Novo livro – Porto Nos Dias do Meu Tempo

•07/10/2017 • 1 Comentário

CapaHP

Anúncios

Helder Pacheco: “Está tudo por fazer no Porto. Reabilitação urbana. Repovoamento. Novas linhas de metro. O Salgueiros voltar à Primeira Divisão.”

•27/12/2017 • Comentários Desativados em Helder Pacheco: “Está tudo por fazer no Porto. Reabilitação urbana. Repovoamento. Novas linhas de metro. O Salgueiros voltar à Primeira Divisão.”

image

Aos olhos de um dos maiores pensadores e documentadores da cidade, o futuro do Porto é um campo aberto e pode ser radioso. Jorge Lopes foi ao encontro de Helder Pacheco em Lordelo do Ouro. Marco Duarte captou-o entre papéis.

As crónicas reunidas no Porto nos Dias do Meu Tempo vão de 2014 a meados deste ano. Começam assombradas pela troika e seguem por uma, digamos, tentativa de reerguer dos escombros. Foi dos períodos mais conturbados que viu o Porto e o país atravessarem?

Do ponto de vista das pessoas, sim. Primeiro, porque eu próprio sentia na pele a questão da chamada austeridade. Depois, como ando muito de transportes públicos, ouvia as queixas das pessoas e apercebia-me das dificuldades. Além disso, tinha amigos que ficavam insolventes, amigos com graves problemas por causa dos filhos desempregados, etc. Do ponto de vista da cidade, a verdade é que assistimos ao início da reabilitação urbana, que já vinha de trás mas que nos últimos cinco, seis anos avançou contra a corrente dos acontecimentos. É das tais contradições: nem todas as crises são negativas para todos os sectores.

A cidade foi, durante um período, como que um amortecedor para o ambiente de crise?

É. E a verdade é que este boom começa a desenhar-se nesse período.

Com o correr dos acontecimentos, as crónicas vão reflectindo a mudança da paisagem desde 2014 até 2017.

Reflecte. A partir de certa sinto que as pessoas começam a viver melhor. E a respirar melhor. E a pensar melhor. E a serem mais optimistas. E começo a sentir isso nos autocarros.

O autocarro é o transporte púbico onde melhor se sente o pulsar de quem faz a cidade?

É, porque o metro é muito impessoal. O ambiente do metro é completamento diferente. Fala-se pouco no metro. Embora o meu sistema de transportes favorito, o que está mais afectivamente ligado aos portuenses, seja o eléctrico. Só que o eléctrico foi praticamente destruído na vida da cidade. As linhas que ficaram foram um verdadeiro milagre. Porque houve uma fase de “Abaixo o Eléctrico”, e toca a retirar as linhas das ruas. Não estou convencido que uma linha marginal, do Infante a Matosinhos, não fosse uma linha altamente operacional num eléctrico mais rápido (os tradicionais ficavam para o turismo).

Uma das frases mais optimistas do livro é a que se refere a “uma cidade a que os românticos chamavam eterna e agora desatou a mudar a galope”. Sugere uma ruptura no modo de funcionamento do Porto.

E está-se a assistir a isso. Eu sou um falso tradicionalista. Porque sou um defensor das tradições, mas não de todas. A tradição do homem bater na mulher não me interessa nada; o cuspir para o chão ou andar descalço. Há certas tradições que são para mandar para o caixote do lixo, mas há outras que fazem parte da nossa identidade. A identidade da cidade é a nossa identidade.

O que a fez desatar a mudar a galope?

Assistimos à desindustrialização da cidade, mas isso era inevitável. O mesmo aconteceu na Europa e nos Estados Unidos.

Com consequências bem mais dramáticas em alguns casos.

Muito mais. Estive em Manchester em 80 e era uma coisa assustadora. Fui a Newcastle depois disso, quando fecharam as minas de carvão, e não queira saber o ambiente daquilo. A desindustrialização também atinge duramente o Porto: há bairros inteiros, sobretudo em Campanhã, Bonfim, Lordelo, em que a desindustrialização dá origem a ruínas. Significativamente, na zona ocidental as ruínas foram ultrapassadas pelo imobiliário. Na zona oriental, o processo é muito mais lento.

A desindustrialização explica tudo?

Há também a descomercialização, a morte do comércio numa cidade fundamentalmente comercial e de comerciantes. Assistimos ao fecho de centenas de pequenos comércios. A hecatombe que afectou a Baixa atinge cinemas, cafés, restaurantes e muito pequeno comércio. Basta passar ainda hoje em 31 de Janeiro, que era uma rua esfusiante de animação comercial e de classe, e que se transformou numa ruína.

A recuperação nas zonas circundantes tarda a chegar a uma artéria tão emblemática como a 31 de Janeiro.

Está a ser difícil. Na minha opinião, as ruas muito declivosas são mais complicadas do que as ruas planas.

Havia, ou há, planos para instalar uma escada rolante…

Na altura votei contra. Hoje não sei. Fazia parte de uma espécie de conselho consultivo que o Dr. Fernando Gomes tinha na Câmara, que reunia periodicamente e onde ele apresentava projectos. O projecto da escada rolante em 31 de Janeiro que ele apresentou foi muito criticado e praticamente rejeitado. (Como, aliás, a demolição das Moagens Harmonia foi rejeitada noutra reunião – mas essa, acho que foi uma boa decisão.) Hoje, sei que em algumas cidades europeias foram colocadas escadas rolantes, designadamente em cidades italianas antigas, mas em percursos pequenos. O problema [de 31 de Janeiro] é que é muito longo.

Já estamos num tempo de pós-desindustrialização e pós-descomercialização.

Estamos a assistir em quase toda a parte ao surgimento de empresários, sobretudo jovens, que estão a cobrir a cidade com uma rede finíssima de novos comércios, de alimentação mas não só (até penso que a maioria não o será), que está a trazer um novo conceito – um comércio muito mais moderno, mais cosmopolita, mais internacionalizado até. Em muitos aspectos contribuindo para ressurgir velhos produtos, designadamente artesanato (prefiro chamar-lhe artes e ofícios tradicionais, mas pronto). Tenho a impressão que nunca se vendeu tanto artesanato como neste momento.

É um novo comércio criativo.

Extremamente criativo. Quer o produto que vende, quer a forma como a apresenta. E é um comércio que promove produtos portugueses. Só podemos ter uma visão optimista sobre o futuro da cidade – desde que certas questões sejam resolvidas.

E que, no que ao turismo diz respeito, não se deite fora o bebé juntamente com a água do banho.

Exactamente.

No novo livro também escreve que, “apesar de tudo, o país e a cidade ainda valem a pena”.

