A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

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Cultura a Oriente

•2020-02-09 • Comentários Desativados em Cultura a Oriente

Se o Porto fosse um barco estaria adornado para a Foz. É pecha antiga, desde que, no séc. XIX, ingleses e burguesia tripeira começaram a instalar-se em Cedofeita, e, Campo Alegre fora rumo ao Atlântico. A cidade ficaria dividida entre o lado Ocidental, residencial e o Oriental, com indústrias e operários. A partir daí, investimento imobiliário e cultural e ordenamento urbano privilegiaram o território a poente, em detrimento do nascente. Mas bastaria o seu Vale, para Campanhã ser vista com outro olhar.

O século XXI trouxe o início da mudança. O Dragão e o Parque Oriental afirmam-se como eixos de transformação. E, recentemente, surgiu outro polo de inovação: o Centro de Arte Casa S. Roque, criado pela Associação “Viver Cidade”. Um milagre de perseverança e amor ao Burgo, que converteram o arruinado Palacete Ramos Pinto num modelo de reabilitação. Construído nos inícios do século XX, sobre uma habitação rural setecentista, segundo o projecto do Arq. Marques da Silva, o Palacete constitui um exemplo do ecletismo portuense. Integrava jardins (com camélias centenárias), bosque e terreno agrícola que hoje constituem o Parque de S. Roque. Tudo conjugado e poderemos usufruir em Campanhã de um desígnio cultural que replique Serralves (quero dizer: categoria e sucesso) já que, além das exposições, o Centro de Arte («uma casa do Porto para o Porto e para o mundo») oferecerá no Jardim, a partir de Maio, concertos de Jazz e de música clássica.

Na confluência da tradição com a modernidade, oxalá o público e a cidade saibam corresponder ao mérito desta arrojada iniciativa.

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Patxi

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Patxi

Depois do 25 de Abril, a paisagem musical do Porto alterou-se com a vinda de figuras nacionais e estrangeiras. Apesar das reticências da cidade, a diversidade imperava e a colonização anglo-saxónica não começara. Refiro-me à música dita ligeira, que os melómanos autênticos apreciam tanto como óperas e sinfonias. (No campo da música dita clássica o panorama era invejável.)

Com limitações, o Burgo foi ouvindo no Rivoli, Coliseu e Carlos Alberto intérpretes de primeiro plano: Paco de Lucia, Paco Ibañez, os Gipsy Kings iniciais (mais popularuchos), Joan Manuel Serrat, Léo Ferré (e o inolvidável ”Avec Le Temps”), Collete Magny, Michel Petrucciani, Stephan Grapelli, Astor Piazzola e até americanos com Gary Burton e Pat Metheny. E inúmeros brasileiros.

Muitos partiram, levados pela gadanha que não nos perdoa a precariedade. Há dias, um amigo mandou-me esta mensagem que deixou mossa: «Morreu Patxi Andion» (veio cá várias vezes, a primeira em 1969) e cantava: «Veinte años de estar juntos / esta tarde se han cumplido. / Para ti… flores… perfumes, / para mi… / algunos libros. / No te he dicho grandes cosas / porque… porque no me habrian salido, / ya sabes… / cosas de viejos… / requemor de no haber sido. (…) / Hoy, en esta noche fria, / casi… como ignorando el sabor de la soledad compartida, / quise hacerte uma cancion / para cantar… despacito, / como se duerme a los niños. (…) / Sera… sera que esta cerca el rio… / o es que estamos en invierno / y estan llegando… / estan llegando / los frios.»

Que falta nos fazem palavras assim… Adios Patxi, hasta siempre.

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Iniciações

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Iniciações

Acho que foi Ilse Losa quem escreveu: «O que seríamos nós sem as nossas recordações…» Por isso deu-me para recordar o meu avô Eduardo, pelo inesperado encontro de uma fotografia sua, esquecida nas velharias da família.

Nela, vemos o elegante dos cafés e cabarés da Baixa portuense, pelos anos vinte do século passado (o cabaré era o Primavera, na Rua dos Lavadouros): cravo na lapela, bigode frisado, colete com relógio de bolso, colarinhos engomados e gravata de seda. Um tirone.

