O molhe de carreiros

•11/06/2017 • Comentários Desativados em O molhe de carreiros

Raul Brandão falava na «penedia afiada de Carreiros, onde o mar escachoa». E Ramalho: «Defronte da casa que habito, em Carreiros, fica o paredão do quebra-mar.» E D. António da Costa: «que formosa que é a Foz (…), com o seu passeio de Carreiros.» Ou Camilo: «estava em Carreiros, olhando contra o mar.» E Alberto Pimentel escrevia: «ia passear-se para ali durante algum tempo, mas não se passava além do paredão de Carreiros.» E muitos mais haveria a citar.

Se para os oitocentistas era Carreiros, o século XX rebaptizá-lo-ia como «o Molhe». Assim o refere Pedro Baptista: «Agarrou-se aos varões do molhe.» E Kita Rios de Souza: «foi a vez da Foz, mais propriamente a praia do Molhe.» Ou Rebordão Navarro: «e me convidou a almoçar no restaurante do molhe, em manhã de névoas finas.» E Miguel Miranda: «O pequeno bar enquistado na espinhela da praia do Molhe.»

O Molhe de Carreiros é um quebra-mar construído a partir de 1825 para abrigo das embarcações impedidas de entrar no Douro. Só entre 1881 e 1885 ficaria concluído. O tempo converteu-o em esplanada, miradouro, praia da elite e do povo. Local de peregrinação. Sítio de ver poentes. E de namorar. Ícone urbano, para os portuenses da minha geração o Molhe quer dizer infância.

Para matar saudades, passei por lá. O mar desconjuntou algumas pedras da muralha. Caíram. O gradeamento onde pousaram milhares de gestos amorosos na contemplação do Atlântico (ou dos teus olhos apaixonados) em certos sítios desapareceu. Puseram fitas de plástico a avisar do perigo. Senti revolta. Pela incúria, o desleixo, o desinteresse perante uma das maiores atracções paisagísticas da Urbe. Dizem-me que já começaram as obras de reabilitação. Finalmente alguém teve vergonha e esperemos que o Molhe do nosso deslumbramento ressuscite da agonia.

©helderpacheco2017

Os gosmas

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Os gosmas

Salomão terá dito: «A pobreza é o maior de todos os males». Coisa que os cómicos que nos regulam a vida a partir de Bruxelas parecem ignorar, ao fazerem empobrecer o país. Mas uma coisa é a verdadeira pobreza, estrutural, corrosiva, indigna e sórdida, outra é a mentalidade e os hábitos que induz no espírito de muitos que nada têm a ver com ela. Porque uma coisa é ser poupado e viver com pouco, outra é parasitar a coberto das dificuldades sentidas (pelos outros).

Chamava-se no Porto «andar à gosma», à poupança e proveito por vias oportunistas e pouco escrupulosas. Por exemplo: pobreza era apanhar beatas e «reciclá-las» para aproveitar o tabaco, andar à gosma era cravar sistematicamente o parceiro para não comprar cigarros. Pobreza era tirar jornais do lixo para os ler e não – como alguns – «alugar» o jornal e evitar comprá-lo, etc. Um dos indicadores do subdesenvolvimento cultural (e não económico, pois muitos que o praticam têm dinheiro para folestrias) era esta prática, para «poupar, que a vida está má». Alegavam.

Parece que o expediente se mantém, não sei se por aluguer, se por empréstimo. E João Manuel, decano dos humoristas (e leitor do JN há 80 anos!) escreveu-me censurando «O Gosma» e perguntando: «Sabem quem é? / Igual a muitos mais / Que bebem o café / E leem de borla os jornais./ Chamo-lhe Gosma. / No meu ponto de vista / Pois Gosma tem que ser / Julga que o jornalista / Não tem direito a comer./ O Gosma é sempre assim / E como ele, infelizmente / Há um número sem fim / De gente como esta gente.».

E acrescenta o remédio para a doença (alguns chamam-lhe pobreza, na realidade é mesquinhez): «Mas alguém é o culpado / Ao emprestar os jornais / Dizia NÃO! / E o tipo envergonhado / De certo não pedia mais.» Apesar dos gosmas, o JN continua a aniversariar. Parabéns.

©helderpacheco2017

 

O sim no Porto

•11/06/2017 • Comentários Desativados em O sim no Porto

Como não considero sentimento pátrio e auto-estima nacional exclusivos de Madame Le Pen e da extrema-direita, gostei bravamente que Portugal ganhasse a Eurovision SongContest. Já andava farto de ver e ouvir desafinados a hurrarem, mulheres com barba saracoteando e seres transgénicos berrando numa orgia de efeitos visuais que aumentaram o meu astigmatismo. E sobretudo porque a cantiga portuguesa significa o regresso da bonita expressão francesa «chanson». Sentimental e melódica.