Acho que sim. Eu não troco esta cidade por nenhuma e este país por nenhum. Como leitor compulsivo do Eça de Queirós, do Ramalho e do Camilo, reservo-me o direito de criticar o que considero que deve ser criticado, e de amar aquilo que deve ser amado.

É notório que o que mais deseja para a cidade é o seu repovoamento.

Claramente. Há amigos que dizem que os subúrbios tinham forçosamente que crescer e as pessoas tinham que ir para lá, mas não estou convencido disso. O Plano Auzelle [de Robert Auzelle, arquitecto e urbanista francês, autor em 1962 do Plano Director da Cidade do Porto, em vigor até 1993], de que sou crítico, resultou em muitos sítios na elevação dos edifícios – basta ir ao Marquês e ver, num friso de casas do século XIX, algumas com quatro e cinco andares a mais. Mas ele previa, no ano 2000, meio milhão de habitantes para o Porto. Pode-se dizer que não era possível mas em 1983 o Porto tinha 330.000.

Estava bem encaminhado para os 500.000.

Ramalde cresceu: hoje vamos lá e aquilo que eram campos está urbanizado, e em muitos sítios bem urbanizado, com boa arquitectura. Paranhos cresceu. Aldoar cresceu: a gente vê Aldoar de avião e o que era campos e pinhais é cidade. Para mim, campos e pinhais não são cidade, são campos e pinhais. Aos campos e pinhais, na cidade, prefiro grandes parques urbanos.

O que é que correu mal?

Esvaziaram o centro histórico e as freguesias centrais, Cedofeita e Santo Ildefonso. A hecatombe foi aí. Se tivessem seguido políticas de habitação social diferentes… Quando a banca ocupa o centro da cidade, o que é que acontece? A expulsão de actividades económicas de proximidade e de habitantes. O que se passou na cidade, na minha opinião, é erros acumulados de gestão. É possível identificá-los um a um.

Erros de gestão que são também experiências de engenharia social mal sucedidas ou abandonadas a meio?

A engenharia financeira é que correu mal. Estavam a pensar [em destinar] a Baixa para o terciário e a habitação social para a periferia. Em 1974 é lançado um projecto notável que se chama SAAL. O que pretendiam? Pegar nos bairros populares, operários, ilhas, degradados, e reabilitá-los, como fizeram em três e quatro sítios, mantendo a população lá. Isto tinha salvo a cidade da implosão de habitantes para a periferia.

É um projecto que acabou precocemente.

Foi completamente torpedeado. Possivelmente tinha associações de moradores a mais metidas no assunto. Mas o SAAL era o projecto ideal para a reabilitação das ilhas. Mas a questão que coloco agora é: as ilhas eram consideradas insalubres, imorais, violentas, etc., têm que ser demolidas e as pessoas vão-se embora para novos bairros na periferia. Agora, muitas delas estão a ser reabilitadas para o turismo. Então como é? Servem para o turismo e não servem para a habitação social?

Tomando o turismo como um primeiro passo para o “repovoamento”, embora passageiro e sazonal, da Baixa, qual é o passo seguinte?

Sou a favor do funcionamento do mercado. Ponto final. O mercado é uma peça fundamental numa sociedade democrática. Mas acho que o mercado deve seguir regras muito precisas. O mercado deve funcionar na Baixa mas não completamente só mercado. Sou a favor da cidade inclusiva, em que pobres, ricos e assim-assim estão juntos, vivem na mesma rua. A cidade inclusiva é a grande tradição do Porto e foi destruída, criando-se guetos na periferia. A Baixa deve ter habitação de luxo, tudo bem, quem puder pagar que pague; habitação para classe média; e na medida do possível criar habitação social.

Ou seja, não deixar o mercado em roda livre.

Exactamente.

Repovoa-se a cidade com pessoas novas ou também resgatando quem dela tem saído para Gaia, Matosinhos, Maia?

Os velhos moradores não voltam; ainda é sorte se vierem os filhos. Até porque não têm capacidade para comprar no Porto uma casa equivalente à qualidade a que foram comprar fora. Provavelmente vão ter que ser novos moradores, e se calhar vão ter que ser estrangeiros. Isso não me preocupa: o mundo moderno é um mundo de intercomunicação. E miscigenação.

O dossiê da união de Gaia ao Porto parece ter-se perdido. Fazia sentido para si?

Para mim fazia. Se a História vale alguma coisa, e acho que vale, a verdade é que até 1834 Gaia, Santa Marinha e Mafamude faziam parte da cidade do Porto. É com a vitória liberal que Gaia ganha autonomia. Se a lei do ex-doutor Miguel Relvas (que agora já é doutor outra vez) uniu freguesias, porque razão as cidades não se podem unir? Por outro lado, a minha convicção é que se Gaia e Porto fizessem parte da mesma entidade administrativa, o planeamento urbano e de actividades económicas e sociais tinha sido muito mais coerente. Conheço bem a realidade das áreas metropolitanas da Grande Manchester e da Grande Londres e houve uma altura que me entusiasmou, porque as administrações mantinham as suas identidades e especificidade mas estavam juntas, faziam parte de um todo.

O poder central alguma vez permitirá um Grande Porto nesses termos?

O centralismo é um cancro que corrói este país. Um cancro demolidor e, em muitos aspectos, incompetente. Há um centralismo super-desvairado que nos tolhe. Sou ferozmente anti-centralista. A força política não vem sobretudo da conversa ideológica mas sim da força económica e financeira, e uma associação Porto-Gaia-Matosinhos seria uma forte presença económica, financeira, administrativa, política e cultural na vida do país. Que é o que o governo central não quer, mas que vai acontecer no futuro. É inevitável.

Quem foi o melhor presidente da Câmara que a cidade teve?

O melhor foi provavelmente Francisco Pinto Bessa. Foi o presidente que esteve mais tempo no poder no século XIX [1866-78], e foi um homem que teve a visão avançada para lançar a Rotunda da Boavista, a marginal da [Rua Nova da] Alfândega. Ele não tem dúvidas que é preciso ligar o centro ao rio, construindo [a Rua de] Mouzinho da Silveira. A sua acção impressionou-me muito: construiu dois mercados, um oriental, outro ocidental, o Bolhão e o Anjo. [Pausa] Até distinguiria mais câmaras do que presidentes.

Como assim?

As câmaras logo após a implantação da República foram extremamente ambiciosas e corajosas. Digo câmaras porque foi um período de sete, oito anos em que tivemos vários presidentes com vereadores notáveis: Elísio de Melo; o Eduardo Santos Silva, que faz uma verdadeira revolução social, criando escolas, cantinas. É o período em que se tenta lançar os primeiros bairros sociais municipais. E abre-se a Avenida [dos Aliados]: arrasar o Bairro do Laranjal para construir uma grande avenida e suas laterais exigiu uma grande coragem, até em termos financeiros. Nunca percebi que engenharia financeira eles arranjaram para fazer aquilo.

