Novo livro – Porto Nos Dias do Meu Tempo

•07/10/2017 • 2 comentários

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VIVA O UNIÃO

•19/07/2018 • Deixe um Comentário

Nos finais do séc. XIX havia mais de mil colectividades no Burgo. Nos do séc. XX duas, três centenas. Hoje, não sei. Se houver cem, é um milagre. Televisão, computador, telemóvel e solidão substituíram a cidade fraterna.

Passei em S. Dinis a ver se ainda lá estava o União Francos Figueirense. Estava. Um cartaz na porta anunciava o Programa do 93.º aniversário do clube: 30.6.18 hastear da bandeira pelos sócios n.ºs 1 e 2; 8.7 Missa pelos sócios falecidos (no Carvalhido); 9.7., às 20.30 «Venha beber um copo à saúde de todos os Figueirenses.» E, em 30.9: Passeio convívio. Informava que aos domingos a sede abrirá das 2 às 8 da tarde, «à disposição dos Associados e filhos para jogarem Ténis de Mesa e Bilhar.

O União nasceu em 1945, da fusão do Figueirense Futebol Clube (fundado em 1925 e adoptado como data oficial) com o Sport Clube de Francos. Teve recinto desportivo e manteve o futebol amador e a formação. No atletismo, organizou meias maratonas do Porto. Ronda os 200 sócios e constitui espécie de centro de convívio e café de bairro. Os troféus na sala da Direcção honram-no.

O Francos Figueirense é, numa zona outrora densamente operária, sobrevivente da tradição associativa portuense. Representava os sectores da população que, tal como o Clube Portuense, o Ateneu ou a Associação Comercial, cimentaram os fundamentos de uma cidade com alma e coração.

Mas, disse-me o Presidente: «Isto tem tendência para acabar. A juventude gosta é de charros e de NET.» Não sei. Se calhar, além de reabilitar a arquitectura vai ser preciso reinventar um associativismo para os novos tempos.

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PROMOÇÕES VERBAIS

•19/07/2018 • Comentários Desativados em PROMOÇÕES VERBAIS

Recebi de um amigo uma lista de actividades que a pós-modernidade semântica utiliza ou virá a utilizar. Em tempos de «Comissários», «Curadores» e outros títulos de alto gabarito nos novos altares do progresso, propõem-se as seguintes designações modernas para antigas profissões: Operador de Gestão de Resíduos (sucateiro); Técnico de Colisões (chapeiro); Agente Técnico de Estacionamento (arrumador); Supervisora de Bem-Estar, Higiene e Saúde (mulher da limpeza); Distribuidor de Recursos Humanos (motorista de autocarro); Assessor de Engenharia Civil (trolha); Coordenador de Movimentações e Vigilância Nocturna (segurança); Técnico de Limpeza e Saneamento de Vias Públicas (varredor); Especialista em Logística de Combustíveis (empregado de bomba de gasolina); Consultor de Logística Alimentar (empregado de mesa); Conselheira de Assuntos Gerais (cartomante); Especialista de Fluxos de Distribuição (paquete); Coordenador de Fluxos de Entradas e Saídas (porteiro).

É, claro, uma paródia à evolução dos conceitos linguísticos no sentido de os tornar elevados a graus académicos prestigiantes. Mas, assalta-me uma dúvida: em lugar do pedantismo lexical que procura o reconhecimento social de actividades ainda consideradas secundárias, não seria mais sério, justo e eficaz acabar com a vergonha do trabalho precário, dos recibos verdes, contratos a termo, e terceirização (para não dizer «outsourcing»)? Não era melhor ter emprego certo e estabilizado para toda a vida e continuar a chamar-se «contínuo», em lugar das promoções verbais que, para muitos, não passam de mistificações?