Inspirado nisso, hoje escrevo uma crónica de devaneio. À moda do Porto. E para isso não há como Camilo para ajudar à missa, dizendo, a começar, «Que a felicidade é possível sobre a terra», para logo advertir dos riscos da paixão: «Deu-me um pontapé no coração! Matou-me aquela mulher.» E ainda no mesmo transe apaixonado: «O deus cupido fez dos olhos de vossemecê duas setas que trespassaram o meu coração.» E por aí fora, mas falta-me espaço.

Vêm estes lances literários a propósito do seguinte: telefonou-me uma jovem empresária de eventos nupciais pedindo que lhe indicasse quintas românticas no Burgo. E revelou-me algo que me levou às nuvens do orgulho bairrista: recebe dezenas de pedidos de estrangeiros que querem casar no Porto. Pelo prestígio. As imagens. O que dele diz quem cá veio e foi contar, etc. Quem?, perguntei, inchado de amor próprio. Para já, filhas de russos cheios de massa; muitos ingleses tradicionais e brasileiros / as de ascendência portuguesa (ou, surpresa!, italiana). Menos frequentes, aparecem australianos e alguns franceses.

Estão a ver a nova promoção internacional da cidade? Assim: «Seja romântico a sério, venha casar ao Porto.» E outro blog: «Porto, uma cidade casamenteira.» Razão tinha o Mestre, ao escrever: «Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre.»

©helderpacheco2017

Há mais Portos

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Há mais Portos

Jorge Sampaio lançou a frase «Há mais vida para além do défice!» Tinha razão. O problema é que o défice estragou a vida a muita gente que não teve culpa das más governações. A frase pode, todavia, adaptar-se à realidade portuense: «Há mais Porto para além da Ribeira.» Isto porque se ouvem vozes clamando contra o excesso de turismo. E de que qualquer dia há mais estrangeiros na Baixa do que portugueses. Etc. Mas a questão não se resume a excesso de turismo e à avalancha de visitantes.

A questão é que o Porto ainda não foi capaz de criar alternativas à excessiva centralidade da Baixa e do Centro Histórico. Uma por ser cosmopolita. O outro por ser Património da Humanidade. E no entanto há mais Portos.

Há outra cidade e seduções não promovidas nem valorizadas. E até desleixos e desprezos. Exemplos? O abandono do projecto da Porto 2001 nos «Caminhos do Romântico». A indiferença perante a potencialidade dos típicos caminhos, entre a Formiga, o Rego Lameiro e a Marginal. O desprezo do fantástico miradouro do Seminário, sobre a Ponte Maria Pia. O esquecimento da Arrábida com a sua vista esplendorosa sobre o estuário do Douro. As incomparáveis aldeias de Nevogilde e de Carreiras. A mais-valia de S. Pedro de Azevedo e dos seus rios (em Tirares, Lagarteiro, Pego Negro). O Monte dos Congregados. A atractividade do Monte da Musa chamado Fontinha. A Prelada e o seu parque. Os bairros de Miragaia e Massarelos, à espera da redenção. O Monte da Lapa e o seu moinho de vento. A beira-rio dos Guindais ao Esteiro. E poderia listar mais 20 ou 30 lugares que fariam a inveja de cidades das europas.

Não me digam que há excesso de turismo no Porto. Há é excesso de conformismo. E falta de imaginação para empreender noutros locais. E perceber que há mais fascínio para além da Ribeira.

©helderpacheco2017

Saber viver

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Saber viver

Não acho que ser pobre seja uma escola para a vida. Uma aprendizagem de carácter. E que, para enrijar o corpo (e a alma), seja, no primeiro caso, necessário levar porrada de criar bicho e, no segundo, passar dificuldades e comer o pão que o diabo amassou. Viver mal não é caminho para coisa nenhuma e, por isso, considero indigna a aceitação da normalidade de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza! Posto isto, obliquo noutra direcção.

Para dizer que, não obstante, em país onde (pelos vistos) a miséria bate às portas, se estragam recursos, se desperdiça comida e gasta, em inúmeras situações, o que não se tem. Como repontava o meu saudoso amigo Melo: «Quem só tem dinheiro para carapau não devia comer lagosta.» Há sítios onde, no final das refeições, causa repulsa ver o que sobrou. O que se deita fora. E há famílias (não tenho nada com a vida delas) onde os meninos são treinados não para viverem como cidadãos, mas para serem consumidores, esbanjadores ou predadores. A velha máxima dos tempos atrasados de que tudo o que se punha no prato era para comer foi para o caixote do lixo, com o desperdício. (Agora atenuado porque já há quem leve os restos.)