A era das grandes obras termina aí?

Há períodos em que aparentemente a cidade estagnou mas, no entanto, há obras que são feitas. Veja-se o milagre que foi o Parque da Cidade aparecer. Como foi possível, com todos os apetites, sobretudo imobiliários, que havia para aquele espaço fantástico (chegou-se a pensar para lá a Exponor, um estádio de futebol, etc.)? [O projecto] atravessou vários ciclos municipais quer antes, quer depois do 25 de Abril, mas a verdade é que o Parque está lá.

Quais são os grandes desafios para a cidade neste momento?

Primeiro: controlar positivamente o turismo. Durante 12 anos fiz parte, com muito orgulho, do Conselho Consultivo da Sociedade de Reabilitação Urbana [SRU], onde estava, excluindo-me a mim, uma verdadeira elite intelectual e não só. A SRU previa, para 2015, três milhões de visitantes. Para 2015. Creio que ainda não chegamos aos três milhões. Só começo a preocupar-me seriamente quando o Porto receber seis milhões ou sete. Fui a Brugges, a expensas minhas, porque tinha curiosidade em saber como é que uma cidade do tamanho de Viana do Castelo recebe sete milhões. Gosto muito do Canadá, e fui com a minha mulher a Quebec City, a única cidade Património Mundial na América do Norte, que recebe oito milhões de visitantes.

Bastante longe dos números do Porto.

Não há turismo a mais, o que há é Porto a menos. Porque está tudo superconcentrado na Baixa e na Ribeira. Temos a Foz, temos Campanhã. Eu sou portista, mas não é preciso sê-lo para se ver que o Museu FC Porto tornou-se o primeiro de um clube de futebol a tornar-se membro de uma agência da ONU para o turismo. Já recebe 40% de estrangeiros. Não percebo como é que nunca se vê turistas na [igreja da ] Lapa quando lá tem o coração de D. Pedro IV. O rei Carlos Alberto, que ainda tem uma grande aceitação entre os italianos, viveu no Museu Romântico; ele é promovido em Itália? Há um Museu da Farmácia lindíssimo em Ramalde; nunca vi lá um estrangeiro. Era possível fazer uma espécie de eco-parque no Parque Oriental, com aquela paisagem do Vale de Campanhã, as quintas, etc.; em Azevedo temos tudo: a igreja, a aldeia, os moinhos, as pontes.

Há muito por fazer no Porto?

Está tudo por fazer. Reabilitação urbana. Repovoamento. Novas linhas de metro. O Salgueiros voltar à primeira divisão [risos].

* Uma versão mais resumida desta entrevista foi originalmente publicada em Dezembro de 2017 na edição impressa da Time Out Porto

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

O que fez

Nasceu na freguesia da Vitória em 1937, num dia que muito lhe agrada (31 de Janeiro). Deu aulas no ensino secundário, conheceu e estudou cidades mundo afora, publicou dezenas de obras sobre história e património, sobretudo do Porto.

O que faz

Lecciona a disciplina de História Social e Cultural do Porto e Literatura do Porto no Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes. Escreve crónicas para o Jornal de Notícias há quase 30 anos – os textos publicados entre 2014 e meados de 2017 foram recentemente compilados em Porto nos Dias do Meu Tempo.

O que vai fazer

Prepara livros para edição em 2018 e 2019. O primeiro compilará textos vários, das tabernas à reabilitação do arroz doce. Para 2019 prevê sair O Porto das Pequenas Coisas (“uma fechadura, uma porta, uma janela”), assente em fotografias.

In Time Out Porto – Dezembro 2017

“A minha ligação ao Porto é feita de pequenas coisas, actos sublimes de felicidade”

•11/12/2017 • Comentários Desativados em “A minha ligação ao Porto é feita de pequenas coisas, actos sublimes de felicidade”

Escreveu mais de 40 livros, quase todos sobre o Porto. É historiador, professor, cronista. Aos 80 anos, acaba de publicar mais um livro — e já está a trabalhar nos próximos. Uma viagem no tempo, pelo Porto e pelo país, com memórias, reparos e elogios.

A rua mudou de nome e quase tudo o resto mudou também. No número 98 da Rua do Correio — ou Conde de Vizela, como a modernidade a baptizou — instalou-se um strip club no rés-do-chão e o abandono no restante edifício. Há 80 anos, nasceu ali Helder Pacheco. “Isto é uma metáfora da evolução do Porto”, comenta num sorriso mesclado de paródia e tristeza: “Se a minha mãe e a minha avó vissem  isto…”

Helder Pacheco escreveu o primeiro livro sobre o Porto em 1984 — uma obra de capa azul que inaugurou a cidade como tema de livro e foi um marco para muita gente. É escritor, historiador e professor. Garante não ser saudosista, ainda que ouvi-lo seja quase sempre uma viagem nostálgica. Sabe que muito do que foi não voltará a ser. Mas prefere o Porto de hoje àquele onde tudo faltava. Abraça o progresso e o turismo. Mas teme a falta de memória. É pai e avô. Homem de hábitos, leitor compulsivo, amante de música e arte. Por uma única vez esteve perto de trocar o Porto por Lisboa. Nada tem contra a capital, entenda-se, mas contra o centralismo sim.

À boleia do lançamento de Porto: nos Dias do Meu Tempo (ed. Afrontamento), uma compilação de crónicas publicadas no Jornal de Notícias, subimos ao oitavo piso do seu prédio com vistas para o mar onde vive com Maria José, a mulher e companheira de todos os momentos. Serviu-se café, fez-se conversa longa antes e depois de ligar o gravador. Pelo meio, duas horas e meia de entrevista. A infância que o tornou amante do Porto, as lembranças pueris, política, religião e futebol. Os amigos que já não voltam e lhe levaram parte da alegria de viver. E os planos, que ainda são muitos. Agora, e depois de ter colocado um “coração biónico” com o qual se tem dado muito bem, teme apenas que o tempo não chegue para fazer tudo o que gostaria.

Marcámos esta entrevista para uma sexta-feira porque era o seu único dia livre durante a semana. Aos 80 anos, muitos esperariam que tivesse uma vida menos agitada. Mas acaba de lançar mais um livro. Ainda sabe quantos são?
São 44 ou 45. Também já lhes perdi a conta. [risos]

Essa vida calma não lhe faz falta?
Não, porque sigo o lema do meu amigo padre Almiro, que diz que vale mais a gente gastar-se do que enferrujar-se. Por outro lado, tenho muitas solicitações para escrever, participar em colóquios, fazer conferências. Dou aulas. Escrevo uma crónica semanal para o Jornal de Notícias. Tenho o compromisso com a cidade de a estudar e defender. A minha maneira de o fazer é escrever sobre ela. Isso é o desígnio da minha vida. É evidente que às vezes sinto-me muito cansado. Há dias em que chego a casa à noite, sento-me no sofá e adormeço. Mas sinto-me bem. Enquanto tiver resistência.

