirige-se ao «Estimado Munícipe» e informa: «A Assembleia Municipal do Porto aprovou (…) aumentar a isenção parcial do IMI de 10% para 15% da sua taxa anual de 0,324% para os prédios destinados a habitação (…)». Adianta depois que «a nota de liquidação enviada pela ATA a V. Ex.cia na qualidade de proprietário do prédio com artigo matricial (…) contempla esta redução (…) como a seguir se ilustra.»

E apresenta uma reprodução da nota das finanças, com as contas e percentagens explicadas ao pormenor. Muito bem. Mas como outro lema do povo era «Ver para crer, como S. Tomé», fui confirmar comparando o Imposto de 2021 com o de 2020. Sim, é verdade, graças aos prodígios do digital, a operação da CMP resultou em cheio e milhares de «Estimados Contribuintes» receberam a mensagem. Apurei ter pago menos 15,10 € de IMI. Melhor do que nada.

Perante este milagre de redução num país que só aumenta, proponho que a Assembleia Municipal da Invicta se transfira para a capital, substitua o Governo por dois ou três dias e faça uma reversão (como agora se diz) dos impostos de IRS, IVA e sobre os combustíveis. Convenhamos: seria nova revolução liberal e aliviaria a Pátria do vampirismo fiscal.

PELA CIDADE

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Dizia Apollinaire que depois da dor vinha sempre a alegria. Da dor, da solidão e da tragédia estamos fartos. Nós e a cidade. Perdemos amigos e amizades mas temos de recomeçar, com a vantagem de não partir do zero. E falo não só da vida de cada um mas também da vida portuense.

E o seu relançamento (economia, emprego, animação e prestígio nacional e internacional, captando visitantes, residentes, investimentos) passa, inevitavelmente, pelo turismo. Todavia, se para alguma coisa serviu um ano de retrocesso que, ao menos, permita repensar o modo como o futuro pode ser melhor utilizado. Porque, doravante, não podemos contentar-nos em atrair multidões mas fazê-lo afirmando o Porto.

Através de cultura, tradição e identidade, matérias longe de ser bem aproveitadas. Exemplos: por que não elaborar um roteiro do Rei Carlos Alberto, herói do liberalismo e paladino da unificação italiana ainda hoje admirado? Um programa ajustado aos naturais daquele país, susceptível de melhor os atrair? Outro recurso estratégico, dirigido aos brasileiros: o coração de D. Pedro IV conservado num mausoléu da Igreja da Lapa (um amigo, de S. Paulo, mal veio ao Porto logo perguntou onde era). Por que não uma campanha específica sobre o tema? E aos ingleses: por que não um programa dirigido à arquitectura neo-clássica de origem ou influência britânica (dando a conhecer Carr e Whitehead, da Feitoria à Reitoria, passando pela Bolsa)? E, para os portugueses cultos, por que não um roteiro romântico camiliano (rematando em Monchique)?

Em matéria de relançamento da cidade, vivam, pois, a imaginação e a fantasia.

HORTAS NA CIDADE

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

No séc. XIX, durienses e beirões demandaram o Porto à procura de trabalho e trouxeram hábitos e culturas: festas locais, o sentido da aldeia, a costela agrícola, a religiosidade. Por isso, quando a cidade dispunha de terrenos disponíveis, muitos alimentavam cozinhas e saudades da terra cultivando hortas.

Hortava-se em toda a cidade – fora do Centro Histórico. Mas o mundo mudou e a actividade transformou-se. Agora, o Projecto Municipal “Horta à Porta” «promove a reconversão de espaços expectantes, em terreno de cultivo disponível» para quem quiser praticar a agricultura em modo biológico. Nos quatro hectares destas Hortas, correspondentes a 13 dispersas pela cidade estão instalados 400 compostores que permitem a devolução ao solo de 120 toneladas anuais de matéria orgânica. Que diferença!

Em 1974, o Ministério da Educação (com Rui Grácio – pedagogo notável – como Sec. de Estado e jovens técnicos) tentou integrar nos programas o Projecto “Trabalho Produtivo nos Ensinos Básico e Secundário”. Destinava-se a criar hortas nas escolas, tornando-as auto-suficientes. Salvo algumas adesões país fora, o falhanço foi total. Nem pensar – diziam professores e pais – em pôr alunos a cavar. Muitas Associações opuseram-se: «Querem cubanizar os nossos filhos» (em Cuba o trabalho produtivo fazia parte da educação), a escola é para aprender. Perante os obstáculos, o M.E. desistiu.

