Novo livro – Porto Nos Dias do Meu Tempo

•07/10/2017 • Deixe um Comentário

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No Porto

•19/11/2017 • Comentários Desativados em No Porto

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Um museu na Pasteleira

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Um museu na Pasteleira

Um dos problemas (ou defeitos?) do Porto é o atraso nas decisões importantes. Salvo as asneiras que, aí, são rápidas. A destruição do Palácio de Cristal ficou assente numa reunião de Câmara. E a do Jardim da Cordoaria foi superdiligente, tal como a da Avenida. As moradias setecentistas do Bonjardim desapareceram numa noite. Etc. Enquanto isso, vemos arrastar anos a fio decisões fundamentais para a melhoria da vida urbana (basta pensar na Avenida da Ponte) e os exemplos são às dezenas.

A inexistência de um Museu da Cidade era uma dessas situações. Desde que comecei a ser gente que ouço falar dele. Passaram câmaras de antes e depois de 74. E nada. Correram os anos e as águas debaixo das pontes. E nada. Europa fora, mundo fora, cidades grandes, pequenas e assim-assim têm o Museu da sua história. E aqui, nada. Até vilas e aldeias. Até freguesias. E aqui nada. Só promessas, planos e conversa. E, aqui, nada.

Umas vezes o museu seria num edifício único (vendo os de Londres e de Montreal, fiquei rendido a este modelo). Outras vezes seria repartido por núcleos ou pólos dispersos pela cidade. Era outro modelo. Mas o nada continuava.

Foi apresentado o projecto (em execução) do Museu do Porto aproveitando as instalações do reservatório de água da Pasteleira. Verdadeira relíquia industrial no Monte de Sobreiras, era o terceiro da chamada água da Companhia e abastecia o território até à Foz. Com um programa museológico explicando a história do Burgo desde o Cerco do Porto até à República, poderá fazer avançar a desconcentração dos recursos culturais da cidade, atraindo visitantes ao excelente e ignorado Parque da Pasteleira. Pela valorização de outros Portos que não a Ribeira e a Baixa, converti-me inteiramente ao projecto. E que a Invicta tenha, afinal, o seu Museu.

©helderpacheco2017

Ainda S. Bartolomeu

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Ainda S. Bartolomeu

Imaginem vestir 600 pessoas com trajos de papel confeccionados com a arte de alfaiatar. E arranjar voluntários para, durante meses, planificarem, talharem e coserem as indumentárias. E reunir figurantes para as vestirem e desfilarem até à Praia do Ourigo, com pompa e circunstância ou anarquia e humor, conforme as personagens. Conjugando o amor à causa da cultura, com tradição, solidariedade, orgulho bairrista e dedicação cívica. E, certamente, dádiva. Misturando tudo e adicionando maravilhamento, temos o Cortejo de S. Bartolomeu que, anualmente, percorre a Foz do Douro.

Esta festa ao apóstolo que, além de patrono de quem trabalha com peles, tem o condão de exorcisar os estados demoníacos, reveste particular importância. Porque reúne e sintetiza três tempos históricos e várias tradições: prolonga um milenar culto pagão das águas expresso no «banho santo»; revive, no séc. XXI, a romaria oitocentista com feira, merendeiros e forasteiros de perto ou de longe e representa, na sua feição actual, o exemplo perfeito de uma tradição inventada.

Inventada nos anos quarenta pelo incansável Joaquim Picarote e os seus amigos fozeiros, que nos legaram um cortejo com vestuário de papel único na Europa. Um cortejo e um espanto. Em época de indiferença, relações virtuais e solidões reais, comodismo tecnológico e uniformidade, ele afirma a diferença, a criatividade, o afã participativo, as conexões que cimentam o espírito da comunidade. E, céus! a alegria, oferecendo a milhares de pessoas aquele elemento tão ténue mas consistente chamado felicidade. Por um dia.