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APAGOU-SE UMA ESTRELA

•06/07/2018 • Deixe um Comentário

Diziam os antigos que quando morre um poeta se apaga uma estrela. Desaparece na noite. E não é Vénus a que os pescadores da Foz chamavam Aurora, porque essa, tal como no Príncipe de Lampedusa, lá está sempre, esperando por nós. É outra. Sem nome. Desconhecida e quanto maior o poeta maior a escuridão que deixa em seu redor.

O poeta da estrela que se apagou é Albano Martins a quem devemos uma miríade de versos escritos na claridade, sem rebuscamentos (apreciados por quem prefere o encobrimento à simplicidade). E devemos admiráveis traduções da poesia grega (a partir da original). Sobretudo a monumental “Antologia Grega Clássica” e as antologias helenísticas reunidas em “Do Mundo Grego, outro Sol”, pautadas pelo rigor e a fidelidade ao espírito dos autores. Sem fazer da tradução uma «traição».

Beirão, guardando a consonância com as raízes, plasmou-as em versos onde muitos cosmopolitas deviam aprender que o universal está ao nosso lado: «Herdámos uma casa. Para nela morar. Para olhar, de seus verdes terraços, o horizonte do mundo. Uma casa chamada futuro. Chamada esperança», escrevia o poeta. E dizia tudo.

Além do mais, o Porto deve a Albano Martins alguns dos mais belos poemas sobre ele escritos. Assim: «Uma cidade / pode ser o nome dum país, dum cais, um porto, um barco / de andorinhas e gaivotas / ancoradas / na areia.»

Não. Não sei como vão ser os dias e os anos que ainda tiver pela frente, sem a sua presença – constante, sincera e sem artifícios. Quarenta anos de amizade, companheirismo e cumplicidade é muito tempo. Deixa marcas e uma saudade que magoa.

“Porque não chamar-lhe francesinha?” A história de como foi batizada a famosa iguaria portuense

•05/07/2018 • Deixe um Comentário

Júlio Couto comeu a primeira francesinha de sempre e é responsável máximo pelo nome que hoje já correu o mundo. O Observador foi falar com ele e conta-lhe como tudo aconteceu.

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“Carne, queijo, gordura e pão: a combinação imortal”, dizia Anthony Bourdain quando regressou ao Porto em 2017. Por muito que tivesse razão, a verdade é que sim, existem muitos pratos a cruzar esses ingredientes, mas nenhum deles consegue igualar a célebre francesinha.

O imaginário gastronómico português está cheio de curiosidades, histórias (muitas vezes rocambolescas) e os chamados fun facts que tanto jeito dão, por exemplo, durante uma partida de Trivial Pursuit. Particularidades como o facto do famoso prego no pão ter sido criado ao pé da Praia das Maçãs (Sintra) por Manuel Dias Prego ou que o pão-de-ló tem esse nome porque foi feito em homenagem a Ló, o filho de Abraão que foi salvo por anjos às portas de Gomorra, são exemplos de que há quase sempre uma história interessante por trás daquilo que comemos. A francesinha não é diferente e foi para conhecer melhor o passado desta gulodice que o Observador foi falar com Júlio Couto, o homem que a batizou.

“Eu não sei cozinhar, comecemos por aí”, disse Júlio Couto ao Observador numa chuvosa manhã de Junho. Sentado na sua poltrona, emoldurado por pilhas de jornais, revistas e folhas sem fim, o octogenário (tinha feito 83 anos há poucas semanas) apresentou-se. “Eu era economista, técnico de contabilidade, e isso dava-me um grande contacto com este e com aquele”, explicou. “Quando era novo”, gostava de se juntar com os amigos e saltitar por várias tascas e restaurantes do Porto, “por volta das seis e meia”, depois do trabalho, para “comer qualquer coisa” e “pôr a conversa em dia”. Um dos sítios que mais costumavam visitar era o restaurante Regaleira, vizinho do lado da Rua Sá da Bandeira.

