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A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

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•2021-01-23 • Deixe um Comentário

NOS GUINDAIS

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Um sobrevivente da cidade que crescia nas ruas evocou-me o bairro da sua infância, na memória da alma tripeira. Das Escadas dos Guindais recordou os patamares onde brincava com arco e gancheta, ao «dá-me lume», à cabra cega, à macaca e ao berlinde. As portas e janelas abertas e a roupa a secar pendurada dos peitoris. E os rostos: no 1.º patamar a Miquinhas Malhada, irmã da Julietinha, chamando a filha Noémia que brincava com o Firmino, sob o olhar do senhor Moreira carpinteiro. E a Glorinha doceira. Vendia em S. Bento e trazia o que sobejava, para os vizinhos, dentro do cesto de asa coberto por um pano. E a Emília Zuca, em eternas peguilhices com a filha Cristina.

No 2.º patamar, num 1.º andar morava o senhor Ventura. Agente da PJ, infundia respeito. No rés-do-chão, a Laurinha do alfaiate velava o berço da neta e fiscalizava o Vicente e o Tono, filhos do Manel carteiro. No portal, brincava o Belmiro (exímio em falar, por gestos, com a mãe, surda-muda).

No 3.º patamar viviam a tia Fina e a avó Guida (na janela, um papagaio sabia todos os nomes da miudagem). No rés-do-chão trabalhava o Aníbal sapateiro, com o filho Domingos. A senhora Inácia vinha com um saco de laranjas descascadas para distribuir pela canalha (as cascas ficavam para o bolo-rei da Costa Moreira). E a Donana, tinha os cabelos mais brancos do bairro.

No 4.º patamar moravam o Tino, a Miquinhas Chumba (o corpanzil não condizia com a sua doçura natural), o senhor Francisco, dono do cão Dick e o Carlos «meio tostão», filho da Candidinha.

Era a cidade. Sincera, cheia de ternura e de problemas mas solidária.

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QUE TEMPOS!

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Segundo o “Dicionário Complementar da Língua Portuguesa”, de Augusto Moreno, minha muleta desde os 12 anos, a palavra «trampolineiro» significa embusteiro, trapaceador, intrujão, velhaco, caloteiro. E dela derivam trampolina, trampolinar, trampolinagem, trampolinice e trampolinista. Consultei depois o “Grande Dicionário da Língua Portuguesa”, de Mestre José Pedro Machado. Nele, aquela palavra aplica-se a quem faz trampolinices. E pouco acrescenta, a não ser trampolinada e ainda que trampolina é o acto ou dito de trampolineiro.

Dirigi-me, finalmente, à Esfinge, à Minerva, à verdadeira Enciclopédia e deusa das sabedorias do mundo electrónico, digital, confortável e à mão de semear chamada Google. E lá me disseram que trampolineiro é adjectivo ou substantivo masculino significando trapaceiro, velhaco, patranheiro, enganador, ardiloso, falaz, impostor, mentiroso e sub-reptício.

Depois de tudo, face às realidades do nosso tempo, pus-me a congeminar uma teoria etimológica que introduzisse a novidade quanto à origem de palavra tão cheia de conotações negativas (o trampolineiro, no Porto, era considerado abaixo de cão). E encontrei a verdadeira raiz do vocábulo: trampolineiro deriva directamente de Tramp (com a, à moda do Porto), seu inventor e exemplo. Até parece impossível que o dito-cujo não industrie a comandita para perseguir os autores dos dicionários que lhe roubaram os louros. E teria razão. Na minha vida nunca vi nada igual, nem o Fajardo, que, segundo as crónicas, pôs o Burgo em sobressalto. De tal forma que, premonitoriamente, até deu origem à palavra fajardice.

©helderpacheco2021

DA SEIVA

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

O Porto foi sempre teatreiro. No séc. XVIII havia ópera nos teatros do Corpo da Guarda (1760) e S. João (1798). Oitocentos seria a época de ouro de forte movimento associativo, iniciado com as Sociedades Dramáticas da Thalia e Almeida Garrett (1860). E o teatro profissional assentou raízes.

No séc. XX, surgiria o notável Grupo dos Modestos (1902). Meio século depois (1953) estreava-se o fulgurante T.E.P. E quando, em 1973, nasceu a Companhia de Teatro Seiva Trupe, a tradição atingiria novo patamar.