Vai continuar.
Vou continuar. Por outro lado, a ideia inefável de que um indivíduo se aposenta e não faz mais nada nem precisa porque a reforma dá para a sua auto-sustentação não corresponde à realidade. No período mais agudo da crise troikiana, tive de ajudar algumas pessoas próximas. Esta actividade é também uma forma de compensar aquilo que nos foi subtraído.

É professor, escritor, historiador. Como é que gosta mais de se ver?
Sempre gostei muito de ajudar as pessoas. Para um republicano, o bem comum é um valor absoluto. E ajudar os outros faz-se sobretudo pela acção docente. Pela defesa da qualificação das pessoas. Aparecem cá em casa muitos alunos de escolas secundárias e faculdades, E pessoas anónimas, que me pedem informações sobre o Porto. Penso que o Germano [Silva] deverá ter o mesmo problema: a quantidade de pessoas que nos pede informação. Estou sempre pronto para isso.

Nasceu a 31 de Janeiro de 1937 e nesse dia o seu avô Eduardo foi preso em plena Praça da Liberdade.
Isso é quase uma anedota. Porque o meu avô era um entranhado monárquico. O 31 de Janeiro era feriado até a ditadura acabar com isso e havia manifestações na Praça. De oposição à ditadura. O meu pai sempre disse que tinha ido para o futebol. Mas suspeito de que estivesse na manifestação e não o tenha dito para não exaltar os ânimos lá em casa, que já eram quase sempre quentes por questões políticas. O meu avô saiu a meio da tarde e foi para o café Suíço. Ia a atravessar a placa central da Praça, onde havia uma multidão, e viu vários indivíduos a bater forte e feio noutro que estava no chão. Ele era muito corajoso. Então, ao ver aquilo, chegou à beira deles e começou a bater-lhes e a dizer “seus grandes malandros, sete galfarros a bater num desgraçado”. Os tipos eram da PIDE. Foi dentro. Quando o meu pai chegou a casa e lhe contaram, ele foi vê-lo à PIDE. Ao entrar, viu nas escadas um letreiro que dizia “vir aqui pedir por um preso é duvidar do carácter desta polícia”. De maneira que ele voltou para trás [risos]. Depois, com a ajuda de um amigo que era do regime, lá convenceram a polícia de que tinha sido um engano.609192

Na Rua do Correio, onde nasceu, que hoje se chama Conde de Vizela

Dizia que essa gestão familiar não era fácil.
As discussões entre o meu pai e o meu avô agudizaram-se, sobretudo no fim da Guerra, em que havia a convicção de que o regime ia cair e que os Aliados vitoriosos não iriam consentir a continuidade de uma ditadura em Portugal. Foi uma ilusão idealista dos republicanos. Portanto, no fim da Guerra, houve uma discussão terrível lá em casa. Lembro-me perfeitamente. Foi à mesa, tenho a impressão de que a um domingo. Atingiu um nível quase de agressão física entre eles. A dada altura, o meu avô disse: “Estou a ver que estou a mais nesta casa.” Saiu e nunca mais voltou.

Apesar dessa desavença, não foi prejudicado por isso. Passava os sábados com o seu avô, os domingos com o seu pai.
O meu avô era superconservador e rígido, mas foi uma figura excepcional. Mandou dizer à minha mãe que gostava muito de sair comigo todas as semanas. Então, ia-me buscar e fazíamos passeios pelo Porto, de eléctrico sobretudo.

609193

Com os pais, aos dez anos

Quais foram os passeios que mais o marcaram?
Os da Foz. Íamos ao Chalet do Carneiro, a um pavilhão muito bonito que havia na Avenida Montevideu. Bebia mazagran e groselhas. E muitas vezes ia a Leixões, merendar ao Bem Arranjadinho, numa Leça que ainda era bonita. Comiam-se uns queques muito bons. E visitávamos os navios na doca de Leixões. Pelava-me para ir lá com o meu avô. Este ritual aconteceu durante alguns anos.

E com o seu pai?
Com o meu pai era diferente. Ele era muito pragmático e desportista. Jogou hóquei, râguebi, foi ciclista amador, remador e timoneiro. Esteve no Académico muitos anos a jogar hóquei em campo e no Fluvial até muito tarde. Quando morreu, quis ser sepultado com a bandeira do Fluvial. Íamos aos jogos de hóquei ao Palácio. Ver boxe, também no Palácio e no Parque das Camélias. A cidade era tão habitada que aquilo enchia. Lembro-me de ir ver basquetebol no campo do Porto, que era na Avenida dos Aliados. E futebol, na Constituição e depois no Estádio do Lima. Também íamos aos comícios. Foi-me deixando a semente de um certo republicanismo. O meu pai achava que os políticos deviam andar muito de eléctrico, para ouvir o povo. E que quando iniciavam a sua vida pública tinham de fazer uma declaração daquilo que tinham: quando saíssem poderiam ter um pouco menos, nunca mais. Pouco tempo antes de morrer, estava aqui em casa e, perante algo que se estava a passar na política portuguesa, teve esta frase, de um homem profundamente desiludido: “Não foi por isto que andámos a lutar e tudo isto me mete nojo.”

609194

Na Escola Primária das Palhinhas (Helder Pacheco é o terceiro a contar da direita, sentado no chão)

Num artigo que escreveu no Expresso em 1986, conta que na sua “passagem a homem, ao entrar na escola, tinha seis ou sete anos”, o seu avô o levou a conhecer Lisboa. Que primeira impressão lhe causou a capital?
Lisboa foi uma revelação. Era uma cidade encantadora. À escala humana. Fui fazer com o meu avô o circuito clássico: a Feira Popular, que não tínhamos no Porto, os Jerónimos, Estoril, Sintra. Era uma cidade amável, não de caixotes, tecnocratas ou bancos. Mais tarde, voltei lá com o meu pai e lembro-me de que, em relação ao Porto, a diferença era sobretudo a quantidade de automóveis em circulação. Já no pós-25 de Abril, parei muito em Lisboa quando estive no ministério [a dirigir projectos de investigação ligados ao património cultural] e a cidade já estava a desumanizar-se.

Foi também em miúdo, pelos oito anos, que se apaixonou pelo Futebol Clube do Porto. Foi a cidade que o fez ser portista ou ser portista que o fez amar mais a cidade?
Foi a cidade que me fez ser portista.