(P.S. Membro da equipa que lançou o projecto, informo que as minhas experiências na matéria foram Londres e Haia, onde as escolas dispunham de talhões para agricultarem. Países perigosamente bolchevistas…)

MD – 250

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Há o Património monumental: Batalha, Alcobaça, Jerónimos, Mafra e além. Conhecido e admirado. E há, depois, uma infinidade do grande ao pequeno. Ao efémero (o sabor do caldo verde), simbólico (o Zé Povo a fazer «tomas»), espontâneo (a estrela de papel). E objectos de madeira, barro, pedra, marfim, metal, tecido, vidro e tudo quanto a imaginação exija.

Do património também fazem parte as locomotivas, que tanto podem pesar toneladas como preencherem as infâncias dos combóios eléctricos nos recantos da casa e nas cascatas. E existe a miniatura da máquina, saída do engenho de um operário serralheiro das Oficinas da CP, em Campanhã, José Nunes Magalhães, que construiu a réplica da locomotiva a vapor da série MD – 250.

Este pequeno monumento à escala da tenacidade do autor representa, além do valor histórico, dez anos (entre 1930 e 40) de canseira dedicados ao projecto de uma vida (curta, faleceu em 1945, aos 46 anos). Chamavam-lhe «Pequena caça – níqueis» por ter estado exposto na Estação de S. Bento, angariando donativos para a actividade do Grupo Desportivo dos Ferroviários de Campanhã. E funciona, nos seus 1080 mm de comprimento e o peso de 80 kg.

Exposta em S. Bento nos meados dos anos 40, para deleite dos amadores de combóios, conhecedores da arqueologia industrial e cultivadores do miniaturismo, dali foi retirada em data que desconheço. Em 2018, em cerimónia simples, a «caça – níqueis» foi recolocada na mesma gare. Embora os olhares se extasiem com o deslumbramento do átrio da estação, este património ferroviário vale a pena ser conhecido e visitado. Até de propósito.

MANUEL MORAIS

•2021-08-14 • Deixe um Comentário

Certa noite, há uns anos, em Agosto, descia a Rua das Taipas e vi animação na Rua de S. Roque. E cantoria. Curioso, fui espreitar. Era a Festa ao patrono do lugar, à imagem de um nicho de parede que ali existe. A Festa de S. Roque, organizada pelos moradores, era a mais discreta e simples de todas quantas existiam no Burgo. A celebração da fraternidade e a canseira da vizinhança para a manter. E percebi de onde vinha a sonoridade: improvisaram um pequeno palco onde, para o agrado da gente, cantava Manuel Morais.

No centro daquela humanidade ao nível do rés-do-chão, fazia as delícias de quem não frequenta a Casa da Música e se diverte à medida das expectativas de ser feliz por uma noite. Não espanta que lhe chamassem “O Rei da Alegria”. Exímio a contar anedotas e cantor de géneros musicais do charmoso ao hilariante do muito teatro de revista em que actuou, inventor de contentamentos, Manuel Morais espalhou boa disposição de Norte a Sul. Da Queima das Fitas à Senhora dos Remédios, 50 anos em festa podia ser o resumo de uma vida.

Pisou tudo quanto fosse palco. Do Coliseu (seu predilecto, com o “Comboio Foguete”) ao Olímpia, Carlos Alberto, Odéon, Sá da Bandeira. Do Porto a Lisboa, do Parque Mayer ao Éden. Do Senhor da Boa Fortuna da Vitória à Suiça, França, Alemanha e por aí fora.

Menestrel do povo, o indefectível portuense Manuel Morais saiu, aos 88 anos, das luzes do espectáculo. Pela porta grande, quando achou que já cumprira a missão de alquimista do entretenimento. Um homem bom que colocou como meta alcançar aquela estrela que, segundo os antigos, guia cada um de nós.

REDENÇÃO

•2021-08-14 • Comentários Desativados em REDENÇÃO

Talvez Dostoiévski pudesse descrever o ambiente, através do retrato de muita vida acumulada reflectindo um quotidiano de precariedade. Podia ser o relato do conflito entre a ideia de uma sociedade que se pretende justa e a verificação da realidade. E mais do que “Humilhados e Ofendidos” o vivido remete para as páginas de “Gente Pobre”, trazendo à ideia as palavras de Junqueiro: «A Humanidade, enfim, é a vitória dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os débeis…»

Tudo suscitado pela ida ao Centro de Vacinação tomar a 2.ª dose. De repente, caíram-nos em cima as palavras sobre os velhos, a «peste grisalha», inútil e descartável, ou os critérios iniciais de vacinação que os remetiam para a fila (da morte, obviamente). E depois, nas salas de espera e de recobro encontramos a humanidade. Sem retoques nem maquilhagem. Velhos alquebrados, amparados. Com bengalas, canadianas, andarilhos. Curvados, secos, hirtos. Expectantes, silenciosos. Isolados. Alguns, mais felizes, com filhos ou netos. A mulher do avental e xaile. Solidões. E silêncio. «Há tantos silêncios, quantas as existências.» (Labro) Pobreza. Evidente, envergonhada, discreta, disfarçada, com a esperança de que talvez exista futuro.