Ao longo de meio século a “Seiva” conciliou no palco da qualidade o teatro popular com o erudito, cruzando estéticas, géneros, estilos e encenações. Basta atender a alguns dos 125 espectáculos: Lux in Tenebris, de Brecht (1975); A Queda de um Anjo, de Camilo (1977); o Cálice de Porto, dos saudosos Benjamim Veludo e Manuel Dias com Norberto Barroca (1982); Uma família do Porto, de Júlio Dinis (1984); O Motim, de Miguel Franco (1986); As Criadas, de Jean Genet (1988); O Comissário de Polícia, de Gervásio Lobato (1992); Os Tambores na Noite, de Brecht (1994); O Estranho Caso do Trapezista Azul, de Mário Cláudio (1997, inaugurando o Teatro do Campo Alegre); O Arco de Santana, de Garrett (1999); Dias Felizes, de Beckett (2001). E outros.

Por tudo isto e mais o Prémio Seiva, a Escola de Teatro, os originais e autores que promoveu e a intensa actividade desenvolvida pela Seiva Trupe, não entendo as razões do imperial Ministério da Cultura em recusar-lhe o apoio que significa sobrevivência. Ou melhor, entendo: 70% dos contributos têm sido reservados a Lisboa e seu envolvimento. Até quando?

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POIS…

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

O Richard Zimler mandou-me uma encomenda que, além do gosto de a receber, me deixou preocupado. É que, no remetente, indicava a morada da capital. Caí das nuvens! Mais uma figura da vida portuense que se transfere para o poço sem fundo do centralismo que consome o país na «gelatina institucional» do Terreiro do Paço.

Escrevi ao Richard sobre a fuga para a capital e garantiu que era temporária e se mantinha fiel ao Burgo. Não acreditei e aconselhei-o a ler Camilo e “A Queda de um Anjo”, para saber o que acontece ao provinciano que se dissolve nos artifícios do lisboetismo.

Descobri na Revista “Branco e Negro”, de 1896, a “História de um Pretendente” (aos tachos da sede do Império). Assim: «1 chega de Celorico o Anastácio, sobrinho do Administrador. 2 Vai pela Arcada e engraxa-se… para engraxar. 3 Sua Ex.ª o Ministro dá-lhe esperanças. Há uma vaga… 4 Sua Ex.ª promete. No 1.º Diário [do governo] … 5 Sua Ex.ª continua prometendo. Dá quase a certeza… 6 Sua Ex.ª afiança: no 1.º Diário… 7 Sai o Diário: Amanuense. Sua Ex.ª é um homem de bem. Anastácio rejubila. 8 Rejubila, ama e galopina [angaria votos para eleições]. 9 Galopina, intriga, vota: 1.º oficial adido, com gratificações extraordinárias. 10 Sorri-lhe a sorte. Vota, discursa: Chefe de Repartição. 11 Discursa, escreve nas gazetas: Deputado. 12 Sindicaliza-se, monopoliza-se: Ministro. 13 Prédios, quintas, grã-cruzes, cartas de Conselho, dinheiro do Banco inglês. 14 Aposentação e 6 contos de réis por ano. 15 Estátua. Anastácio, o grande estadista.» 124 anos depois, a paródia permanece actual. Viva o centralismo.

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NATAL 2020

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Eram os afazeres iniciais (arranjar um pinheiro, no Bolhão ou no Anjo, retirar as caixas dos brinquedos da dispensa e «fazer a árvore», com o cuidado de não partir brinquedos de família). As manigâncias de armar o Presépio (montando a cascata e trocando os santos de Junho pela Sagrada Família). As sonoridades enchendo a noite (os Janeireiros da Vitória, ou os sinos do trenó no céu da nossa imaginação). Os aromas imperceptíveis (o «cheirinho» do perfume que minha mãe recebia), ou envolventes (o odor a canela do fritar das rabanadas). Os sabores incomparáveis (dos doces de chila ou de bolina, sonhos e aletria). Os trabalhos pesados (de alongar a mesa, com duas tábuas, para que vitualhas, louças e humanos coubessem à vontade). Os empenhos para arranjar o melhor bacalhau (no Moisés Cardoso, em Mouzinho da Silveira).

E vinha a balbúrdia (de sentar à mesa e servir a bacalhoada). E os falares (ao mesmo tempo, cruzando palavras). E os jogos inocentes (o burro e, sobretudo, o rapa, a pinhões). E o deixar a mesa posta até de manhã («Esta noite ninguém pense / Em ficar à mesa a sós / Porque os nossos queridos mortos / Vêm sentar-se junto a nós.») E a pantominice de enganar catraios (para as senhoras, católicas, vinha o Menino Jesus deixar presentes no sapato do fogão, para os senhores, ateus, como meu pai, eram dados pelos adultos, para o avô monárquico cosmopolita, pelo Pai Natal). Enfim, nostalgias. De qualquer modo, se delas não conservarmos a lembrança, ténue que seja, o Natal perderá todo o sentido. E não podemos aceitar que uma qualquer pandemia nos roube o que ele representa.