O avô Eduardo foi o meu primeiro desvendador do Porto. Vinha buscar-me aos sábados, trazendo um embrulho com a prenda da semana. Normalmente jesuítas da Palace, acompanhados de um livro, desde as “Aventuras do Capitão Morgan”, “Sandokan” e “Alice no País das Maravilhas”, até Júlio Verne. Foi, portanto, iniciador à descoberta do Porto e incentivador da leitura que, para mim, continua a ser (apesar da Web Summit e C.ª) o motor insubstituível do desenvolvimento pessoal.

A iniciação ao Burgo fez-se de eléctrico, com itinerários caros a um conservador inveterado: jardins e exposições no Palácio, a Foz toda, do Passeio Alegre ao Pavilhão de Carreiros, onde lanchávamos. Outro passeio, a pé, era subir até ao Piolho (aí, viciei-me em mazagrans, que desapareceram dos hábitos portuenses) e depois, por Carlos Alberto, Bairro de Cedofeita e Rosário fora, até à Torrinha e Rua da Paz (onde vivia a minha tia-avó Belmira). Como se depreende, para o avô Eduardo, o Porto era a Baixa, Cedofeita e Foz, depois tive de o aprender mais completo.

E desculpem os leitores esta evocação, mas acordei sentimental. É a vida!

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Um desafio

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Um desafio

Noticiou o JN que havia 34 tradições do nosso património imaterial em espera de «deliberação superior» para «entrarem na lista do património nacional».

Desconfio das deliberações made in Terreiro do Paço, porque do país sabe e entende pouco. Ou nada. A lista, que vai do Cantar de Reis, de Ovar, à Festa das Rosas, de Vila Franca do Lima, da bateira avieira, do Tejo, ao fabrico da Broa de Milho, de Famalicão, para os corredores do Centralismo deve cheirar a parolice. Aliás, o dito-cujo, na sua infinita incongruência, tanto desconfia do de antigamente como do da modernidade e não classificou a Casa da Música porque tinha pouco tempo.

Aparentemente, para ser incluído na agenda do TP, só com antiguidade venerável. Assim, não há qualquer razão para que as tradições candidatas continuem em espera. Talvez em matéria de políticas culturais isto esteja a precisar de um novo 25 de Abril.

Quero então acrescentar à lista outra proposta: é imperativo o Burgo candidatar a sua tradição maior, a Festa de S. João, a Património Cultural da Humanidade. Que outra manifestação existe equivalente em antiguidade (historicamente desde D. João I, pelo menos, mais longe, desde a pré-história, como culto solar)? E em abrangência da comunidade, entusiasmo, emoção participada, animação, iniciativa popular, espontaneidade, convergência de acções culturais, tradição gastronómica? Que outra manifestação existe de transformar uma cidade inteira em espaço de Festa? Quem aceita o desafio de uma guerra destinada a transformar a assunção da grandeza cívica da cidade, numa plataforma de afirmação internacional?

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Galerias Lumière

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Galerias Lumière

Mantenho viva a recordação das Galerias Lumière. E, em primeiro lugar, do cinema. Dos cinemas (que lhe deram nome) e dos filmes que neles vi. Tantos, que nem recordo os nomes. Mas ficará para sempre guardada a imagem da comodidade e do encontro com os cinéficos meus amigos.

Quando surgiram, em 1978, com projecto do notável arquitecto Magalhães Carneiro, as galerias correspondiam a um conceito inovador do espaço comercial à escala da cidade, onde o small era beautiful. Eram a mudança nos hábitos portuenses, afeitos à loja personalizada, e ofereciam um novo sentido para a sociabilidade.

Mas o mundo mudou. E a era das megasuperfícies, onde as solidões se revêem e a individualidade se esbate, veio trazer a perdição destes espaços. Espalhados pelo Burgo, foram ficando esquecidos em Cedofeita, 5 de Outubro, Alex. Herculano, Galiza, Heroísmo, Santa Catarina, Campo Alegre, Av. Brasil, na Raione etc. Alguns conseguiram resistir ou (como o Stop) renascer, outros arrastam-se no subaproveitamento.