Mas, apesar de tudo quanto a ofende, a dignidade existe. Na atenção, cuidado e, sobretudo, simpatia, desde o segurança da recepção até às enfermeiras, passando pela empregada do corredor. Eis a redenção deste país desigual. Afinal, quem melhor podia descrever o Centro de Vacinação da Rua do Sol seria Raul Brandão: «Assim é a vida. É um rio de lágrimas, de brados, de mistério.»

•2021-05-28 • Comentários Desativados em

•2021-05-28 • Comentários Desativados em

Cartazes da Festa 1996-2021 / Novo livro de Helder Pacheco sobre a romaria

•2021-05-28 • Deixe um Comentário

26 anos depois da 1.ª edição de “Senhor de Matosinhos, Cartazes da Festa”, obra que revisita os cartazes de 1956 a 1995, ano da sua publicação, o historiador e cronista Helder Pacheco foi novamente convidado pela Câmara de Matosinhos para regressar às memórias da romaria.Dessa “viagem” nasceu “Senhor de Matosinhos, Cartazes da Festa 1996-2021”. A obra foi hoje apresentada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa cerimónia que cumpriu todas as regras de segurança estabelecidas pela Direção Geral da Saúde.”Até me custa abrir para não estragar”, disse o autor do livro, rendido ao “excelente objeto estético”. Um misto de caixa de memórias e “objeto de culto”, concebido pelo designer Nuno Leal, e cuja forma acabou por influenciar a escrita do historiador.”Confesso que pensei em fazer uma análise e comentário aos cartazes, dar continuidade ao trabalho que comecei a fazer há 26 anos. Era como uma sequência do que já estava escrito. Mas depois o Nuno apresentou-me as suas ideias e percebi que repetir um modelo de 1995 em 2021 não fazia sentido”, explicou o autor. O objeto influenciou a escrita, a maneira de contar uma mesma história que se faz “de tradição, de gente, de devoção”, mas também de “um país diferente, melhor em muitos aspetos”.A sessão contou a apresentação feita pela Diretora da revista “Artes entre as Letras,” Nassalete Miranda, e com a presença da Presidente da Câmara Municipal, Luísa Salgueiro, do Vice-presidente e Vereador da Cultura, Fernando Rocha, entre outras personalidades.Na publicação, Helder Pacheco propõe-nos uma viagem de imagem, cor e simbologia, às memórias da Romaria do Senhor de Matosinhos, recordando as cerimónias religiosas, a feira da louça, os divertimentos ou as farturas.Os cartazes do Senhor de Matosinhos acompanham a evolução dos tempos e as mudanças que o país foi atravessando nas últimas décadas, transformações bem patentes no design escolhido por cada um dos seus autores.O apelo de Helder Pacheco deu lugar à certeza de Luísa Salgueiro que rematou a sessão com um convicto “Para o ano há de ser na rua!”, não sem antes referir a “tranquilidade” que este livro lhe traz “por saber que estamos a deixar um legado para as gerações vindouras”. “Este livro será um marco na tradição da festa. Para memória dos que cá estão e para os que hão de vir, esta obra enobrece a tradição de Matosinhos”.Aliás, o impacto da pandemia do último ano e meio na organização da própria romaria é referido na publicação que deixa, inclusive, um apelo: “No futuro socialmente armadilhado, incongruente e contraditório que aguarda as culturas e tradições populares, resta a esperança de que o Senhor Bom Jesus de Bouças, na sua graça e infinita sabedoria, anime a vontade dos homens-bons matosinhenses, para que não esmoreçam nas fadigas e fidelidades anuais de fazer a festa”.Com esta publicação, a autarquia pretende enriquecer ainda mais o acervo documental, histórico e literário do concelho.Também hoje inaugurou a exposição de fotografias e de cartazes da Festa do Senhor de Matosinhos, patente em frente ao edifício dos Paços do Concelho, numa forma diferente de celebrar a romaria condicionada pela pandemia por COVID-19.