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MESMO ASSIM

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Não há como ter leitores com memória dos lugares, para estabelecer relações nas redes sociais de papel, tinta, palavras e amizade. E a crónica sobre a Rua das Flores funcionou como motivo de lembranças.

Um leitor interrogou-me acerca da origem do nome. Como não sei, utilizo fontes disponíveis. Em 1549, o Dr. João de Barros diz que a «Rua Nova de Santa Catarina das Flores se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins». Em 1789, o Pe. Rebelo da Costa escreveu que o «nome lhe proveio dos muitos jardins de flores que formoseavam o terreno por onde se dilata». E se, em questões de toponímia, as coisas simples são mais certas, fiquemos por aqui.

Leitor do JN é o quase centenário João Manuel (património da Humanidade) mantém-se activo, trazendo o sentimento de um território de afectos: «Simpática rua, escritório de “A Voz dos Ridículos”, em 68 anos de vida alegre e por vezes cheia de receios, com a PIDE e a Censura! Rua das Flores, onde organizei o Concurso das Varandas Floridas, pedindo ao Presidente da Câmara os vasos de barro para meterem as flores! Rua das Flores de tantos e tantos Amigos que faziam as tertúlias no Restaurante dos Linos. Comia-se, bebia-se e falava-se em surdina, quando a conversa era “Outra”! Vida de vidas que jamais posso esquecer!»

Cumprindo o confinamento que arranca as asas ao pássaro livre de sempre, o meu amigo não hesita em dizer que «Mesmo assim, fico contente e feliz.» Apesar do altíssimo risco do seu quotidiano, estes vencedores de várias guerras são exemplares perante os profetas da desgraça ou os baldistas estúpidos que por aí vegetam.

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O QUE MUDOU

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Quando a maldição nos deixar, a internacionalização da cidade permanece como primordial. Afirmando identidade, cultura, património, ciência, tecnologia, o que confirme prestígio e contribua para o renascimento urbano do Porto.

A revista “Monocle”, sob o título “Luzes brilhantes, cidades pequenas”, colocava o Burgo como primeiro de dez cidades com menos de 250 000 hab., pela acessibilidade, progressão, calor do acolhimento, etc. E a “National Geographic Traveller”, antecipando o “Melhor do Mundo para 2021”, destaca, na Invicta, «experiências culturais imperdíveis».

Mas nem sempre foi assim. E trago à colação a polémica no “Rand Daily Mail”, de Johannesburg, divulgada pelo “Comércio do Porto”, de 30.1.1908, provocada pelo artigo de um turista relatando que ao desembarcar em Leixões fora assaltado «por um bando de homens esfarrapados, de rosto picado de bexigas e que no Porto a todos os momentos eram rodeados de pobres». O artigo intitulava-se “Os mendigos do Porto” e criticava o «ver mulheres entregues a trabalhos rudes, etc.».

Em defesa do Burgo, o emigrante Alberto Rodrigues atribuía tais juízos «ao desconhecimento dos méritos da cidade», acusando o autor de «não a ter visto há mais de doze anos». Foi tão convincente, que a redacção do jornal rejeitaria as opiniões do texto visado, afirmando: «Em homenagem aos que prezam o Porto de hoje, deve dizer-se que o artigo aludido foi baseado numa visita feita há bastantes anos àquela cidade».

Controvérsia à parte, a verdade é que penúria, insegurança e atraso existiam. E muito caminho foi preciso andar para chegarmos aqui.

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UMA EXPOSIÇÃO INESQUECÍVEL

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Em Julho de 1975, abria ao público, no Museu Soares dos Reis, a notável exposição “Levantamento da Arte do Século XX no Porto”. Foi organizada por uma Comissão integrando nomes sonantes do panorama artístico: os pintores Ângelo de Sousa, Joaquim Vieira e Jorge Pinheiro, o escultor José Rodrigues, o crítico de arte Fernando Pernes e a museóloga Etheline Rosas.

