Lembrança de D. Teresa

•06/09/2016 • Deixe um comentário

No dia 12 deste Agosto sobressaltado, o Porto perdeu um ícone: a Adega S. Martinho. Não por inutilidade mas porque, simplesmente, as mudanças no tecido da cidade não se compadecem com os símbolos de uma tradição cujo sentido era diferente do nosso.

De uma tradição popular e operária que atravessou o séc. XX e se desvanece com o fim das comunidades de que emergia. E de uma cultura em que as tabernas desempenhavam papel fulcral como espaços de convivência. Nelas firmaram raízes o mutualismo (nas Caixas dos 20 Amigos), o aforro (nos mealheiros), os lazeres (nos grupos excursionistas), o desporto amador (clubes de futebol, pesca, atletismo e columbofilia), o entretenimento (jogos, rádio e T.V.). E, sobretudo, o encontro com os amigos. A conversa e a discussão – essências da vida cívica.

Lugares de socialização informal estreitamente ligadas à vizinhança eram, vendo bem, os «lugares intermédios» (Oldenburg) entre o trabalho e a habitação. O seu desaparecimento representa não a morte da cidade (que está viva, mas é outra e já não a que sustentava 1 000 tabernas, em 1755, e 1862 – incluindo casas de pasto – em 1924), mas o ocaso de «uma certa cidade», densa, terra-a-terra, significante. Ou, se não quisermos iludir os factos, pobre. Uma cidade mais de povo e menos de classe média.

Depois do fim da Casa Correia, da Adega Vieira («o melhor bucho do Porto») e de dezenas de outras, com a Adega S. Martinho encerra-se um ciclo da vida portuense. Da nossa própria vida. Dos sobreviventes de uma cidade “ao nível do rés-do-chão” de que um dia destes restam a memória e a nostalgia. (E a lembrança daquele sorriso, cheio de doçura, de D. Teresa, que fazia contas em escudos e preparava um polvo com molho verde que não era deste mundo pré-fabricado a que nos vamos adaptando.)

©helderpacheco2016

S. Bartolomeu

•06/09/2016 • Deixe um comentário

Quando o diabo tinha dia certo para perturbar as pessoas, 24 de Agosto era o aprazado para o efeito. Opuseram-lhe, então, as virtudes protectoras de S. Bartolomeu e das águas do mar. Em sete mergulhos. E, por detrás, esconderam um culto pagão – mas esta é outra história.

Era a festa. A romaria, com música, foguetório, comilança, boa pinga, doces caseiros e melancias. Dançavam, cantavam, tomavam banho e, no fim de tudo, enchiam a pança. Da Foz a Matosinhos e a Leça. Depois o mundo mudou e a festa urbanizou-se e deu origem a uma das maiores tradições inventadas no Burgo do séc. XX: o cortejo de trajos de papel.

Disse-me um velho fozeiro que terá sido inventado em 1942 pelo bairrista Joaquim Picarote, ajudado pelo banheiro do Ourigo José Padeiro. Acredito. O primeiro tema terá sido “Os Piratas”. O cortejo pegou de estaca e converteu-se em hábito e costume. Com entusiasmo, devoção e amor à causa da cidade. Não sei se Europa fora há festa assim. Cortejo assim. Dedicação assim. E paixão de andar noites, semanas a urdir, cortar, coser dezenas de trajos para – conforme o tema – vestir numa certa manhã, desfilar com eles e, no fim, deitá-los ao mar. Afinal, S. Bartolomeu faz milagres. De persistência e dádiva. Da alegria de viver e conviver às cores. Exuberantemente.

Este cortejo vestido de papel é um fenómeno. É património de humanidade. É boa Cultura e melhor acto cívico.E é altura do Burgo o assumir como acontecimento relevante. Porque o S. Bartolomeu da Foz vale mais do que mil Movidas. Se é único e diferente, do que se está à espera para o promover como atracção, espanto e criatividade no Agosto portuense? Querem «happenings» e «artes performativas»? Aqui os têm, para milhares de pessoas. Abram os olhos para esta cidade que só precisa de entusiasmo na celebração.

©helderpacheco2016

Éolo e maus cheiros

•06/09/2016 • Deixe um comentário

Como o Terreiro do Paço não pára de nos surpreender, vejo-me obrigado a regressar ao gazetilheiro Simões de Castro para expressar o meu estado de espírito: «Sinto-me besta, cavalo, / Estou camelo, estou burro (…)». Assim fiquei perante o anunciado aumento do IMI pela paisagem da casa e a sua exposição ao astro-rei.

Que argúcia e ponderação! Que criatividade na arte de sacar aos tansos da classe média: «E esta lamentável gente, completamente esquecida da civilização, inteiramente separada por todos os vínculos, excepto pelo do imposto (…) paga e como nenhum benefício recolhe do dinheiro com que contribui é pura e simplesmente roubada (…)» (Ramalho Ortigão, “As Farpas”) Perante a substantiva adjectivação acima transcrita nada mais resta do que me sentir lesado.