609195

O FCPorto é uma das paixões de Helder Pacheco, adoptada pelo neto

Não foi por influências familiares. Sei que não gosta muito de falar sobre isso.
Não gosto, não [risos]. Sobretudo de um homem tão sério e republicano. O meu pai era benfiquista, mesmo sendo um intransigente defensor da cidade. É a demonstração de que o mundo não é perfeito. Ele não era portuense, veio do Douro em miúdo. Fazia parte de um grupo de taineiros chamado Profiláticos, onde a maioria era benfiquista. Mas é engraçado: como o meu avô nunca teve um gesto de me influenciar politicamente para ser monárquico, também o meu pai nunca tentou que fosse benfiquista. Pelo contrário. Muitas vezes até me trazia informações do clube e da cidade. Foi um informador meu privilegiado. Tinha uma memória fabulosa e assistiu a muito do que aqui se passou nos anos 30, esteve no 3 de Fevereiro de 1927, a última revolução romântica do Porto.

Mas então o que é que o fez ser portista?
Se calhar, o Fernando Moreira. É uma fase de grande hegemonia do Porto no ciclismo e achava que eles eram uns verdadeiros heróis. Era um desporto muito popular. As pessoas deliravam com a Volta a Portugal. Na escola trauteávamos no recreio uma cantiga que era assim: “Fernando Jorge Moreira/ campeão nacional/ venceu pela vez primeira/ a Volta a Portugal.” Nessa altura havia as 24 horas à americana no estádio do Lima, em que se corria durante um dia inteiro. Levávamos lanche, dormíamos lá. Há também o Araújo, um famoso jogador do Porto, que estava no jogo em que o Arsenal veio cá e perdeu. Por outro lado, tinha muitos amigos que eram portistas. Isto enraizou-se. Na altura do 25 de Abril, estive menos ligado. A minha geração andava muito empenhada em tentar mudar o país. Com a democracia, infelizmente, o centralismo aumentou. E aí o sentimento deu lugar à convicção de que a cidade tinha de ter um clube que a ajudasse a afirmar-se. Intelectualizei muito a ideia de que a descentralização do país e a defesa dos interesses do Porto e da regionalização também passavam pelo Futebol Clube do Porto. Aliei uma visão política da importância de um clube na cidade com um sentimento…

Um sentimento inexplicável?
É pouco inexplicável. Tenho dificuldade em ver muitos jogos do Porto. Tenho sempre receio de que perca. Às vezes estou a ver e sinto-me muito inquieto, com as mãos frias, extremamente nervoso. Muitas vezes saio e não vejo.

Ainda vai ao estádio?
Não tenho ido porque tive um problema de saúde e o estádio tem muitas escadas. É preciso andar muito para chegar ao sítio onde ficava.

Nos últimos anos em que ia ainda levava o seu livrinho de apontamentos?
Menos. Durante alguns anos fui ao futebol com um grande amigo, o Jorge de Melo, nas Antas. As Antas eram outra coisa. Havia um espírito de comunicação, êxtase, entusiasmo. Estávamos ali apertados, de pé. Esse meu amigo tinha a mania de ir para trás das balizas porque dizia que ali até sentia o cheiro do golo. Havia mais bocas nas Antas, mais asneiras, mais emoção. Até arranjei uma indumentária plástica, parecia que ia metido num preservativo. O Dragão é muito melhor. Mas é mais espectáculo. O futebol hoje é quase como quem está na ópera. Já tive vontade de ir para os Super Dragões. Aí tiraria muitas notas…

1183437

No estádio das Antas com Júlio Couto

Continua a andar de caderninho e máquina fotográfica no dia-a-dia.
Continuo. E ando muito de autocarro. O meu pai tinha razão nisso: é nos transportes públicos que se conhecem as pessoas. Escrevo muito a partir do que ouço.

Falava há pouco de como passeava com o seu pai e avô. Foi aí que ganhou o gosto pela rua, pelas histórias?
O meu desejo de explorar a realidade veio do meu pai. Mas o amor pelo Porto veio da minha mãe. Ela era muito mais sentimentalmente portuense. Uma mulher de São Nicolau, muito comedida, com um amor profundo pelo Porto. Sem querer, ela incutiu-me muito mais o sentimento de pertença à cidade do que o meu pai. Sabia muitas canções de miúda, lembrava-se de peças de teatro que tinha interpretado na escola primária, tinha memórias do Natal, do Carnaval, das tradições. Ela era muito religiosa, mas não beata. Havia uma coisa muito interessante que tem a ver com a tolerância que me foi incutida. O meu pai, como republicano, era ateu. A minha mãe, muito católica. Recordo-me de o meu pai às vezes me dizer: “Esta semana não estou disponível porque tenho de levar a tua mãe a Fátima.” Ele levava-a e ficava à espera no carro com jornais.

E o professor, é católico?
Procuro manter um pensamento autónomo com dificuldade de adaptação aos dogmas religiosos. Por ADN materno e paterno, respeito escrupulosamente as opções dos outros. Durante anos, mantive um diálogo intenso sobre religião e fé com o doutor Leonardo Coimbra, religioso convicto, com quem trabalhei no Centro de Recuperação de Crianças Deficientes. Ia lá voluntariamente uma vez por semana. Criámos ateliers de expressão plástica e de escrita, oficinas de tapeçaria, tecelagem, carpintaria, música. E o jornal Fala Barato. Quem gostava muito desse jornal era o Manuel António Pina.

Começou os estudos nas Belas-Artes.
Havia uma certa tradição familiar nisso. Gostaria de ter sido pianista de jazz, tenho um excelente ouvido. Ainda hoje não posso trabalhar sem música. Sou muito melómano e muito jazzístico. Cresci a ouvir o Frank Sinatra e os grandes vultos da música americana. Tinha também algum jeito para o desenho. E para escrever. O meu primeiro artigo sobre o Porto foi escrito aos sete ou oito anos. Era assim: “Chega o viajante ao alto de Santo Ovídeo e vê a cascata que é o Porto.” Quando percebi que Belas-Artes não me completava, fui pelo caminho da educação, primeiro, e da história, depois. Hoje tenho dúvidas se fiz bem ou mal. A minha vida teria sido diferente. Provavelmente teria mais dinheiro, mas não me teria dedicado ao Porto.