Foram necessárias determinação e perspicácia para ambicionar a criação daquilo que não tinha, até então, sido possível nesta cidade. De facto, no manifesto da Exposição, os organizadores afirmavam reunir «testemunhos do gosto plástico» no Norte do País, através de um projecto que valesse como «afirmação acusatória e desafio dinâmico». E acrescentavam: «O que está em causa é a inexistência no Porto dum Centro de Arte Contemporânea». A Exposição seria «o protesto contra uma política museológica nacional que, ao ignorar praticamente os artistas vivos, corre o risco de asfixiar no passadismo academisante a vitalidade da arte de todos os tempos».

O acontecimento (na turbulência da época passou quase despercebido) funcionaria como percursor de uma visão moderna e actuante na vida cultural do Burgo. Na sequência seria criado o Centro de Arte Contemporânea, embrião do futuro Museu de Serralves (por milagre encontraria alojamento na Casa e Parque, sobre os quais as sombras da ambição imobiliária chegaram a pairar).

Na senda desta saga iniciada por aquela Exposição, oxalá um equivalente a Serralves possa desenvolver-se no Porto Oriental, através da Casa e Parque de S. Roque. A bem da qualidade do nosso viver.

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POR ACASO…

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Por acaso até faz falta, à cidade e a todos quantos vivem o Natal. O Natal portuense, cheio de rituais, hábitos e costumes enraizados no tempo. Faz falta e, por isso, venho reclamar do facto de, este ano, o Porto não ver a sua árvore natalícia. A árvore que, há 155 anos, faz parte da nossa paisagem de dentro e de fora. Da alma e do corpo, da casa e da rua. A árvore: instituição, sentimento, objecto de família, paixão, afecto. Uma parte de nós. Um desejo e uma esperança. A alegria partilhada.

Quando, no Natal de 1865, a árvore apareceu, como novidade, no Palácio de Cristal, deslumbrou e entusiasmou os tripeiros que logo a adoptaram como sua. Mas nem todos, Ramalho Ortigão expressando o pensamento conservador do Burgo viu nela um inimigo do presépio e uma ofensa à tradição portuguesa. Outros alegaram que o culto da árvore era manifestação de paganismo (e era, mas não esta convertida em uso cristão).

Há anos, numa crónica brilhante, o inesquecível Manuel António Pina perguntava: “Quem tem medo do Presépio?”, pois a procissão do multiculturalismo ainda vinha no adro e já este símbolo do espírito da época fora banido do espaço público. Era a neo-modernidade em retrocesso. Perdemos agora a árvore da memória e identidade do Burgo. Já não chegava que a maldição que nos tolhe a vida viesse roubar amizades, sorrisos, beijos, abraços, simpatias, liberdade para ainda fazer eclipsar a árvore de Natal da Avenida. (Que diabo! – e desculpem os anjos do céu tal blasfémia -, até o Rockefeller Center, em N.Y. vai ter a sua árvore! Como diria o meu neto: «Isto é que é uma situação!»)

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DISCREPÂNCIAS

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

A mentalidade centralista assume diversas configurações. Ora é subtil, dá pancadas nas costas e quase pede desculpa. Ora opera sem disfarce. Conforme as circunstâncias assim a roupagem.

O assunto que trago à colação pertence à categoria situada entre a ignorância e o distraído. Acontece que uma revista de referência, sob o tema “Descobrir Portugal”, publicou uma separata dedicada ao “Património”. Até aí, só elogios. O problema começa quando a mentalidade centralista mostra a sua displicência no tratamento do Burgo e da justa promoção do mesmo relativamente à capital do Império. Vejamos: no TOP 10 do património do Norte, são incluídos três locais: Torre dos Clérigos, Centro Português da Fotografia (presumivelmente, o edifício do Tribunal da Relação) e Museu de Serralves. Em Lisboa destacaram cinco. Aceita-se (sempre é a capital!)

O pior sucedeu quando fizeram escolhas destacáveis. A Norte, do Porto aparece o Museu Soares dos Reis. E foi tudo. A Sul («Olhai, Senhores…») foram seleccionados nada mais, nada menos do que catorze locais (11 museus, 2 palácios e uma igreja). A discrepância é flagrante porque, da mesma categoria ou mais relevantes do que certos destaques capitalinos teríamos, na Invicta, o Palácio da Bolsa, Pontes Maria Pia e Luís I, Estação de S. Bento, Igreja de S. Francisco, MIPPO, Casa da Música. Ficaria mais equilibrado, menos tendencioso e, sobretudo, mais competente. Feito com critério e não em cima do joelho. Razão tinha o Cancioneiro ao dizer: «De Lisboa me mandaram / Um presente com seu molho: / As costelas de uma pulga / O coração de um piolho!»