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

Helder Pacheco 

“O património mais importante do Porto são os portuenses”, diz Helder Pacheco 

No seu mais recente livro, “Simplesmente, Porto”, Helder Pacheco, autor de mais de 50  publicações sobre o Porto, diz-nos que a cidade é feita “de pequenos nadas”. Da gente,  dos animais, das casas, das varandas, dos jardins, das ruas, da celebração, das pequenas coisas e coisas sem importância, do que nos faz rir e dos lugares invisíveis. No total, são  22 capítulos, escritos com a sabedoria de quem conhece o Porto melhor do que ninguém  e o amor que por ele foi nutrindo desde tenra idade. Tudo com um único objetivo:  proporcionar uma viagem pelos pormenores da urbe portuense e mostrar que há muito  mais para descobrir, além dos grandes monumentos pelos quais é internacionalmente  conhecida. 

“Nos países e nas cidades tudo depende das pessoas. O património mais importante do  Porto são os portuenses, depois vem o resto. Portanto, eu parti das pessoas, das suas  solidões, depois abordei os sítios onde param, os interiores, as portas, as janelas, as  casas, etc. E assim consegui decompor a cidade, desde o sentido principal, as gentes, até ao pormenor mais ínfimo, que pode ser a campainha ou o batente da porta”, adiantou o  célebre autor, historiador e docente portuense, em entrevista à revista VIVA!. 

Foto: Manuel Roberto 

Todos os textos, assegurou, foram escritos à mão, numa conhecida confeitaria da Foz,  com um ar “simpático e sossegado”, pela qual tem grande apreço, A Bolacheira. As  imagens foram, por sua vez, conseguidas através de amigos fotógrafos, a quem quis  também dar oportunidade de expor um pouco do seu “magnífico trabalho”. 

Helder Pacheco contou-nos tudo sobre este novo livro, revelou a forma como vê e pensa  o Porto atualmente e como acredita que esta poderá mudar depois de ultrapassado o  período pandémico. 

Como resume este novo livro, “Simplesmente Porto”, que acaba de lançar? 

Este livro é um projeto antigo, que me andava a dançar na cabeça. De vez em quando  vinha à superfície, depois era esquecido, depois vinha outra vez…. Isto já há alguns uns  anos. 

Sempre fui um grande admirador de Miguel Torga. A obra dele é para mim uma espécie de horizonte com que me identifico. E há um poema, que é a Bucólica, que começa por  um verso que eu considero muito inspirador – “a vida é feita de nadas” – e era isso que  me andava a bailar na cabeça já há uns tempos, porque se a vida é feita de nadas as  cidades também são feitas de nadas, de pequenas coisas, que, muitas vezes, passam  despercebidas. 

Nós estamos habituados a ver nas cidades as coisas grandiosas, os monumentos, os  espaços públicos, as estátuas, as multidões, as festas, os acontecimentos, a arquitetura  em geral, etc. E passamos à margem de pequenas coisas que fazem o encanto, o  pormenor relevante, o batente da porta, a flor que está pousada, o pássaro que pousa no  beiral, a camélia florida, as magnólias no Largo 1.º de dezembro… Portanto, milhões de  pequenas coisas que nos envolvem, que dão um conteúdo afetivo e estabelecem uma  espécie de relação com o território onde nos movemos. E eu pensava “vou partir à  descoberta das pequenas coisas da cidade, dos pormenores e publico um livro”. Assim  foi! 

Como foi o processo envolto deste livro? 

Primeiro, escrevi os textos, à mão, e eles foram sendo processados. Depois comecei a  pensar nas fotografias… E como eu tenho muitos amigos (o que seríamos nós sem os  amigos?) fotógrafos, quer profissionais como amadores, comecei a encomendar-lhes as  fotografias que precisava – gente, interiores de casas, portas, janelas… Durante muitos anos só utilizava fotografias minhas. Neste momento, raramente utilizo.  Primeiro, porque dou possibilidade a amigos meus fotógrafos, alguns magníficos, de  mostrarem o seu trabalho. É uma maneira de os projetar também. Segundo, porque  muitas das fotografias deles são melhores do que as minhas; e terceiro, porque eu só  trabalho com diapositivos, nunca aderi ao analógico em fotografia. 

Mas, continuo a fotografar o Porto, sobretudo as mudanças, o antigo, o moderno, etc., o  que era e como ficou depois da reabilitação.

Foi fácil a escolha do título? 

Normalmente ando a pensar, durante alguns dias, nos títulos dos livros. Muitas vezes  vou a guiar, lembro-me de um título e depois escrevo, outras vezes acordo à noite,  lembro-me de um título, levanto-me e escrevo. Escrevo entre 10 a 20 títulos e depois  peço à família e aos amigos para escolherem um. O mais votado, muitas vezes, não é  aquele que eu gosto mais, mas, se o público, que eles representam, escolhe, eu aceito. Sendo este um livro sobre a simplicidade da vida e a simplicidade das coisas, achei que o título que mais se adequava era um título deste género. É o mais vulgar, o mais banal  e o mais simples possível, “Simplesmente, Porto”. 