Sim. Este cortejo / festa / romaria e banho colectivo do S. Bartolomeu da Foz é um espectáculo de determinação e sentimento. E esta é a cidade dos nossos sonhos, afectos e fantasias. A cidade que ainda vale a pena.

©helderpacheco2017

Da cidade feliz

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Da cidade feliz

Nas andanças da modernidade, quase me sinto mal a falar de certos assuntos e a usar certas expressões. Como, por exemplo, «no meu tempo» ou «ainda sou do tempo» que, nos dias que deslizam por aí, tresandam a pau carunchoso e coisa pior (passadista será a mais «soft» – metendo palavra a preceito).

Não importa. Como os meus mestres de ver o Porto (Firmino Pereira, Alberto Pimentel ou Ricardo Jorge) falavam assim, vou em frente. Vou e digo que ainda sou do tempo em que se musicava nos jardins do Burgo. Uma das primeiras experiências de ar livre que vivi foi, quase de bibe e pela mão do avô Eduardo, a ouvir música no coreto da Cordoaria (no verdadeiro, da alameda dos plátanos, e não na falsificação que lá está.) Nele tocava a Banda do 18, do Quartel de S.to Ovídio.

Na Cordoaria, por ficar à mão, perto da Rua do Correio. Vieram depois os concertos na concha da Avenida das Tílias, no Palácio (mais de classe média, com um quarteto interpretando o que chamavam «música de salão» e os ingleses «light music»). Tardes inesquecíveis em que até as tílias eram odorosas (agora não lhes sinto o cheiro, mas devo estar a envelhecer). E havia cadeiras de jardim para nos sentarmos. O terceiro local de ouvir música era o Passeio Alegre, com referência aos refrescos de groselha, após, no chalet do Carneiro.

E veio-me isto à ideia, em turbilhão de infância e de saudade, a propósito da recente iniciativa de levar novamente a música aos coretos dos jardins portuenses. Não posso estar mais de acordo e mais contente. Afinal, se o passado passou e não vale a pena ressuscitá-lo, aproveitar dele o melhor de uma tradição futurível é dar provas de boa sabedoria. Porque a música nos jardins significava a cultura junto das pessoas, o fundamento de uma cidade feliz. E isso é o que nós queremos.

©helderpacheco2017

 

Por que razão?

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Por que razão?

A notícia veio de chofre, pelo Telejornal da manhã, à falsa fé. A magoar: «Morreu D. António, Bispo do Porto.» E deixou-nos perante a interrogação: como é possível? Expondo a nossa precariedade: «Sentamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos acaba.» (Joan Didion)

Sem se despedir, D. António Francisco partiu e assim ficámos carregados de espanto e de incerteza sobre o que valemos. (Não valemos nada – dizia meu pai, um homem sábio, significando que valemos pouco e tudo acaba.) Partiu, injustamente traído pelo seu coração, a ferramenta mais importante da passagem por esta cidade que, como me explicou, aprendera a amar.

Conhecíamo-nos dos encontros por aí, ao sabor do acaso: nos almoços do Rancho do Porto, nas aberturas anuais do meu Instituto, há pouco na Escola da Pasteleira. Ali confeccionavam os trajos de papel do cortejo de S. Bartolomeu. Disse-lhe que só em Portugal – onde continua a persistir alguma doçura de viver (ou de saber-viver) que nos distingue -, só neste país era possível um Bispo encorajar os voluntários da festa paganíssima do banho-santo. Riu-se e respondeu que teremos de fazer «uma interpretação inteligente destas coisas». Que a dedicação das pessoas e o seu entusiasmo deviam ser incentivados. Estava ali para isso e expressou-o num discurso tocante aos obreiros da festa.