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DOS CHAFARIZES

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Passei há dias na Rua da Fábrica e reparei num nova peça do mobiliário urbano que a Câmara (ou o SMAS?) anunciou ir espalhar pela cidade: fontanários para uso dos passantes. Especialmente em lugares de grande movimento de pessoas. Achei boa ideia, já que tal equipamento constituía enraizada tradição portuense.

Até podia estabelecer-se uma relação entre ele e a vizinhança, nos seguintes termos: «Diz-me onde existe um fontanário de ferro fundido e dir-te-ei onde habita o povo.» Ou seja: entre os finais do século XIX e o primeiro quartel do seguinte, a (chamada) Companhia das Águas instalou em muitos locais aqueles pequenos fontanários, com uma ou duas torneiras e, por debaixo, placas circulares onde os utilizadores pousavam os canecos com que se abasteciam de água potável. Localizavam-se, quase sempre, nas proximidades de bairros, ilhas, colónias e concentrações de habitação operária. Não havendo, para eles, abastecimento de água ao domicílio, os chafarizes desempenharam um papel essencial ao quotidiano de milhares de portuenses. Ainda bem que voltaram, com o modelo que, nalguns sítios, sobreviveu ao furor fonticida de os retirar (com as fontes) do espaço público.

Aliás, confesso – talvez erro meu: nunca morri de amores por um museu das fontes. Eram parte integrante das ruas e dos largos. Serviam e alindavam a cidade. Não são objectos arqueológicos e museológicos, mas instrumentos da qualidade do ambiente urbano. Se mandasse recolocava-as, nuns casos, nos lugares de onde foram subtraídas, noutros, em locais escolhidos para a requalificação. Nem mais, nem menos.

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DO ESSENCIAL

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

Porque a ignorância só me permite falar do Porto, poderia fundamentar as crónicas a partir da imprensa. Basta ler as notícias para encontrar assuntos. E o de hoje é essencial ao futuro da cidade.

Dizia o JN: «O Porto quer ganhar mais quatro mil residentes». E: «A Câmara estima colocar à disposição dos seus munícipes cerca de mil imóveis», (de T0 a T4). O objectivo é combater a tragédia cívica que levou o Porto à quase implosão social. O despovoamento do seu Centro Histórico e do que consideramos a Baixa, foi ultrajante, a assobiar para o lado enquanto a cidade se desmantelava.

Vejamos a evolução dos seus residentes: 1900 – 165 729; 1930 – 229 799; 1960 – 303 420; 1981 – 327 368; 2001 – 266 790; 2011 – 237 591; 2019 – 216 606. Dizem que durante o dia a população quase duplica e deve contar-se a flutuante, etc. Balelas. O que dói aos tripeiros não metafísicos é verem a cidade definhar, perdendo cem mil habitantes e envelhecer.

Impõe-se afirmar como desígnio do Renascimento Urbano do Porto (agora que a reabilitação está a ser ganha) o repovoamento da cidade. Atraindo jovens, classe média e os estrangeiros que nos escolherem. Aproveitar as consequências da pandemia convertendo estruturas turísticas em habitações ao alcance da maioria, construir e densificar a partir das ruínas da desindustrialização e das antigas zonas rurais (o verde de uma cidade não são campos de milho, mas praças, jardins e parques públicos). Eis a revolução, o combate que esta Câmara deve (e procura) enfrentar. E, no futuro, quem não assumir tal desafio como essência autárquica, não serve o Porto.

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LEMBRANDO BAMBI

•2021-01-23 • Comentários Desativados em LEMBRANDO BAMBI

Regresso ao S. João (não o Santo mas o teatro, que comemora um século ao serviço do Burgo). Podem questionar: em tempos de «angústias e renúncias» tem sentido falar de teatros e coisas assim? E respondo: com Trumps e Bolsonaros seria pecado gastar caracteres (só tenho 1600), que os ature quem os elegeu. E também não me apetece falar dos que, enquanto o país se sacrifica, não prescindiam das férias no Algarve. Para esses o desprezo (e a polícia).