Da segunda vida das Lumière, em 2014, destaco o sossego, a luminosidade e as lojas de gelados ou de jornais-revistas (onde o melhor de ler se encontrava), além, obviamente, da Poetria – símbolo livreiro da Invicta. Mas tal renascimento está em risco. (Esta cidade, tão ansiosa de mudar – e enriquecer – de vez em quando descuida-se com o cuidar da alma.) Mas, nas pisadas da modernidade, talvez o Município possa salvaguardar a continuidade das Lumière, impondo a conciliação dos seus espaços com a função do que nelas pretendem agora construir. Arquitectura e imaginação precisam-se.

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Epifanias

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Epifanias

Sem querer dizer que dantes é que era bom, neste caso até era. Ou seja, sendo eu catraio, em minha casa faziam-se três consoadas: Natal, Fim do Ano e Reis. Três bacalhoadas e um fartar dos condimentos portuenses, das rabanadas à aletria e por aí fora. E, além da comilança, embora lhes chamem “Janeiras”, também se cantava nas três épocas. Ao Menino, na noite natalícia, em vindo Janeiro, sim, as Janeiras, e na noite deles, aos Reis: «Ó Senhores desta casa / entrai e ouvireis / Que lá do Oriente / Já chegaram os três Reis.».

Mas, segundo os mais velhos, os Reis tinham perdido o fulgor de outros tempos, quando havia animação nas ruas e, contava Armando Leça: «arruavam zabumbas, ferrinhos e gaitas de foles, exclusivas dos carrejões galegos» e se «ouviam as bandas com tocatas». E ao Sá da Bandeira vinham os Reiseiros da Maia, que representavam artesanalmente autos teatrais das funduras dos séculos. Faziam as delícias dos citadinos que lá caíam a ouvir recitações como esta, na voz de Herodes (dos reseiros de S. Mamede de Coronado): «Ó falsos traidores / Das minhas iras objecto / Tendes o atrevimento, de interromper o meu decreto». E por aí fora.

Enfim, não podendo dizer que dantes é que era bom, sem internet e redes sociais era tudo muito mais ingénuo para acreditar nos três Reis Magos, vindos do Oriente, e festejá-los. Todavia, para a minha geração, os Reis traziam duas epifanias suplementares: desfazer a Árvore, que enchia a casa de luzes cuja intensidade nos aquecia por dentro e, sobretudo, a perspectiva de que, no dia seguinte, recomeçavam as aulas. O Natal acabara mesmo.

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Excursão de Fidalgos

•2020-02-05 • Comentários Desativados em Excursão de Fidalgos

O associativismo é imagem de marca social do Porto. As colectividades representavam os lugares de encontro e ocupação de lazeres de bairros, largos e ruas de que eram emanações cívicas.

Havia-as com estatutos aprovados (sobretudo durante o Estado Novo, que tudo fez para as controlar), e havia-as informais, com objectivos simples e concretos. Podiam ser Grupos de Boas-Festas (apresentavam revistas do ano e, por criticarem demasiado, acabaram por ser proibidos), Excursionistas, Caixas de 20 Amigos, etc.

Nos tempos áureos do «turismo popular», os grupos excursionistas contavam-se por dezenas. Falamos dos anos vinte a sessenta, e, para concretizar «os passeios», os associados quotizavam-se para abalarem de camioneta rumo a destinos clássicos: Viana, Braga, Aveiro, Coimbra (e o “Portugal dos Pequeninos”) e, na melhor das hipóteses, Lisboa. Recordo uma dessas colectividades: o “Grupo Excursionista, Os Fidalgos da Lapa” e o seu VI Passeio Anual, de 26 de Julho a 2 de Agosto de 1953. Verdadeiro luxo, saiu do Porto para Lisboa, Setúbal, Portimão, V.R. St.º António, Évora, Portalegre e volta.

Em «tempos de angústias e renúncias» eram a alegria e a felicidade ao alcance da gente anónima. A resposta inocente das suas expectativas e respectivas bolsas.

E para verem como o mundo mudou e o país também (E ainda bem. Em muitos aspectos, a mudança significa viver melhor e aspirar a voos mais altos.), a empregada da cafetaria onde escrevo estas crónicas, disse-me, com naturalidade, que passara férias na Croácia. (É por estas e outras, que acredito no Progresso da sociedade.)

©helderpacheco2019