“A vida é feita de nadas”. Essa é a principal mensagem que o livro pretende  transmitir, adaptada ao contexto da cidade? 

Sim. O livro pretende ser um mergulho sobre as coisas simples que também fazem a  cidade. Pretende chamar a atenção para que o património não é só o Palácio da Bolsa. É  também o batente das portas da Rua das Flores, por exemplo. 

A escrita também deve conter alguma intenção social, no sentido de fazer passar para a  sociedade em que nos movemos determinado tipo de ideias, de conceitos e de  mensagens. Neste caso, o livro pretende chamar a atenção para a importância do  património simples, mas que também dá encanto a uma cidade como o Porto. 

“Considero-me em primeiro lugar portuense e em segundo lugar português” De todos os livros que já escreveu sobre o Porto, qual é o mais especial? 

Há amigos meus que consideram que o meu primeiro livro é o melhor de todo, o que é  um pouco melancólico. Pessoalmente, gosto muito do livro das tabernas, “Porto – Adegas, Tabernas e Casas de Pasto”, do “Livro do S.João” e gosto particularmente  deste último, porque talvez seja, até, aquele que diz mais do meu sentimento sobre a  cidade. Para mim, o Porto é muito isto, estes pequenos pormenores e estas descobertas  que podemos fazer. Qualquer um de nós, se tiver a visão apurada para isso ou a visão  educada, pode descobrir esta realidade palpável que são os pormenores da cidade.

Já está a pensar no próximo livro? 

Sim, aliás, já estou a trabalhar nele. Estou a preparar o terceiro volume das crónicas que  publico, semanalmente, no Jornal de Notícias. Tenho tido a preocupação de reunir todos  os artigos, porque a escrita na imprensa é uma escrita no vento, ou escrita na areia,  desaparece rapidamente. Um artigo que sai hoje num jornal, no dia seguinte já passou.  Já ninguém se lembra, muitas vezes, porque vêm outros factos novos. Enquanto o jornal  se desfaz, o livro fica, para sempre. E esta é uma forma de dar uma certa longevidade às  crónicas que fui escrevendo. 

Já tem definida uma data para o lançamento? 

Queria ver se o lançava lá para o final do ano. Depende também da pandemia. Vamos  ver! 

Qual é a sua principal fonte de inspiração quando escreve? 

A minha ignorância é cada vez mais altamente especializada. Eu só escrevo sobre o  Porto. E, portanto, a minha fonte de inspiração única e primordial é o Porto. 

Foto: Filipa Brito 

E como vê e pensa o Porto atualmente? 

Eu penso o Porto de uma maneira positiva e otimista. Se não fosse esta tragédia que nos  assaltou, o Porto estava a passar por uma fase brilhante da sua vida cívica, da sua vida  económica. Há 10 ou 15 anos, o Porto estava a cair de podre. Havia ruas onde já nem se  podia circular, quase, com as fachadas todas decrépitas. Mouzinho da Silveira era um  quadro de vergonha e de decrepitude. O Porto, literalmente, estava a desfazer-se. E com a reabilitação urbana que foi avançada, e que começou a dar frutos, neste momento o  Porto está irreconhecível em matéria de reabilitação. 

O grande desafio que se coloca ao Porto é, além de resolver o problema da habitação  degradada, uma política de habitação social contínua, para, de uma vez por todas, se  eliminar o problema das ilhas que estão em mau estado. Há ilhas boas e ilhas más. As  ilhas boas, tal como aconteceu na Bela Vista, devem ser reabilitadas com projetos de  arquitetura moderna, que mantenham a coesão social. As ilhas que não têm solução  devem ser demolidas e substituídas por habitação confortável para quem ainda vive em  más condições. 

Deve também haver uma política de habitação para a classe média. Quem pertence à  classe média deve ter capacidade de acesso à habitação. E quem não pertence à classe  média nem é milionário também deve ter a mesma possibilidade. 

Neste momento, o Porto atravessa uma crise, como todas as cidades do mundo, mas,  internacionalmente, mantém o seu prestígio. Continua a ser um destino de eleição, eleito  por organismos internacionais de turismo e, portanto, penso que, desde que a pandemia  passe, o Porto vai reconquistar o seu lugar. Tem uma estrutura montada invejável, com  unidades hoteleiras e uma oferta de qualidade, e obras em curso que o podem mudar  qualitativamente. É o caso do Terminal Intermodal em Campanhã, que vai mudar  completamente aquele espaço. Quando o projeto do Matadouro avançar, a parte oriental  do Porto vai levar um grande avanço, também do ponto de vista cultural. E, portanto,  em relação ao futuro do Porto sou otimista. 