Vem esta arenga a propósito de uma carta que me facultaram. Escrita em 1946 (no pós-Guerra, anos desgraçados para muita gente) por uma avó ao neto, do Bairro das Eirinhas, lugar de pobres e remediados. Revela algo que está a faltar: comedimento e atitude. Se quiserem, princípios. Ou saber viver.

Advertia então a avó: «O Fernandinho fica prevenido de quando não puder ou quizer cá vir comer, avisar de véspera para evitar despesas inuteis. O mesmo fará, quando precisar de vir, para [eu] saber com que se deve contar. Lucia» A isto chamo eu educação. Mas estou a ficar reaccionário –  afinal vivemos numa época moderna!

©helderpacheco2017

Falando do Bonfim

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Falando do Bonfim

Por decreto de Costa Cabral (11.12.1841), seria criada a freguesia do Bonfim, com parcelas de Santo Ildefonso e Campanhã. Até então, as freguesias da cidade assentavam em paróquias estruturadas, o que não sucedia com esta e deu origem a que as más-línguas falassem de favorecimento do Governo às pretensões do Conde de Ferreira a tal efeito. Com ou sem cunhas, ali está.

E, não fora o preconceito de só contar como Património o Burgo velho e o Bonfim teria recursos apreciáveis: as pontes do Douro (como a Maria Pia), a Alameda das Fontainhas, o Prado do Repouso, a Biblioteca, a Igreja Matriz, o Museu Militar. O urbanismo da «pata de ganso» oitocentista construída em terrenos do Cirne. E muita da melhor arquitectura dos anos 20 e 30 do séc. XX. Da marginal do Douro às Antas, é um nunca mais acabar de categoria.

Mas o Bonfim também significa o território dos agires de certo bairrismo. Como o suscitado pela «estrada do pão», referência da Bonfinense Lourdes dos Anjos: «O carvoeiro trazia a carqueja e o carvão / Uma voz rouca fazia um pregão / Um rebanho subia a rua, / A sineta do eléctrico tocava, / E tornava a tocar / Uma janela abria-se devagar. / As soletas dos operários compunham o tom / O velho Fortinho, o engraixador / Dava brilho ao sapato do rico senhor. / O cauteleiro apregoava o número da sorte / De taxi, chegava a mulher de mau porte / No portal da ilha, estava a farrapeira, / Com papel e roupa velha que vendia, / Guardava o sabor amargo do pão que comia. / Uma cigana lia a sina na palma da mão. / Na esquina, o velho cego tocava acordeão. / Das mãos de minha mãe, a Adelaidinha, / Saíam os perfumes e os sabores / que pobres operários e ricos doutores / Iam procurar na sua cozinha. / Quando eu era menina, era assim, / que começava o dia, na Rua do Bonfim.»

©helderpacheco2017

Um Porto literário

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Um Porto literário

Uma das facetas da internacionalização das cidades é literária. O modo como impressionaram autores estrangeiros, levando-os a evocarem-nas nos seus idiomas e obras. E, nisso, o Porto tem tido cultivadores.

Desde o séc. XVIII existem dezenas de publicações (sobretudo inglesas) deste género. Tradição que se manteve durante o séc. XX, com os brasileiros Erico Veríssimo e Ribeiro Couto, o catalão Enrique Vila-Matas, os espanhóis Matilde Asensi e Ramón Ayerra, o italiano António Tabucchi, as inglesas Ann Bridges e Susan Lowndes, o saudoso François Richard, outro francês, Eric Audinet, a argentina Cristina Norton. E alguns mais.

Não admira. Na sua condição de cidade conflituando entre memória, afecto, tradição e modernidade, o Porto é um espaço literariamente motivador. Mas o mais intrigante é que dois autores que nunca cá estiveram o tenham incluído em versos de ressonância universal. Um é Walt Whitman, o maior poeta norte-americano, que nas suas “Folhas de Erva” escreveu: «Vejo as cidades da terra e ao acaso faço-me cidadão de uma ou outra, / Sou um verdadeiro Parisiense, / Sou um habitante de Viena, Petersburgo, Berlim, Constantinopla, / Sou de Adelaide, de Sidney, de Melbourne, / Sou de Londres, Manchester, Bristol, Edimburgo, Limerick, / Sou de Madrid, Cádiz, Barcelona, Oporto, Lyon, Bruxelas, Berna (…), Pouso sobre estas cidades, depois retomo o meu voo e afasto-me.»

E Nicolás Guillen, “Príncipe dos Poetas Cubanos”, na obra “La Paloma de Vuelo Popular”, escreveu: «Amo los bares y tabernas / junto al mar, / onde la gente charla e bebe / sólo por beber y charlar. (…) Búscame, hermano, y me hallarás / (En La Habana, en Oporto, en Jacmel, en Shanghai) / Con la sencilla gente (…)» Qual a razão da escolha ninguém sabe. Provavelmente pelo fascínio do nome.

©helderpacheco2017