Foi no centro de Leonardo Coimbra que escreveu o seu primeiro estudo na área da educação — um trabalho que o conduziu à equipa de reforma educativa promovida pelo I Governo Provisório.
Era um programa de recuperação pedagógica de crianças com deficiência. Já tinha trabalhado com o ministério do professor Veiga Simão antes do 25 de Abril. Tinha estado ligado à formação de professores. Em 73 fui para um seminário na Irlanda do Norte. Eles defendiam que as escolas deviam poder administrar o seu currículo, além das orientações nacionais. Nessa altura, tive um convite para ir viver para Lisboa. Cheguei a arrendar uma casa em Linda-a-Velha. Na viagem de regresso, comecei a pensar naquilo. Já tinha começado a desfazer a casa no Porto. Então pensei: “O que é que vou fazer para Lisboa? Devo estar maluco!” A minha mulher vinha comigo e disse-lhe: “Já pensaste o que é mudarmo-nos para Lisboa?” Isto tem uma explicação lógica: o poder é apetecível. E quando se tem 30 anos agrada-nos. Cheguei a casa e a primeira coisa que fiz foi telefonar a esses colegas que me tinham convidado para lhes dizer para não contarem comigo.

Foi a única vez que esteve perto de se mudar para Lisboa.
Foi a única vez. O poder corrompe [risos].

Onde estava no 25 de Abril?
Em Lisboa, a fazer formação de professores. O ministério já estava a organizar novos programas que estavam na calha. Estava em casa de um colega, inspector do ensino, e ele veio chamar-me. “Está a haver uma revolução. O que fazemos?” Fomos para a Baixa ver. No dia 27 voltei ao Porto.

Em que espectro político estava na altura?
Pela influência do meu pai, estava sempre a desejar que acontecesse o que aconteceu. Discutíamos muito isso cá em casa. Mas não tinha nenhumas ligações. A minha perspectiva era de que o país tinha de ser mudado.

Como se define politicamente?
Sou um republicano laico que, com naturalidade, e talvez com o envelhecimento, se tem tornado cada vez mais rebelde e dificilmente compaginável com as estruturas políticas. Não tendo nada contra elas, excepto quando se sobrepõem tácticas e estratégias ao interesse do país. Há uma frase do Kennedy que define muito o meu estado de espírito: “Sou um idealista sem ilusões nenhumas.” A democracia é o melhor sistema. O país está melhor, não há dúvida, mas o que se passou recentemente com os incêndios faz-nos pensar e desilude-nos. De qualquer forma, continuo a trabalhar todos os dias para tentar mudar isto.

Vota sempre?
Sempre. Nunca me hei-de esquecer de que essa foi a nossa grande conquista. Sou um defensor acérrimo do Estado social. A política sem dimensão social não vale nada.

Porque é que nunca se envolveu activamente na política? 
A partir de certa altura tornei-me muito independente. Sempre tive um grande sentido de justiça e independência. E a política partidária não dá espaço para isso. Aquilo que mais gosto de fazer é elogiar, tenho muita pena de não poder elogiar mais. Sempre acreditei na pedagogia do elogio. Mas também é preciso censurar asperamente aquilo que está mal. Não sei se a actividade política era compatível com isto. Sinto-me bem assim afastado.

Como vê o actual momento da cidade?
Quando o Rui Moreira ganhou as últimas eleições, mandei-lhe um sms a dizer que ele tinha ganho, provavelmente, por uma frase que disse no último debate televisivo que fez. Dizia que preferia ver o Porto enfrentar os problemas do excesso do que enfrentar, como há dez anos, os problemas da miséria, da degradação urbanística. Não tem comparação o Porto actual com o de há dez ou 20 anos. A cidade mudou e em muitos aspectos para melhor. Quando se faz a crítica para o excesso, que o turismo está a roubar gente e casas, acho muita graça. Porque há 20 anos já denunciava as políticas da câmara para a habitação social, a expulsão de centenas de pessoas para a periferia ou para fora da cidade. A grande tragédia do Porto foi esvaziar-se e, em muitos aspectos, cair na inacção e na auto-implosão. Sempre defendi que a habitação social devia ser feita a partir do centro histórico e do centro da cidade. E não em Campanhã, em Lordelo ou Aldoar. Independentemente de se construir também nessas freguesias para novos residentes.

Que Porto gostaria de ter hoje?
Uma grande cidade de ciência, investigação e inovação no ramo universitário. O turismo é a única possibilidade que temos para criar emprego imediatamente. O Porto pode ser uma cidade altamente turística se souber conciliar cultura, ciência e tecnologia. E sobretudo uma visão social que respeite as pessoas. O que falta fazer? Repovoar. O grande desígnio é reabilitar, promovê-la internacionalmente, atrair moradores, impedir a continuação da sangria. A terciarização da Baixa foi uma tragédia. Acabaram com os cinemas, os cafés, o comércio.

Estamos a acordar tarde?
Estamos a acordar tarde para o que aconteceu há 30 ou 40 anos. Estamos a tempo de uma nova política para o comércio. Se não fosse essa miserável política chamada “troikização do país”, o Porto estava a aproximar-se de ser uma cidade de classe média. Não é possível voltar atrás: quem foi expulso foi expulso. Mas podemos atenuar os problemas.

O centralismo teve também influência naquilo que foi a evolução do Porto?
É um problema demasiado profundo para a nossa política, que é de curto prazo, do imediatismo. Teria sido possível fazer de outra maneira. Nunca me canso de falar do SAAL [Serviço de Apoio Ambulatório Local, um projecto arquitectónico e político criado poucos meses depois do 25 de Abril]. Mas o Porto não pode viver no passado. É preciso olhar para o futuro.

Não é nada saudosista, apesar de os seus textos serem muitas vezes nostálgicos.
Sou um falso saudosista. O passado passou. Não podemos concertá-lo. Mas o presente sim. Sou obcecado por viver o melhor presente possível. Mas no Porto foram cometidos muitos erros. Demasiados. A Avenida da Ponte [junto à Sé] é um cancro aberto no coração do Porto, no meu, no do meu pai. A Via de Cintura Interna, outro. Há freguesias, como Campanhã e Paranhos, que foram completamente cortadas. Mas ainda pode remediar-se. Vou fazer-lhe uma confidência: tenho grandes amigos em Lisboa. Uma coisa é o povo de Lisboa e aquilo que ele suporta também, outra é o Terreiro do Paço [símbolo histórico do poder político]. O povo de Lisboa merece-me o maior respeito, ainda que seja benfiquista [risos].

Esta eterna batalha entre Norte e Sul continua a fazer sentido hoje em dia?
O Porto foi explorado e secundarizado durante muito tempo. Enquanto não for ressarcido dos seus direitos, faz sentido. O centralismo ataca e corrompe o país desde a monarquia. Atravessou parte de um regime liberal, a República, o Estado Novo. E continuou com a democracia. Não descentralizámos o país. Se me perguntar se prefiro a regionalização já ou uma honesta descentralização, prefiro a segunda. O país continua a ser ferozmente centralizado. Tivemos agora [com os incêndios] uma trágica experiência do que é a centralização. O que se passa com a desertificação do interior é uma vergonha nacional.