De que forma é que acredita que esta pandemia poderá mudar a cidade? 

Nós andamos todos esfomeados de cidade. E, portanto, quando podermos andar à  vontade nela, se calhar vamos reaprender a vê-la e a usá-la. Eu, por exemplo, ando  absolutamente esfomeado de ir passear para a Baixa e para o Centro Histórico. Ando  absolutamente esfomeado de ir passear para Miragaia. Provavelmente a pandemia vai  trazer uma nova vontade de utilizar a cidade, quer o espaço urbano, os cafés, os bares,  os restaurantes, os cinemas, os teatros, etc. A fome vai ser tanta que as pessoas vão ter,  forçosamente, de regressar ao Porto. 

E as gentes do Porto? Sairão ainda mais resilientes depois de tudo isto? 

As gentes do Porto já aguentaram, no passado, situações terríveis. Aguentaram o Cerco  do Porto durante um ano, aguentaram a peste bubônica, nos finais do século XIX,  aguentaram a inquisição 300 anos, o salazarismo durante 48 e nunca se vergaram. O  Porto tem sido um resistente. Tem sido um resistente, sempre, ao Terreiro do Paço e à diminuição da sua imagem. Continua a manter a sua autoestima em alta. E, por isso, sou  otimista em relação ao Porto… e em relação ao país também! 

Foto: Manuel Roberto 

Este Porto, do qual é público que não presume sair, é efetivamente o seu porto de  abrigo? 

Porto de abrigo é o território onde eu me sinto feliz. Isto até dava um título de um  romance – “O território da minha felicidade”. 

Em que altura da sua vida é que começou a descobrir este grande amor ao Porto? 

Tive a sorte de ter um avô em estado de graça. A minha família viveu um drama um  pouco estranho. O meu pai era republicano assumido e o meu avô era um monárquico  assumido. Então eram permanentes as discussões em casa. Um dia o meu avô, pura e  simplesmente, fez as malas e foi-se embora a dizer que não havia espaço para os dois.  Então, ao sábado, o meu avô vinha buscar-me e íamos passear e o meu pai saía comigo  ao domingo. Com o meu pai, sendo ele um grande desportista da cidade, privilegiava o  desporto. Com o meu avô, era andar de elétrico e conhecer a cidade. Normalmente  íamos até à Foz, até Leça, até à Ponte da Pedra, etc. E, portanto, o meu avô ensinou-me  a descobrir a cidade, desde muito cedo e comecei a ficar muito afetivamente ligado a ela  (…) Tinha até um caderno onde comecei a escrever um livro de viagens sobre o passado  do Porto. Recordo-me que começava assim: “Chega o viajante ao alto de Santo Ovídio e  olha em frente e vê o anfiteatro da cidade”. Escrevi isto tinha 10 anos… 

Foto: Leonel de Castro 

Prefere este Porto ou o Porto de antigamente? 

Este, porque este tem o de antigamente. O de antigamente é que não tinha este. Porque o  de antigamente também significava 80% de analfabetos, a mais alta taxa de tuberculose  da Europa, cólera, condições de higiene absolutamente insuportáveis em muitos sítios  da cidade, precariedade no emprego, salários baixíssimos, etc. O Porto de antigamente  também era isto. Mas o Porto que devemos celebrar não é este, é o do liberalismo, que fez a Revolução Liberal, que fez o 31 de janeiro, que se bateu contra a inquisição e que  era um Porto culto. Era um Poro burguês e liberal, mas que ocultava o Porto de miséria  e de vergonha. O Porto atual herda o melhor do Porto antigo e ultrapassa e despreza o  pior do Porto antigo. 

(Foto de entrada: José Rui Correia)

O performer do Bolhão

•2021-04-24 • Deixe um Comentário

À entrada do Mercado do Bolhão, quadro insólito: um homem, boné do Futebol Clube do Porto, gravador ao peito, auscultadores nos ouvidos, a cantar. A cantar e a bater com as canadianas: o acompanhamento musical. Uma orquestra de muletas, um vocalista desafinado, a espantar os transeuntes. E há mãos comovidas a caminho dos bolsos, dos porta-moedas. Outras não.

O performer do Bolhão
Estou aqui a dar carinho às pessoas, a animar o povo. E as pessoas reconhecem, gostam, dão gorgetas. Só de olhar para mim ficam alegres, depois eu falo em certas coisas.

Mãe que partiste
e não voltaste
mas deixaste
o teu retrato tão lindo.