Falando do S. João (como sabem e sem menosprezo do magnífico trabalho nele realizado – que honra a cidade -, tenho pena de não ser o palácio da ópera, como a de Lyon, por exemplo. Aqui, estranhamente, uma região metropolitana com mais de um milhão e meio de pessoas, não o consegue manter), falando, pois, do S. João, regresso aos anos do leite e do mel da juventude. Aí pelos 17 anos, eu pertencia a uma seita (como se diz no Porto) onde imperava um valdevinos e boémio chamado Xá da Pérsia (viria a ser gestor brilhante no ensino público). Dela faziam parte gabirus como o Reisinho, o Pigmeu, o Tenente e outros. Gente de barba rija. Estroinas.

Pois na época em que o S. João se convertera – contra a sua história – ao cinema, aquela seita (tendencialmente culta) frequentava-o para ver filmes selectos (as coboiadas passavam noutros ecrãs). Certa ocasião, exibindo-se o incomparável Bambi, testemunhei, incrédulo, que, a meio da sessão, todos choravam copiosamente, rendidos à ternura do filme. Afinal, não eram tão duros quanto pareciam. É o mal dos portuenses: língua afiada e coração sentimental. Dessa fraqueza abusam os centralistas.

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AINDA JÚLIO DINIS

•2021-01-23 • Deixe um Comentário

A Maternidade Júlio Dinis é o exemplo de como o Poder Central era vesgo para as carências do Burgo e os tripeiros responderam a um problema premente. De facto, nos anos 30 do séc. XX, o panorama era quase catastrófico em matéria de Assistência Materno-Infantil. Entre 1930 e 36, a taxa de mortalidade para o primeiro ano de vida seria de 23.24% (até 1932, de 25%), fruto da situação social existente. E como a capital possuía, desde 1932, uma maternidade moderna, o Porto meteu mãos à obra.

Tudo começou em 1926, a partir do monumento a Júlio Dinis, no Largo da Escola Médica. A homenagem mobilizou a cidade para angariação de fundos por parte de senhoras e meninas que vendiam flores de papel azuis. Sobrando dinheiro, o Prof. Alfredo de Magalhães lançou novo repto: construir a maternidade da Invicta.

Assim se fez, através de festivais, peditórios, jogos de futebol. E como quando não existe faz-se do melhor, convidaram um especialista – o suiço Georges Epitaux – para projectar o edifício, construído entre 1928 e 1937, com o Estado, enfim, a garantir o investimento em falta. E o Porto ganhou uma instituição exemplar, que se tornou imprescindível.

A recente edificação do Centro Materno-Infantil do Norte (que sempre apoiei) veio trazer à antiga maternidade a dimensão contemporânea. Disse-o e repito-o: o prestígio da cidade ganha-se com instituições relevantes. Só não compreendo a razão porque o nome do patrono da instituição foi varrido do mapa. A nacional tecnocracia pela-se por siglas, ignora a história e prefere CMIN a Centro Materno-Infantil Júlio Dinis? Apenas um nome.

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CAIR DA FOLHA

•2021-01-23 • Comentários Desativados em CAIR DA FOLHA

No início do século XX, a opinião geral era que o Bairro da Sé devia ser arrasado. Nos finais de trinta, o Estado Novo começou a concretizar a ideia, no Terreiro e na Avenida da Ponte. Depois desistiu mas a insalubridade e a pobreza mantiveram-se (a acção do CRUARB não chegaria para reabilitar este espaço emblemático).

Nos anos oitenta, o bairro falava uma linguagem própria, exultava com as vitórias do FCP, mantinha grupos e tipos humanos (a Troleybus, o Fiafa, o Excaler, o Toninho 21 e outros), cultivava tradições do Natal ao Entrudo, o comércio era castiço: o Sezé da Loja (Rua Escura), o tasco do Fernando (lá cantavam o fado), o talho do Lucílio (e a sua cabeça de carneiro), o Sardinha Assada, a Leitaria, o 5.ª Avenida (pronto-a-vestir da moda), a barbearia Bessa, na Bainharia, a Casa Osvaldo, em S. Sebastião. Todavia, a droga iniciava a devastação e a degradação era evidente (em Santana, os prédios apoiavam-se em tubos de ferro). Mas a Sé vivia e falava tripeiro.

Uma expressão antiga que lá ouvi foi «cair da folha» designando o Outono. Metáfora utilizada nos Estados Unidos como «fall», nesta altura do ano. O Outono portuense (a melhor época para ambientes românticos e lugares nostálgicos) é aguarela de entardeceres tranquilos, onde o tempo parece deslizar, mas nunca teve cultivadores na escrita e na música. Não por falta de motivos.

E depois aparece a Diana Krall a cantar o «Autumn in New York» e salivamos de inveja, quando até podia fazer-se uma campanha internacional soberba: «Venha visitar o Porto no cair da folha». Promovendo este Outono único, inesquecível.