Diz que a cidade é como um grande amor: ama-se sem perder tempo a justificar o porquê. Gostaria que tentasse explicar.
Escrevi outra que é mais terra-a-terra e nada poética: gosto do Porto mesmo quando cheira mal e está poluído. Este amor não é assim tão inexplicável… Para a minha mãe, era. Tinha a cultura possível para uma pequena burguesa. O meu amor ao Porto é o amor da infância. O Raul Brandão dizia que aquilo que aprendemos de belo, grandioso e sublime acontece na infância. Depois não aprendemos nada que preste. E a minha infância é muito portuense e muito feliz. Sendo profundamente infeliz do ponto de vista físico, porque tive uma tuberculose entre os oito e os dez anos. Fiz sessões intensivas de raios ultravioletas no Hospital do Carmo. Isso atenuou as dores e fez-me um leitor compulsivo. Ficava horas no hospital e lia sob aquela luz etérea azulada. Depois fiz recuperação a nadar no Douro com o meu pai. Sou anterior à fisioterapia [risos].

Passado uns anos, aquilo que retemos é a felicidade. O nosso computador, chamado “memória”, é fantástico. Limpa o que nos magoa e deixa a recordação do que é bom. O que memorizei foi uma cidade cheia de coisas encantadoras. As relações de vizinhança, os amigos, as tradições do São João, o Natal, as Janeiras, as cascatas, as corridas de carros. É um sentimento de pertença a um território de gente. Um bairrismo.

O que é que lhe faz falta no Porto de hoje?
É não sentir a cidade habitada nos sítios que conheci com gente. Aquilo que mais me repugna e agride foi a expulsão de milhares de pessoas de sítios que conheci cheios de gente. Sinto falta desses portuenses. Não estrangeiros. Não tenho nada contra a vinda de estrangeiros. Aliás, no prefácio deste novo livro, digo que se fosse presidente da câmara punha um anúncio em jornais de todo o mundo a dizer “venham viver para o Porto”. Se isso trouxer 50 mil novos habitantes, tanto melhor. O idealismo é pensar que é possível recuperar o Porto, a falta de ilusões é saber que muitos amigos meus portuenses já não voltam à cidade. A minha mãe tinha um azulejo na entrada da porta que dizia “a minha casa é o meu mundo”. Para reabilitar a cidade, é preciso conquistar os jovens. E sinto falta de um comércio interessante nesses sítios que foram desabitados. Noutro dia inventei uma frase. Alguém me perguntava se havia excesso de turismo no Porto e eu disse: “O que há é falta de Porto, não excesso de turismo.” Porque vou à Lapa e não vejo turistas, vou a Campanhã e não vejo turistas, Ramalde igual. O turismo está concentrado. O que falta é mais cidade.

609196

Com o Duque da Ribeira, barqueiro e figura carismática do Porto

O que é que ainda lhe falta escrever?
Falta-me publicar dois grandes projectos e temo não ter tempo para o fazer. Um é o Carnaval no Porto. Tenho a investigação muito avançada, mas preciso de dois ou três anos para o terminar. Outro é o livro das pequenas festas, para lá do São João. Chegou a haver 100, agora haverá umas 15. Isto é a minha maneira de servir o Porto. O político português que mais admiro é o Sá da Bandeira. Quando morreu, exigiu que no epitáfio dele escrevessem: “Servindo o meu país, servi as minhas convicções, morro satisfeito, o país nada me deve.” Adapto isto ao Porto: servindo a minha cidade, servi as minhas convicções, a cidade nada me deve. Foi o Porto que fez com que pudesse ser feliz nesta vida. Gostava muito de conseguir escrever mais estes dois livros antes de me ir embora.

Pensa muito na morte?
Durante muito tempo não pensava nela. Andava sempre ocupado e contente com outras coisas. Agora começo a pensar porque muitos dos meus amigos estão-se a ir. Nos últimos anos, perdi alguns dos meus grandes amigos. O Miguel Veiga, o Jorge de Melo, o José Rodrigues, a Luísa Dacosta, o Emílio Peres, o Jaime Rebelo, o António Rebordão Navarro… Quando um tipo tem 30 ou 40 anos, não pensa nisso. É eterno. Agora sinto falta de tempo. Sinto muito tempo para trás e falta de tempo para a frente. É por isso que tenho uma certa pressa em fazer algumas coisas. Há um poema do Torga em que ele diz que a vida é feita de nadas. É uma sabedoria que só o envelhecimento nos traz. A sensação de que não são as coisas grandes que mudam a nossa vida. A minha ligação ao Porto é feita dessas pequenas coisas, actos sublimes de felicidade.

Por exemplo?
Por exemplo, a minha filha ter-me ligado há pouco a dizer que vem cá jantar com a minha neta. Ou ir ao cinema. Lembro-me perfeitamente da tarde em que, ainda miúdo, fui com o meu irmão ao Coliseu ver O Facho e Flecha, um filme de cowboys e índios. Ainda hoje me recordo de como me senti contente. Por causa deste sentimento, comecei a juntar imagens de pequenas coisas do Porto, fotografias minhas, que podem dar um livro. Mas eu ainda sou fiel aos diapositivos, tenho uns 10 mil, e escrevo à mão. É um problema técnico. Também me falta escrever o texto para esse livro. O problema disto é que pelo meio apetece-me fazer outras coisas. E como só faço o que gosto, penso que gosto de outra e deixo essa para trás. Já me convidaram para coisas e digo que não. Algumas porque não me interessam, outras por não serem sobre o Porto. Tinha de vir uma troika muito forte para me obrigar a fazer o que não quero. Inventei outra frase: “A minha ignorância está cada vez especializada, só escrevo sobre o Porto.”

Esta entrevista encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO

No Porto

•19/11/2017 • Comentários Desativados em No Porto

#mr_helder_pacheco050

Um museu na Pasteleira

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Um museu na Pasteleira

Um dos problemas (ou defeitos?) do Porto é o atraso nas decisões importantes. Salvo as asneiras que, aí, são rápidas. A destruição do Palácio de Cristal ficou assente numa reunião de Câmara. E a do Jardim da Cordoaria foi superdiligente, tal como a da Avenida. As moradias setecentistas do Bonjardim desapareceram numa noite. Etc. Enquanto isso, vemos arrastar anos a fio decisões fundamentais para a melhoria da vida urbana (basta pensar na Avenida da Ponte) e os exemplos são às dezenas.

A inexistência de um Museu da Cidade era uma dessas situações. Desde que comecei a ser gente que ouço falar dele. Passaram câmaras de antes e depois de 74. E nada. Correram os anos e as águas debaixo das pontes. E nada. Europa fora, mundo fora, cidades grandes, pequenas e assim-assim têm o Museu da sua história. E aqui, nada. Até vilas e aldeias. Até freguesias. E aqui nada. Só promessas, planos e conversa. E, aqui, nada.