Mãe o teu retrato
é tão lindo
parece que me está ouvindo.

Eu dantes cantava em Valongo, nas paragens. E também cantava aqui, mas desde as eleições para a Câmara comecei a cantar só aqui. O Melo, presidente da Câmara, podia ser de que partido fosse, mas era uma jóia de pessoa. Agora este que para lá foi não me deixa cantar e eu vim para o Porto. Na Internet apanharam-me e estou em todo o mundo. Dantes era cantor de Valongo, agora puseram-me também cantor do Bolhão.
Eu francamente não precisava de andar nestas coisas, mas tenho pena das pessoas. O padre da capelinha das almas já me conhece, e o bispo, até os que andam a estudar para padre estiveram aqui e disseram que eu estava a fazer um papel importante. Quando estou a cantar cantigas da igreja até me vêm as bagadas aos olhos.
As pessoas têm muito amor à minha pessoa. Vem gente do Sobrado, de Valongo, vem tudo aqui. Ainda hoje Ai você nasceu em Valongo e anda aqui? Deixei Valongo porque lá não sabem respeitar as pessoas. Aqui tem mais coiso. Lá não há aquele carinho como aqui. Uns pagam por causa dos outros. Aqui até as pombas me conhecem.
Dou-lhes pão aos bocadinhos. Se eu lhes der aos bocados grandes, elas entalam-se. Alguns dão pontapés nas pombas. E eu digo, As pombas não fazem mal a vocês. Vem um, pumba, dá um biqueiro, vai outro caço-lhas, metem-nas no bolso e levam-nas para casa. Já vi um gajo a dar de comer e a caçar nas pombas, a meter ao bolso e a levá-las.

Sou portista, graças a Deus
Os benfiquistas, quando eu estou a cantar, ficam danados. Sou portista, graças a Deus, desde que tinha cinco anos. Sou do Porto há 63 anos. Lembro-me do Miguel Arcanjo, do Marujo, daqueles jogadores que já estão no outro mundo. E o Yustrich, o Pedroto. Eu sou do tempo do Monteiro da Costa, do Jaburu, Gaston, Valdemar, Carlos Duarte, Acúrsio, Hernâni, Barrigana. Sou desse tempo.

Rosas brancas
como tu não há igual
o Porto é o maior
dos maiores de Portugal.

Os benfiquistas não gostam que eu cante. Já chamaram a polícia para me autuar. Uma mulher veio aqui atirar-me com água, o pai dela anda a vender rifas. Trouxe um balde de água e atirou-me. Também o gajo da loja é um ranhoso, é um benfiquista ranhoso. Metia-se comigo, não sabe respeitar as pessoas, mas desde que o Benfica foi eliminado da taça UEFA nunca mais apareceu.
Um chegou à minha beira e disse Se você tivesse um cachecol ou um chapéu do Benfica dava-lhe uma gorjeta. E eu disse Olhe, eu não quero gorjeta do Benfica. Olhe o céu, eu assim para ele, olhe o céu, o azul, o azul e branco. É muito lindo, é a cor de Deus. Deus também é azul e branco.
Há três que vêm aqui todos os dias chatear-me. São dois trapalhões e mais um, equipado, usa óculos e tem a mania que é o maestro. Para aferroar dizem que o Benfica é campeão e que o Porto anda de caganeira. E eu digo, A caganeira passa, mas vocês dão carne podre à águia. Ide pagar o que devedes. O Porto é o maior. O Porto ganhou tudo. O Porto ganhou 20 taças Cândido de Oliveira, o Benfica ganhou 2, o Sporting ganhou 7, o que é que vocês querem? Nem o Real Madrid  tem uma Taça Intercontinental. Só o Porto. O Porto ganhou a Taça das Taças, uma Taça Intercontinental, dois Campeões Europeus, duas taças UEFA: seis. E o Benfica? Dois Campeões Europeus no tempo do Salazar.

Em Valongo são padeiros
em Sobrado lavradores
em Lordelo marceneiros
a terra dos meus amores.