©helderpacheco2020

JÚLIO DINIS

•2021-01-23 • Comentários Desativados em JÚLIO DINIS

Foi anunciado pelo Presidente da Câmara, que, no próximo ano, a Feira do Livro irá homenagear Júlio Dinis «cujo mérito carece de reconhecimento». Finalmente a cidade acordou para a importância deste escritor cuja obra impregnou a sociedade portuense para a qual constituía referência.

Confesso ter sempre à mão uma edição da “Morgadinha dos Canaviais”. Serve-me de antídoto para os momentos ditos de «stress» (na época do autor diziam «spleen» e depois neura). Nesses transes, releio partes daquele livro. Acalma-me como refúgio contra a melancolia.

Durante quase um século, foi lido por muitos, querido pelo povo, estudado cá dentro e lá fora, traduzido e editado em várias línguas. Aos poucos, o cabotinismo pedagógico, o provincianismo e a ignorância da pós-modernidade relegaram-no para o sótão das velharias. Era elementar, sem substância. Nada mais falso, basta ler Óscar Lopes para se perceber a dimensão de Júlio Dinis. Vendo bem, foi precursor do naturalismo na análise psicológica dos personagens e sua circunstância, convicto do liberalismo foi crítico arguto das suas perversões: nepotismo, caciquismo, corrupção. Sem truculência denunciou alguns males do tempo: beatice, superstição, preconceito e intolerância. Retratista admirável de tipos humanos, fez-nos participar do seu quotidiano na trama da narrativa.

E, sobretudo, para os tripeiros, encarna o sentido profundo de pertencer a uma cidade cujo retrato desenhou ao escrever que o seu «principal título de glória é o ter, em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia prescindir dela, para se engrandecer.»

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Os “pequenos nadas” também podem ser um guia do Porto

•2020-11-09 • Comentários Desativados em Os “pequenos nadas” também podem ser um guia do Porto

Azulejos, portas ou batentes, floreiras, letreiros ou graffitis. Estão espalhados pelo Porto, mas passam muitas vezes despercebidos. Helder Pacheco reúne há quase 40 anos esses “pequenos nadas” que também “fazem uma cidade” e apresenta-os agora no livro Simplesmente Porto. Uma viagem pelos pormenores da urbe para a resgatar de visões estereotipadas.

Historiador Helder Pacheco já publicou mais de 40 livros sobre o Porto.

Foto Manuel Roberto

O curso era sobre aproveitamento dos recursos culturais do meio e Helder Pacheco deixou-se encantar com a ideia: de que forma as pequenas coisas do quotidiano integravam o território e o completavam? Estava em Newcastle, no início dos anos 80, e quando regressou ao Porto começou a reunir fotografias dessas “pequenas coisas” da sua cidade: portas, janelas, ferraduras, batentes, roupa a secar, floreiras. O arquivo cresceu e a vontade de o transformar num livro foi maturando: Simplesmente Porto (Edições Afrontamento) é essa viagem pelos pormenores onde pode descobrir-se uma outra cidade para lá dos monumentos, lugares icónicos e referências culturais.

A primeira inspiração para o projecto apareceu com Miguel Torga e “Bucólica”, o seu “poema visceral” cujo primeiro verso espelhava bem o pensamento de Helder Pacheco: “Ele escreveu ‘A vida é feita de nadas’. Comecei a associar esta frase às cidades, que também são feitas dessas pequenas coisas que nos passam despercebidas”, conta ao PÚBLICO para explicar o início da escrita do livro com mais de 200 páginas e largas dezenas de fotografias. “Há uma certa ideia de ver as cidades pelo património grandioso, as ruas, os monumentos, os jardins. Mas há também os pormenores”.

Helder Pacheco, autor de mais de 40 livros sobre o Porto, acredita que essas singularidades “fazem a diferença” numa cidade. “Em Dublin uma das imagens de marca é a cor das portas e a qualidade dos batentes”, exemplifica. Também o Porto está cheio dessas “imagens de marca”.