Umas vezes o museu seria num edifício único (vendo os de Londres e de Montreal, fiquei rendido a este modelo). Outras vezes seria repartido por núcleos ou pólos dispersos pela cidade. Era outro modelo. Mas o nada continuava.

Foi apresentado o projecto (em execução) do Museu do Porto aproveitando as instalações do reservatório de água da Pasteleira. Verdadeira relíquia industrial no Monte de Sobreiras, era o terceiro da chamada água da Companhia e abastecia o território até à Foz. Com um programa museológico explicando a história do Burgo desde o Cerco do Porto até à República, poderá fazer avançar a desconcentração dos recursos culturais da cidade, atraindo visitantes ao excelente e ignorado Parque da Pasteleira. Pela valorização de outros Portos que não a Ribeira e a Baixa, converti-me inteiramente ao projecto. E que a Invicta tenha, afinal, o seu Museu.

©helderpacheco2017

Ainda S. Bartolomeu

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Ainda S. Bartolomeu

Imaginem vestir 600 pessoas com trajos de papel confeccionados com a arte de alfaiatar. E arranjar voluntários para, durante meses, planificarem, talharem e coserem as indumentárias. E reunir figurantes para as vestirem e desfilarem até à Praia do Ourigo, com pompa e circunstância ou anarquia e humor, conforme as personagens. Conjugando o amor à causa da cultura, com tradição, solidariedade, orgulho bairrista e dedicação cívica. E, certamente, dádiva. Misturando tudo e adicionando maravilhamento, temos o Cortejo de S. Bartolomeu que, anualmente, percorre a Foz do Douro.

Esta festa ao apóstolo que, além de patrono de quem trabalha com peles, tem o condão de exorcisar os estados demoníacos, reveste particular importância. Porque reúne e sintetiza três tempos históricos e várias tradições: prolonga um milenar culto pagão das águas expresso no «banho santo»; revive, no séc. XXI, a romaria oitocentista com feira, merendeiros e forasteiros de perto ou de longe e representa, na sua feição actual, o exemplo perfeito de uma tradição inventada.

Inventada nos anos quarenta pelo incansável Joaquim Picarote e os seus amigos fozeiros, que nos legaram um cortejo com vestuário de papel único na Europa. Um cortejo e um espanto. Em época de indiferença, relações virtuais e solidões reais, comodismo tecnológico e uniformidade, ele afirma a diferença, a criatividade, o afã participativo, as conexões que cimentam o espírito da comunidade. E, céus! a alegria, oferecendo a milhares de pessoas aquele elemento tão ténue mas consistente chamado felicidade. Por um dia.

Sim. Este cortejo / festa / romaria e banho colectivo do S. Bartolomeu da Foz é um espectáculo de determinação e sentimento. E esta é a cidade dos nossos sonhos, afectos e fantasias. A cidade que ainda vale a pena.

©helderpacheco2017

Da cidade feliz

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Da cidade feliz

Nas andanças da modernidade, quase me sinto mal a falar de certos assuntos e a usar certas expressões. Como, por exemplo, «no meu tempo» ou «ainda sou do tempo» que, nos dias que deslizam por aí, tresandam a pau carunchoso e coisa pior (passadista será a mais «soft» – metendo palavra a preceito).

Não importa. Como os meus mestres de ver o Porto (Firmino Pereira, Alberto Pimentel ou Ricardo Jorge) falavam assim, vou em frente. Vou e digo que ainda sou do tempo em que se musicava nos jardins do Burgo. Uma das primeiras experiências de ar livre que vivi foi, quase de bibe e pela mão do avô Eduardo, a ouvir música no coreto da Cordoaria (no verdadeiro, da alameda dos plátanos, e não na falsificação que lá está.) Nele tocava a Banda do 18, do Quartel de S.to Ovídio.

Na Cordoaria, por ficar à mão, perto da Rua do Correio. Vieram depois os concertos na concha da Avenida das Tílias, no Palácio (mais de classe média, com um quarteto interpretando o que chamavam «música de salão» e os ingleses «light music»). Tardes inesquecíveis em que até as tílias eram odorosas (agora não lhes sinto o cheiro, mas devo estar a envelhecer). E havia cadeiras de jardim para nos sentarmos. O terceiro local de ouvir música era o Passeio Alegre, com referência aos refrescos de groselha, após, no chalet do Carneiro.

E veio-me isto à ideia, em turbilhão de infância e de saudade, a propósito da recente iniciativa de levar novamente a música aos coretos dos jardins portuenses. Não posso estar mais de acordo e mais contente. Afinal, se o passado passou e não vale a pena ressuscitá-lo, aproveitar dele o melhor de uma tradição futurível é dar provas de boa sabedoria. Porque a música nos jardins significava a cultura junto das pessoas, o fundamento de uma cidade feliz. E isso é o que nós queremos.

©helderpacheco2017

 

Por que razão?

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Por que razão?

A notícia veio de chofre, pelo Telejornal da manhã, à falsa fé. A magoar: «Morreu D. António, Bispo do Porto.» E deixou-nos perante a interrogação: como é possível? Expondo a nossa precariedade: «Sentamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos acaba.» (Joan Didion)

Sem se despedir, D. António Francisco partiu e assim ficámos carregados de espanto e de incerteza sobre o que valemos. (Não valemos nada – dizia meu pai, um homem sábio, significando que valemos pouco e tudo acaba.) Partiu, injustamente traído pelo seu coração, a ferramenta mais importante da passagem por esta cidade que, como me explicou, aprendera a amar.

Conhecíamo-nos dos encontros por aí, ao sabor do acaso: nos almoços do Rancho do Porto, nas aberturas anuais do meu Instituto, há pouco na Escola da Pasteleira. Ali confeccionavam os trajos de papel do cortejo de S. Bartolomeu. Disse-lhe que só em Portugal – onde continua a persistir alguma doçura de viver (ou de saber-viver) que nos distingue -, só neste país era possível um Bispo encorajar os voluntários da festa paganíssima do banho-santo. Riu-se e respondeu que teremos de fazer «uma interpretação inteligente destas coisas». Que a dedicação das pessoas e o seu entusiasmo deviam ser incentivados. Estava ali para isso e expressou-o num discurso tocante aos obreiros da festa.

Assim era D. António. Um homem simples, que mantinha o sotaque das suas origens durienses. Um erudito sem alardes. Um intelectual sem afectação. Um homem bom e disponível, sem populismos. Um humanista atento ao real e não só ao existencial. Que falta faz ao nosso Burgo! (Procuro entender o sem sentido da sua partida, mas falta-me a transcendência para encontrar a resposta. E não consigo perceber a razão por que «Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.». Jorge Luís Borges)

©helderpacheco2017