Assim era D. António. Um homem simples, que mantinha o sotaque das suas origens durienses. Um erudito sem alardes. Um intelectual sem afectação. Um homem bom e disponível, sem populismos. Um humanista atento ao real e não só ao existencial. Que falta faz ao nosso Burgo! (Procuro entender o sem sentido da sua partida, mas falta-me a transcendência para encontrar a resposta. E não consigo perceber a razão por que «Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.». Jorge Luís Borges)

©helderpacheco2017

Um teatro na cidade

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Um teatro na cidade

Em 1846, José Toulon Catalon mandou construir um barracão, próximo da Viela da Neta, e baptizou-o como Teatro-Circo. Seria demolido e substituído por novo recinto com o mesmo nome. Com a abertura da Rua de Sá da Bandeira, ali foi edificado o Teatro-Circo Príncipe Real, inaugurado em 1874.

Em 1910, tomaria a designação da rua e se, até então, gozava de grande aceitação pública, a partir daí transformou-se na sala de espectáculos mais querida dos portuenses. Inicialmente com óperas-bufas, operetas e apreciadas zarzuelas, com o incêndio do S. João converteu-se em teatro de Ópera. E, do género, o melhor dos anos 20 e 30 por lá passou.

Ganharia depois a sua vocação no teatro declamado e de revista, que conquistaram o coração tripeiro. As peças da dupla Arnaldo Leite / Carvalho Barbosa conheceram estrondosos sucessos e actores incomparáveis (sem esquecer o fervoroso tripeiro Soares Correia) pisaram o seu palco. Nos anos 50, acolheu concertos da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto. E, com Vasco Morgado, viu desfilar espectáculos que inundaram o Porto de alegria, emoção e ídolos populares como Laura Alves, Vasco Santana. Ou Rui de Carvalho e Paulo Renato. E até Zeca Afonso.

No pós 25 de Abril, o Sá da Bandeira entrou em colapso. Comédia e revista seriam, para alguns, reaccionários (hoje, para outros, são parolos). Mas, nos últimos anos, o Sá da Bandeira renasceu das cinzas e reconquistou o perfil de teatro popular por excelência. E isso torna-o importante e indispensável numa cidade que, para ser inclusiva, verdadeiramente cosmopolita e, sobretudo, democrática, tem de acarinhar e desenvolver géneros, manifestações e espectáculos para todos os públicos. E não só para uns tantos. Que N.ª S.ª de Vandoma o proteja, pois, das derivas imobiliárias e culturais.

©helderpacheco2017

Demolir ou reabilitar

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Demolir ou reabilitar

Aí por 1980, num seminário sobre Património, no Funchal, expus o significado social que caracterizava as ilhas e bairros operários do Porto. Defendi que o projecto SAAL, que pretendia reabilitá-los, seria a solução mais justa para a sua qualificação. E critiquei a centrifugação (ou o desterro) para a periferia ou para fora da cidade de milhares de pessoas, pois o caminho teria sido reabilitar e reconstruir bairros e ilhas e não deportar populações para os guetos onde inúmeras famílias nunca se integraram.

A isto se opôs intempestivamente um participante que se apresentou como arquitecto de alguns bairros municipais do Porto. Para ele eram a opção política socialmente adequada. E o resto balelas e propaganda ideológica de quem nada percebia do assunto.

Ao senhor arquitecto, que deixara o Burgo, era indiferente o que se adivinhava e veio a agudizar-se dramaticamente: os problemas de exclusão e violência que alguns bairros «modelares» que projectara originaram e cujas consequências estão à vista. E omitia ou ignorava que, 30 ou 40 anos depois da destruição de muitas comunidades, as feridas que ficaram no seu lugar permanecem vivas (vejam-se a Fontinha, Eirinhas, Carvalheiras, S. Brás e por aí fora).

Mas a ironia das ironias, a incongruência das incongruências, a contradição das contradições, ou, se quiserem, o ajuste de contas com a História deste processo de implosão do Porto atingiu agora o clímax. De facto, a nova descoberta e moda da pós-modernidade é reabilitar ilhas e bairros operários para fins turísticos. O que não servia e era condenado por insalubre para reconstruir como habitação social serve para oferecer a visitantes à cata do pitoresco e do autêntico: «Oh, tempos! Oh, costumes!», dizia Cícero. E eu acrescento: «Afinal, onde estava a razão?»

©helderpacheco2017