A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

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•2019-11-24 • Comentários Desativados em

Entre Sentidos 001

A CASA DE GARRETT

•2019-11-24 • Comentários Desativados em A CASA DE GARRETT

O gazetilheiro Simões de Castro, espantado com o que via, escreveu: «Sinto-me besta, cavalo, / Estou camelo, estou burro; / Tenho a cabeça em xarope, (…).» E eu não queria acreditar na notícia do JN: «Câmara desiste de comprar casa de Almeida Garrett».

Fiquei abismado, não pela atitude da Câmara mas pelo facto do proprietário da casa pretender vendê-la, com as do lado, por «entre quatro e cinco milhões de euros» quando lhes atribuíam um milhão e meio. Conclusão: na casa de Garrett existe um poço de petróleo ou mina de ouro!

Garrett ali nasceu em 1799 e apesar de ter vivido mais em Gaia e na Boavista, o edifício constitui um marco, por ter sido berço do maior vulto da cultura portuguesa, fiel à cidade que honrou por todos os meios, sobretudo políticos. O Porto, que, nunca soube, em vida, retribuir-lhe essa fidelidade, teria agora a oportunidade de o fazer, criando um centro interpretativo da sua obra e da própria história do liberalismo.

A ingratidão portuense seria atenuada em 1856, quando o município descerrou na frontaria do imóvel uma excelente placa «mandada gravar» em sua memória. Face ao impasse criado sobre a casa, à qual até um incêndio aconteceu, a Câmara não pode aceitar aquelas exorbitâncias financeiras. E, esgotando as suas competências, deve exigir a sua reabilitação até ao mais ínfimo pormenor, recusando qualquer alteração arquitectónica. Incluindo a boa conservação do medalhão da fachada. Para o cúmulo da ambição financeira, a resposta só pode ser a absoluta exigência para o conjunto. Nem um prego a mais. Que o mercado funcione mas não assim.

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O AR DO PORTO

•2019-11-24 • Comentários Desativados em O AR DO PORTO

Um mito urbano que corria no Porto dizia que a Rua de Cedofeita era a mais poluída da cidade. E constituía um atentado à saúde pública, respirar naquele corredor por onde passavam centenas de autocarros e automóveis. Para aliviar, tornou-se em parte pedonal e nunca mais recuperou do esplendor de outrora.

O problema não é de agora ou do século vinte. É mais antigo. Nos finais de oitocentos chamavam «condições de salubridade» àquilo que tornaria o Porto cidade «cemiterial» ou «mortuária». Em 1894 o Dr. Arantes Pereira elaborou uma dissertação na Escola Médica sobre a “Análise do Ar” que o Burgo respirava e chegou a «desgraçadas conclusões» (sic).

Eram alarmantes. Bom ambiente só na Torre dos Clérigos, onde o número de bactérias por metro cúbico era de 330. Outro local «respirável»: as escadas da Igreja de Santo Ildefonso (1600). A partir daqui, a situação deteriorava-se. O Hospital de Maria Pia atingia 6600 bactérias, Campo da Regeneração 8000, Carlos Alberto 10000, Hospital do Carmo, 13320 e Rotunda da Boavista 14490! No pátio da Câmara a degradação alcançava 47706 bactérias/m3. Mas o local mais perigoso era o Hospital da Misericórdia, cuja média nas enfermarias batia o recorde: 77573 bactérias /m3. Neste estudo pioneiro e utilíssimo (se houvesse então sabedoria para o entender), até os cemitérios eram de temer: o Prado do Repouso (oásis de verdura) ficava-se por 3990 bactérias, enquanto Agramonte chegava às 8660. Embora longe de Nova Delhi, com padrões actuais de análise da «qualidade» do ar tripeiro, ainda gostava de saber o lugar da cidade no plano internacional.

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NATUREZA E PAISAGEM

•2019-11-24 • Comentários Desativados em NATUREZA E PAISAGEM

O Museu dos Jardins de Londres comemora os 200 anos da morte de Humphry Repton, criador do conceito de «Landscape design» (ou, digamos, «desenho da paisagem»). Tendo publicado, em 1816, o «Fragments on the Theory and Practice of Landscape Gardening», influenciou inúmeros jardins ingleses, passando aos E.U. através de Low Olmsted, co-autor do Central Park, de Nova York. E chegou ao Porto, pela via do Parque Ocidental, inspirado em alguns aspectos daquele.

O Parque da Cidade é milagre que o Porto deve à acção de alguns arquitectos, Presidentes de Câmara e Vereadores que souberam manter viva a utopia e nos legaram uma obra exemplar de «Landscape design». O Parque é o protótipo da paisagem construída. Sobre os sítios dos Bairros de Xangai e da Liberdade (os piores do Porto), campos de lavoura e pinhais, além da aldeia de Carreiras, foi projectado e desenhado levando a cabo um ambiente. Excluiu aquilo de que Repton não gostava, «os parques solitários» e transformou-se no que ele defendia: «ver a humanidade nos jardins». Porque o Parque da Cidade se converteu num sucesso que atrai multidões.

Mas a cidade possui outra oportunidade de construir paisagens urbanas para nosso encantamento: no Vale de Campanhã com o seu Parque Oriental. Nele pode surgir algo único: um ambiente de rios, aldeias (redesenhadas por arquitectura do nosso tempo, que as respeitem), caminhos campestres, florestas. Para sermos também herdeiros do legado de Sir Humphry Repton, um sonhador que convertia a natureza em quadros de uma exposição, perfeitos como paisagem concebida pelo talento humano.