Os rostos das suas gentes (porque “o património mais importante das cidades são as pessoas”) e a harmonia dos animais domésticos na paisagem. A qualidade dos azulejos e das ferragens, a estreiteza das ruas na Sé, as pequenas escadarias semi-escondidas que ligam patamares, as varandas de ferro, os jardins caseiros às vezes compostos por apenas dois vasos, a enfeitada Rua das Aldas, as flores e luminárias postas na estátua do Padre Américo, o corrimão das escadas do Caminho Novo, o busto de Camões da Livraria Latina. Os graffitis humorísticos pintados nas paredes, as montras castiças, um letreiro de um grupo de taineiros da Ribeira chamado “os cheios de sede”. Mas também as “banalidades” e os “imponderáveis”: uma chuvada que forma uma sombra no chão, a silhueta de alguém a passar na ponte, um coração desenhado na lista de uma passadeira. “Tudo isto define a cidade.”

Livro tem dezenas de fotografias da cidade, uma viagem por pormenores onde pode encontrar-se o “espírito” do Porto, diz o historiador.

“Infelizmente alguns destes pormenores têm sido destruídos, como as portas do século XIX, os batentes e puxadores feitos nas metalúrgicas do Porto, as varandas. Na Rua da Constituição e em Faria Guimarães havia muito disso.” Nesse sentido, o livro do historiador nascido na Vitória é também um documento de memória, que tenta mesclar “coisas antigas com modernas” sem deixar-se enredar em saudosismos desnecessários, mas resgatando o essencial: “O passado passou, temos de ter sobre ele uma visão amável, mas crítica. Nem todo o passado é uma lição, mas temos de cultivar o que é uma lição.”

Depois de escrever à mão os vários textos que compõem o livro, quase sempre numa confeitaria da Foz à qual ganhou afecto, faltavam as imagens. “Sou um reaccionário tecnológico e por isso não me converti ao digital”, graceja o também docente que ainda hoje, aos 83 anos, dá aulas com recurso a diapositivos e vê o computador como um “microondas do conhecimento”. Como digitalizar o seu material – parte dele está no Arquivo Municipal do Porto, uns oito mil diapositivos guardados em casa – seria tarefa hercúlea e demasiado dispendiosa, recorreu a amigos fotógrafos, profissionais e amadores. “Expliquei-lhes o que queria e mandaram-me duas a três mil imagens. O meu problema foi ter excesso e não escassez.”

Olhar o detalhe foi uma aprendizagem contínua para Helder Pacheco, facilitada por uma formação na área de educação visual, pela velha dedicação à fotografia e pela paixão pelo cinema. Os “pequenos nadas” contribuem para “afirmar o espírito dos sítios” e reconhecê-los pode “oferecer o reencontro com um universo apaziguador da nossa visão sobrecarregada de estereótipos”, escreveu no livro. Se essa luta contra “a estandardização que uniformiza o quotidiano” for ganha, diz, a cidade globalizada pode salvar-se mais facilmente do risco de se tornar igual a outras.

Marina Correia Pinto, Público – 6 de Novembro 2020

DA TRADIÇÃO

•2020-10-06 • Deixe um Comentário

Na rua mais pequena do Burgo, dedicada a Afonso Martins Alho (que, por ter comido as papas na cabeça dos camones, merecia melhor), havia uma tabuleta de vidro. Há muito desaparecida, apontava um dedo para o outro lado dizendo «Adega do Olho é ali». Mas o olho era desenhado e não escrito.

E o outro lado era um beco sombrio. Ao fundo estava a propriamente dita encimada por outra tabuleta, com o mesmo símbolo, informando: «A Adega do Olho é aqui». Uma parte da sua popularidade adveio-lhe desta iconografia que a transformou de antiga casa de pasto servindo aquela zona da Sé, em símbolo da tradição do agrado da classe média.

Na última fase, a Adega do Olho, sem o fulgor de outrora, representava o encanto nostálgico de certo Porto a despedir-se. A cozinha mantinha os pergaminhos de D. Alice: as tripas das 5.ªs feiras e o bacalhau à Braga eram imbatíveis. Mas havia outro património: o mestre de cerimónias Snr. Sousa, com o maior bigode da Invicta (fazia contas na toalha da mesa e filosofava). Quanto ao mais, o beco era um misto de degradação, estacionamento selvagem e decadência urbana. Até a velha tabuleta fora substituída por uma réplica.

Passei por lá há dias e vi tudo mudado. A arquitectura foi reabilitada, o espaço é atractiva esplanada e a adega da nossa saudade deu lugar a um restaurante de bom desenho e excelente cozinha. Moral da história: nem sempre a tradição qualifica a cidade. Coisa que o poeta Luis Cardoza y Aragón assim explica: «A tradição é uma fénix, não uma múmia. Há uma diferença entre viver na tradição e criar a tradição, porque ela é uma criação incessante.»

Helder Pacheco 2020