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Daniel David de Silva era o proprietário desse espaço e dava-se muito bem com Júlio (“ele era um moço da minha geração, andávamos sempre juntos”). Motivado pela pobreza extrema, Daniel mudou-se para a Bélgica ainda novo e lá encontrou trabalho no ramo da restauração. “Ficou por lá uns bons anos” mas as saudades de casa falaram mais alto e acabou por regressar com a vontade de montar “uma casa de comidas” bem sucedida. “Ele trouxe a ideia do croque monsieur e tentou servir isso cá”, conta o anfitrião. A ideia não pegou, mas Daniel estava convicto de que dali podia sair alguma coisa boa. Algures no ano de 1952, Júlio e a “rapaziada” desaguaram no Regaleira, como era costume, e foram surpreendidos pelo ex-emigrante: “Ele disse-nos que tinha feito uma coisa nova, uma invenção, e queria que nós provássemos”, explicou. Em pouco tempo chegou à mesa uma sanduíche generosa, banhada a queijo derretido e molho alaranjado. Júlio foi um dos primeiros a provar e o resultado foi, no mínimo, amor à primeira dentada. “Ele tinha feito um prato do caraças”, clamou, mas havia uma dúvida: Que nome é que iam dar àquela iguaria?

“Quando acabámos de comer perguntei-lhe: ‘Olha lá, que nome é que vais dar a isto para servir amanhã?’”, disse o anfitrião. Daniel não se lembrou de nada, mas Júlio sim: “Naquele momento baixou a minha maldade toda [risos] e comecei a pensar: isto era uma coisa picante, muito agradável… Porque não chamar-lhe francesinha?”

À partida a ligação pode não fazer muito sentido, mas ele existe — pelo menos segundo o entrevistado. “Na altura as mulheres portuguesas eram muito conservadoras, mas as francesas não, eram bem mais liberais e confiantes”, relatou. Ora na sua cabeça, a junção de ideias foi simples: as “catraias francesas” faziam-lhe lembrar as características do prato e ficou assim. “Depois deste batismo não serviu de nada tentar chamar-lhe outra coisa qualquer.”

A invenção do senhor Silva foi um sucesso quase instantâneo. Júlio recorda que em pouco tempo “as pessoas começaram a fazer fila à porta do restaurante” e muitas vezes comiam mais que uma. O sabor intenso e o cariz pesado desta criação de Daniel estava em linha com os típicos sabores nortenhos e isso “poderá ter sido a chave do sucesso”. Escusado será dizer que também não tardaram a haver outros espaços a servir francesinhas, sempre diferentes desta original (que era feita com pão bijou e não com o já habitual pão de forma) mas igualmente populares. “Os empregados iam saindo para outros sítios e depois tentavam replicar a receita”, e um desses casos foi o do “gajo que saiu de lá e foi para Gaia, para um restaurante que fica logo à saída da ponte, à direita”, o café Mocabe. “Ele decidiu replicar a receita — à sua maneira — e passaram a haver francesinhas em Gaia. A coisa foi funcionando assim sucessivamente.”

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Hoje, a francesinha tem tanto de importante como de polémico. Todos os anos debate-se sobre qual é a melhor da cidade, discute-se a receita de molho mais perfeita, mas Júlio não dá relevância a nada disso. “Opa, não há receita nenhuma original, toda a gente faz a coisa à sua maneira. Não há um papel que diga ‘esta é que é a verdadeira receita”. Fiambre, queijo, linguiça, um bife de vaca, pão e molho são alguns dos elementos mais facilmente encontrados, mas a variantes são quase infinitas (“Até há uma que lhe espetam um camarão em cima, veja lá!”).

A do recém encerrado Regaleira (fechou portas há poucos dias porque foram “corridos” pelas pessoas que compraram o edifício onde sempre morou), a original, tem duas grandes diferenças: o pão, como já foi mencionado, e o facto de ter carne assada em vez de bife. Independentemente da forma como são feitas, as francesinhas estão intimamente ligadas a Júlio, que é democrático ao dizer que não tem nenhuma favorita, “gosta de todas”. Quando questionado sobre quantas já comeu, a resposta foi bastante incisiva: “Chiiiiii… tantas! E atenção, eu não as provei, eu comi-as!” Olhando para a sua idade e sabendo do elevado número de francesinhas que já comeu, fica no ar a suspeita de que talvez elas não façam assim tanto mal (por terem um alto teor de gordura, por exemplo) como se diz. Ainda bem.