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O QUE FAZER?

•2019-11-24 • Comentários Desativados em O QUE FAZER?

A “Voz Portucalense” noticiou a organização de um “Convénio Internacional” para debater o destino a dar às igrejas que deixem de estar afectas ao culto e a reutilização dos bens culturais da Igreja.

O problema é actual, pela drástica diminuição da população dos Centros Históricos, que detêm a maior parte desse património. E o Porto será atingido, já que no seu casco antigo e zonas envolventes, existem edifícios dessa categoria.

Sou defensor do Estado Laico. Mas não sou estúpido. Não ignoro a importância da igreja para o desenho urbano da cidade, a coesão das comunidades e a essência da personalidade tripeira.

Alguns crimes foram cometidos, como a destruição do Mosteiro de Monchique e sua igreja gótica. Dos Capuchos ficou o claustro. As igrejas dos Lóios e S. Domingos evaporaram-se. Esteve à venda a capela da S.ª da Lapa, na Cantareira. Sem ela, perde-se a memória social da colmeia piscatória. Lembrei à Câmara a sua aquisição. Debalde. A capela do Senhor dos Navegantes, em Sobreiras, é não sei o quê, e a imagem desapareceu (tal como a S.ª da Lapa).

Em York – onde existem dezenas de templos – observei que numa das suas igrejas góticas mais valiosas actua uma Companhia de Teatro. E em Maastricht, a livraria que consideram a mais bela do mundo (não viram a Lello) funciona noutra igreja gótica.

Diria duas coisas: 1.º Não fechem os edifícios desactivados. Nada mais pungente do que um templo encerrado. 2.º Encontrem para eles utilizações culturais ou sociais atractivas. Não os transformem em mausoléus ou museus medíocres. E desculpem a intromissão de um leigo neste assunto.

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Que viva a Serrana

•2019-10-25 • Comentários Desativados em Que viva a Serrana

A jornalista Mariana, que coscuvilha tudo, alarmou-me: «Apesar do “selo” de loja histórica a Serrana continua em risco.» O alarme funcionou por dois motivos. Um, gustativo: a Serrana fabrica as melhores Bolas de Berlim do Burgo.

O outro foi apontado pelo JN (19.1.15) em: «Um tesouro escondido na Rua do Loureiro». A Confeitaria Serrana, pela sua beleza, é a Lello da especialidade. Nem admira: em 1912, Alfredo Cunha requereu à Câmara a construção, no local, de luxuoso estabelecimento de ourivesaria. Projectado por Francisco Oliveira Ferreira misturava estilos, e os interiores foram decorados com esculturas de José Oliveira Ferreira e pinturas de Acácio Lino.

Mas Alfredo Cunha tinha outra visão: em 1914 requere à Câmara a instalação de nova ourivesaria, na Rua 31 de Janeiro. Seguiu-se a perda do esplendor da outra loja, de casa de fazendas a restaurante, com alterações ao nível térreo e na fachada. Felizmente o 1.º andar, sobreviveu. Em 1952 tornou-se confeitaria e continuou a degradar-se até que a Mónica, que a herdou do pai, resolveu restituir-lhe a dignidade. Recuperou o que era possível e transformou a Serrana em referência do comércio antigo renovado.

É, por isso, incompreensível que, em nome do cosmopolita ou do especulativo, não haja empreendedores com modernidade para entenderem que a categoria está em conciliar tradição e inovação. E renovarem a cidade sem traírem o seu carácter. O dinheiro só, não chega para fazer do Porto admirado cá dentro e lá fora. Que viva, pois, a Serrana em nome da qualidade comercial portuense (e da doçura das Bolas de Berlim).

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Despojos dos dias

•2019-10-25 • Comentários Desativados em Despojos dos dias

Acabei de rever um dos meus filmes favoritos: “Os Despojos do Dia”, de James Ivori, baseado no romance de Kazuo Ishiguro. É história intrigante e complicada de desencontros, preconceitos, desilusão e desistência (do amor, de ideais, de viver plenamente). Da tristeza e do sem-sentido. Do vazio.

Não sei o que um psicanalista diria do que o filme me trouxe à ideia! Nem paixões frustradas, nem vidas truncadas. Simplesmente o absurdo da destruição patética de um dos museus onde a cultura do povo – coisa parola! – havia adquirido dignidade. O seu real significado. Refiro-me ao Museu de Etnografia e História do Porto.

Não admira o gesto. Em matéria de tradição cultural os parâmetros do Terreiro do Paço eram os do SNI (que o Museu portuense nunca assumiu). Depois, como em delirium cosmopolita os ingleses fecharam o Museum of Mankind e os franceses o Musée de L’Homme, os abencerragens caseiros encerraram o de Arte Popular (sem o desmantelarem) e o do Porto (dissolvido e disseminado por pontos que ainda gostava de saber). E o que sucedeu à sua biblioteca magnífica? E onde pairam as centenas de peças deste excepcional repositório do que poderia ser – hoje, que faltam locais de excelência na cidade – a grande mostra da memória cultural da Área Metropolitana do Porto?

Mas o que mais me enoja é que enquanto este, nosso, se volatilizou, o da capital modernizado e reaberto, mantém actividades e iniciativas contínuas. Não que seja contra a sua existência, mas sim por o Porto ter ignorado o desprezo, esquecido e devastação a que foi submetido. De que nem os despojos se conhecem.

©helderpacheco2019