Sou da terra dos móveis: Lordelo, Paredes. Os de Paços de Ferreira aprenderam a arte com os de Lordelo. Trabalhei como entalhador. O meu avô é de Valbom, também entalhador. De móveis. De todas as madeiras.
Sei mogno, sei eucalipto, sei castanho, sei de toda a madeira que calhar. Século XVII, século XVIII. Trabalhava com goivas, caixobi (o que faz a gravação), o martelo, não é martelo é maceta. E muitas goivas. Palheta 1, 2, estreitinhas, mais largas, formões. Para cima de umas 50 peças. As peças eram minhas. Eu deixei isto há mais de 20 anos, deixei lá numa mala. Na família também aprenderam a arte comigo e levaram a ferramenta, compreende. Os meus irmãos também os ensinei. E gente de fora. Às vezes pediam-me e eu ensinava-os. Eu trabalhei em casa do Madaleno, em vários. Fábricas que tinham uma média de 50 empregados. Um era Quinzinho, outro era Jardim Ferrinha. Eu às vezes trabalhava à peça em casa. Agora a coisa de entalhação foi abaixo: é tudo obra lisa. E eu também não posso trabalhar por causa da coluna e tudo o mais. Caí, fiz operação à anca, tenho a perna inutilizada.

O assobio
Estive na tropa em Moçambique. Em Tete, Beira. Era de uma companhia de Apoio Directo: mecânicos, bate-chapas, carpinteiros. Fazíamos tudo. Na tropa estive no ano de 1969 e vim em 1971. Eu era soldado. Tinha a escola de cabos, compreende, mas de certa maneira houve um problema na companhia. Cheguei dois minutos atrasado na formatura e mandaram-me cortar o cabelo. Eu agarrei e não deixei cortar o cabelo, são coisas que acontecem. Deram-me cinco dias de detenção. Depois, em Tete, no refeitório, não deixei fazer pouco. Lá um chefe de mesa começou a mandar comigo e deram-me mais três dias. Quilharam-me, ao cabo não.
Depois houve mais um problema: estava de Oficial de Dia o capitão de outra companhia, que a mim não encarava, e queria que eu acusasse um gajo. O capitão disse: Você estava na caserna tem de saber quem era. E eu disse: Não sei, eu não vi, eu até podia estar na casa de banho. O gajo era de Vila do Conde, eu não queria prejudicá-lo, compreende. Os gajos de Vila do Conde alto lá com eles. São os de Vila do Conde e os alentejanos e os madeirenses. O gajo tinha dito Quem quer ir ao cu ao oficial de dia que dê um assobio. Mas eu não disse ao capitão quem foi.

Direitos iguais
Alguns não me encaram. Não respeitam quem está no seu trabalho a dar carinho às pessoas, aos idosos, juventude, turistas. Há mulheres que ficam com ciúmes por verem as idosas a darem-me beijos. Há um que tem um clarim e uma mala e tem dinheiro dentro a entusiasmar as pessoas. O clarim dele dá muito barulho, eu tapo os ouvidos. O ceguinho que toca na esquina já foi escorraçado da Batalha. É ceguinho, mas é uma jóia de pessoa.
Olhe, àquela senhora que vem aqui roubaram-lhe a carteira:
– Oh minha senhora, noutro dia roubaram-lhe a carteira.
– Roubaram-me a carteira com a minha reforma.
Tive pena e emprestei-lhe o que tinha. Eu também fui roubado. Roubaram-me uma sacola de couro. Foram os do Benfica, não foi mais ninguém. Mas piores que os do Benfica são os da droga.
Eu tenho pena das pessoas, eu francamente já telefonei para os bombeiros irem buscar idosos. Caíam lá na estrada e eu apanhava-os. Eu tenho muito crédito em Valongo, nos bombeiros e tudo o mais. Mas há mais de um ano que eu não canto lá. Deixei. Lá tem pessoas que não têm mentalidade e eu, para não me chatear… O presidente da Câmara não é da minha cor. Eu sou militante do PSD. Durão Barroso, Santana Lopes, todos me conhecem. Já estive com eles. Estive com eles no Coliseu, estive com eles em Valongo. Às vezes dizem-me, então tu és pobre e és do partido dos ricos? E eu respondo “Então os pobres não têm os mesmos direitos que tem um rico?”.

Até os netos
O meu nome é António Ferreira Coelho. Mas, na terra, todos é por Leite que me conhecem. O meu falecido pai era russo e naquela maré puseram-lhe Leite, por ser russo. Tenho 68 anos. Casei, tive de tratar da minha vida e tudo o mais. Tenho seis filhos, três casais. Eles não querem que eu ande a cantar, mas quem manda sou eu. A minha mulher está assim um bocadinho da cabeça e eu não estou para me chatear por causa dela. Há coisas muito mal compreendidas e quando as pessoas, os filhos, querem mandar nos pais desta maneira e daquela. A mãe deu-lhes muito abuso. E têm mais amor à mãe do que ao próprio pai. Depois há certas coisas, compreende, em casa é tudo vermelho, tudo mouro. Até os netos são do Benfica.

Fotografia e texto do jornalista Augusto Baptista (texto redigido após conversa com António Ferreira Coelho, meados de 2015)
Publicado no blog “Azul Canário”