É que a paisagem de que usufruo – estuário do Douro e Atlântico a perder de vista – vale não sei quantos por cento. E à exposição ao sol, acresce outro tanto. Para o Terreiro do Paço, sou um privilegiado. Um parasita da boa vista e da quentura. Devo, por isso, pagar e não bufar. Estou tramado.

Existem, todavia, dois senões a meu favor: o Inverno e o mau cheiro. No Inverno, da paisagem vêm temporais. Chuva e ventania, estragos, incómodos, inundações e despesas de manutenção de estores, caixilharias e varandas. Nas invernias pago a factura da paisagem. Quanto ao mau cheiro, acontece que, fronteira à minha casa, a ETAR modelo, inovadora (igual à do Mónaco, diziam) noite sim, noite não ou noite sim, noite sim tresanda ecologicamente. Só de janelas fechadas, máscara ou mola no nariz se consegue resistir.

Face à investida do Terreiro do Paço, resta-me apelar a que Éolo (deus dos ventos) me sirva de atenuante e invocar o mau cheiro para desconto de IMI. Que a trampa sirva para alguma coisa. Ao menos.

©helderpacheco2016

Como S.Tomé

•06/09/2016 • Deixe um comentário

O gazetilheiro Alfredo Simões de Castro (1845-1932) escreveu num dos seus poemas: «Santo Deus! Eu quasi caio, / Fico maluco, desmaio, / Com tão estranha notícia.» No mesmo estado quase cataléptico fiquei, há dias, com a notícia surgida no JN (28.7.16) sob o título “Mirós Museu deve avançar no Porto”.

Ao lê-la, se não estivesse sentado, caía. Para o lado, em choque. Atónito, assombrado. E, como diziam os antigos, que falavam bom português, cheio de estupor. Não é possível. É contra-natura, anti-histórico e ao arrepio de tudo quanto, desde pelo menos D. Manuel I, o Porto (e, de resto, o país) se sujeita.

Tenham santa paciência, mas não acredito que a capital do império mais centralista deste mundo e do outro abdique das 85 obras de Joan Miró e as deixe vir para o Porto. Para a província. «Vinde a nós, ó Provincianos!» (Ramalho, “As Farpas Esquecidas”) tem sido o lema capitalino, sedimentado e assimilado ao longo dos séculos – e, ai de nós, potenciado nos últimos quarenta anos (quando o D de democratizar, do 25 de Abril, deveria significar o contrário). Não acredito, pronto. Só quando vierem os quadros e os vir aqui expostos. Com compromisso firmado em cartório notarial que é a sério (e não «à séria», como dizem na capital).

E, mesmo assim, o acautelatório de Ricardo Jorge (“Sermões dum Leigo”) continua actual: «Ao provinciano – e eu sou-o – arreigou-se-lhe tenazmente a ideia de que os vedores públicos em Lisboa sofrem de miopia particular que os não deixa enxergar tudo quanto transporta a órbita da capital». Acreditar, portanto, que os centralistas , convictos e absolutos, abram mão dos Mirós (que, aliás, nem são deles, mas do país) e os transfiram para o Burgo? Só por milagre superior ao de Ourique. Nestas bondades do Terreiro do Paço, estou pior do que S. Tomé.“

©helderpacheco2016

Artista e cidadão

•06/09/2016 • Deixe um comentário

No dia 23 de Julho, o Porto transferiu-se para Penacova para homenagear o Pintor Martins da Costa que, nascido em Coimbra (1921), viveu no Burgo entre 1931 e 1973 e se exilou naquela vila beirã até à morte, em 2005.

O Porto deve-lhe intensa actividade artística ligada à cidade, destacando a Ribeira e as pontes, que o apaixonavam. E «arte pública» inexcedível, em murais no Palácio da Justiça, capelas dos colégios Brotero e Luso-Francês, escolas da Constituição, Monte Pedral e Soares dos Reis. Cafés Embaixador e Garça Real, e Invictus Supermercados. Em carta de 1992, diria até: «O Porto é a minha terra de adopção, de homem e de artista». Na academia portuense seria contemporâneo de notável plêiade: Júlio Resende, Nadir Afonso, Eduardo Tavares, Amândio Silva, Fernando Lanhas, Isolino Vaz, Júlio Pomar, António Lino e outros que integrariam o Grupo dos Independentes.