Diogo Lopes / Observador / 10 Junho 2018

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

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POLÍTICA E BANHA DE COBRA

•04/07/2018 • 1 Comentário

Passei pela Cadeia da Relação e vi um pano onde escreveram: «Nasci na Vitória, posso morrer na Vitória?» Isto assim, nem mais, nem menos. E disseram-me que dísticos semelhantes vão apelando à permanência dos habitantes nos seus locais de origem.

A centrifugação de moradores para fora dos habitats onde residem está a espalhar-se – de Lordelo à Foz, Ramalde, Santo Ildefonso, Bonfim. Não chegou a deportação de portuenses, nos anos 80 e 90, assistimos agora, quando a requalificação do Porto atravessa o seu melhor período, ao reaparecimento de doença antiga.

O congelamento das rendas conduziu à degradação urbana e ao declínio da cidade. O empobrecimento de proprietários de edifícios ou andares como fonte de rendimento, conduziu ao seu abandono. Agora a pressão sobre os habitantes para abandonarem os sítios onde vivem destina-se a nova perversão: o aproveitamento para fins turísticos, a venda ou arrendamento em condições leoninas.

Entusiasma-nos a renovação da cidade (não a oriental, onde o ímpeto renovador ainda não chegou). Mas, numa obra notável e esquecida, de 1996, Fernando Namora escrevia que nos nossos olhos «pode andar a euforia do renovo, a sedução do risco, o acerto com o tempo (…) o gosto de ir em diante agindo.» (“Estamos no Vento”)

Todavia, a «euforia do renovo» deveria ser estruturada não só pela engenharia, a arquitectura, o mercado e o lucro mas – sem negar a importância de tudo isto – «ir em diante, agindo» com competência. Substituindo as políticas de banha de cobra por legislação activa que garanta o direito à cidade pelos seus cidadãos.

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BOLO DE S. JOÃO

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

Com o Bolo de S. João sucedeu um fenómeno ou um mistério de desaparecimento até hoje insondável. Todos sabemos que em Portugal não há festa sem doce e faltava-nos isso no dia do Santo Precursor, tão caro à cidade. Comíamos creme e pronto. Em 2004, por acaso, descobriu-se, numa notícia do JN, de 23.6.1901, que a Confeitaria Costa Moreira anunciava aquele bolo como «verdadeira especialidade desta casa». E assim continuaram os anúncios até 1949. E subitamente acabaram com a promoção tal como o doce até aí disputado por várias confeitarias. Porquê? Ninguém sabe. (Pelo menos eu não sei.)

Nascido e crescido na Invicta, nunca tinha ouvido falar em tal bolo, quanto mais prová-lo. Nada. Até que, graças aos esforços da UNIHSNOR e da APHORT e com a colaboração do Snr. João Oliveira, durante sessenta anos confeiteiro da Costa Moreira, que generosamente forneceu a receita original do bolo e o confeccionou expressamente, foi possível recuperá-lo. Com enorme sucesso. Ocorreu agora nova descoberta: um anúncio, de 23.6.1881, da Confeitaria Nova Brasileira, da Rua de St.º Ildefonso, comunicava a venda do bolo de S. João, a partir das 11 da manhã. Estamos, pois, diante de uma tradição anterior à vinda para o Burgo do bolo-rei (em 1882) e nada tem a ver com ele, como se pensava.

Portanto, tripeiros amigos meus: neste S. João que estamos vivendo toca a manter o costume que vem de longe. Comamos na noite ou no dia da festa o bolo inventado para tal efeito. Porque a alma da cidade, o seu carácter e diferenciação também são feitos de coisas assim. A ele, pois e Viva o Bolo de S. João.

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