Em Penacova «construiu um lugar para invejar, sobre o Vale do Mondego, no meio das oliveiras e dos bandos de passarada». Ali encontrou o que considerava essencial. Ali produziu parte relevante da sua obra. Ali, cidadão do mundo, aceitou a humildade de ensinar alunos de uma escola perdida no país profundo. Ali escreveu crónicas límpidas sobre a gente, a terra e o sentido da vida. Ali defendeu os valores do rigor e honestidade promovendo o Bem-Comum. E Penacova retribuiu-lhe agora, publicando as suas crónicas, como “Contos Vividos”.

Mas o melhor que podia suceder numa vila onde, outrora, os «aristas» iam fazer curas de ares, seria assumir que o seu património cultural e paisagístico poderia converter-se em factor competitivo nacional e internacional, celebrando este cidadão exemplar através de um Centro de Arte Moderna Martins da Costa. Onde a grandeza do seu carácter fosse reconhecida. Por que não?

©helderpacheco2016

Fábula recente

•06/09/2016 • Deixe um comentário

La Fontaine que se cuide. Às suas 243 fábulas de animais que interpretam a vaidade, estupidez e destempero humanos podemos acrescentar algumas. A mais recente, intitulada “História do Tubarão e do Chicharro”, é assim: «No oceano pouco-Pacífico chamado Europa, conhecido por Mar quase Morto, o deus Neptuno convocou os habitantes para pomposo festim, onde seria eleito o Príncipe. O Campeão. Depois de eliminações prévias, subsistiram 24 candidatos. Acontece, porém, que, na lógica democrática daquele Mar, os direitos dos membros exerciam-se conforme o tamanho e o dinheiro e os graúdos abocanhavam os miúdos, sujeitando-os aos maiores vexames. Assim, os tubarões, preparando o clímax, foram devorando os mais frágeis. Todavia, a partir de certa altura, pelo seu apetite insaciável, começaram a comer-se uns aos outros, até subsistirem apenas o tubarão azul – que se considerava o Eleito – e o chicharro.

Este, pobre e relapso, tido como PIG e habituado a ser desvalorizado, foi fazendo a sua parte e à sorrelfa eliminando os da sua laia. E apareceu, surpreendentemente, a disputar a eleição. No festim final, o tubarão azul procurou por todos os meios – inclusive ilícitos – trucidar o chicharro intruso, que, por artes e manhas, o foi fintando até que, apanhando-o distraído, lhe deu valente mocada no toutiço que o deixou grogue. E foi eleito Príncipe.»

Moral da fábula: nenhuma, já que, no mundo real, os tubarões continuarão a dominar os pequenos. Não obstante, entrevistado na TV sobre o que sentia, um chicharro anónimo respondeu: «Já posso morrer amanhã, carvalho!» (isto dito por explicado, o que não fica bem em crónica séria). E acrescentou: «É a melhor coisa que me podia acontecer.» Ao que o entrevistador retorquiu que também não era preciso tanto para comemorar o triunfo.

©helderpacheco2016

Um despautério

•06/09/2016 • Deixe um comentário

Desta vez exorbitaram. Em tempo de aperto do cinto, gastaram, sabe-se lá quanto – contra as ordens do FMI e da UE -, em foguetes, estouros, efeitos pirotécnicos. E até cachoeira na Ponte da Arrábida. Espectacular. Em vez de austeridade (ou pobreza imposta pelos ricos?), abalançaram-se a despender milhares num festival de fogo!

A gente da Afurada tira a barriga de misérias, compensa-se e redime-se das frustrações, perigos e incertezas de quem ganha o pão no mar e de quem o espera em terra. E organiza-se para fazer a Festa. A S. Pedro. À antiga. Com música, comes-e-bebes, atracções, divertimento, contentamentos. Alegria colectiva uma vez por ano, à tripa-forra. Com fogo. Cada vez mais empolgante, num espectáculo de cinco estrelas. Com lugar no «ranking» do amor à tradição da romaria com a fé e os sentidos.

Mas desta vez abusaram. Em tempo de assaltos burocrático-tecnocráticos ao que nos resta de certa apetência da felicidade. Em tempo de angústias e renúncias impostas pelos funcionários de um espaço sem alma, chamado Europa, gastar as horas e o dinheiro em fogo de artifício não pode ficar impune. Quando lhe disserem, espuma o Wolfgang Schäuble. O Pierre Moscovici atira-se ao ar e exige sanções acrescidas. O trabalhista por acidente Dijsselbloem destina-nos à fogueira dos novos Inquisidores. E o que mandará vir, para nos expurgar do pecado da teimosia de não querer ser cinzento, o que virá do manda-chuva do FMI chamado Subir Lall?

Afuradenses indomesticáveis que resistis à ditadura de Bruxelas e insistis na euforia comezinha de foguetes e estouros, preparai-vos. Para quem quer tudo igual e asséptico do Atlântico aos Urais, a vossa rebeldia tem de ser punida. Austeridade a dobrar. Ou – adaptando ao caso o que dizia o outro – «à morte e às sanções» ninguém escapa.

©helderpacheco2016