A Ternura

•2019-03-10 • Comentários Desativados em A Ternura

As flores silvestres – e tão imprecisas – crescem, nestes campos inundados de vento. Quem irá colhê-las, estender as mãos, fechar os olhos e dizer palavras menos usuais?

Helder Pacheco, excerto de “A Ternura”, in “Os Dias Comuns”, 1990.

IMG_5327

Biblioteca de Assuntos Portuenses – Casa do Infante

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

casa infante

https://bibliotecacasadoinfante.cm-porto.pt

Júlio Couto, o alegre humanista que contou o Porto homenageando sempre as suas gentes

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Economista, homem do teatro, rádio e televisão e um dos grandes conhecedores e investigadores da história do Porto. Com Germano Silva e Helder Pacheco, formava “os três mosqueteiros” da cidade. Júlio Couto (1935-2020) morreu esta sexta-feira, vítima de covid-19.

JC

Júlio Couto fotografado para revista A Página da Educação, a quem deu uma entrevista em 2013. Foto: Ana Alvim

Tinha o ofício das contas, mas o coração foi sempre das letras – e da arte. Sem nunca deixar a economia e contabilidade, que lhe valiam o salário no fim do mês, Júlio Couto encheu a vida com tudo o resto: o teatro, a rádio, a televisão, os jornais, a poesia e muitos livros. E o Porto, sempre, cidade onde nasceu e à qual se dedicou, escrevendo várias obras sobre ele. Era um dos grandes investigadores da sua História e histórias – e jamais as contou apartado das suas gentes. Morreu esta sexta-feira, 24 de Abril, aos 85 anos, vítima de covid-19.

Foi numa ilha em Miguel Bombarda, hoje rua de galerias de arte, que Júlio Couto nasceu, a 12 de Março de 1935. Era “o mais velho de sete irmãos vivos” a habitar na ilha de minúsculas casas com “paredes finas” e sabia que o destino não lhe guardaria facilidades. Fez a instrução primária e rápido ganhou o vício dos livros. Mas aos 14 anos teve de fazer-se trabalhador: começou a acarretar sacos de cimento e a cumpria a tarefa de moço de recados num escritório na Rua dos Bacalhoeiros. O ordenado, conta no livro O Riso ao Virar da Esquina – memória de uma vida portuense, era curto e ia directamente para a mãe.

Nesse escritório na Ribeira, havia muitas máquinas de escrever – e Júlio Couto cobiçava-as, contou numa longa entrevista, em 2013, à revista A Página da Educação. Chegava à mesma hora da empregada de limpeza, antes do seu expediente, e ficava a escrever nelas. Assim aprendeu a mexer em teclados – e a pensar num futuro longe dali. Retomaria os estudos – com a ajuda financeira de um tio que vivia no Rio de Janeiro – à noite. E assim foi ganhando responsabilidades: “A determinada altura já era guarda-livros, depois técnico de contas e depois economista”, conta na mesma entrevista.

JC1

Júlio Couto faleceu aos 85 anos. Foi um contador da História do Porto. Foto Ana Alvim

Ainda menino, pelos seis anos, Júlio Couto já fazia teatro. Mais tarde, acabaria por entrar no Teatro Experimental do Porto e chegou a dirigir a secção de teatro do FCPorto, no tempo de Pinto de Magalhães como presidente e a promover espectáculos no Lar do Comércio, instituição onde viveu nos últimos anos e onde morreu esta sexta-feira. Júlio Couto tanto actuava como escrevia. Fez rádio – e o programa humorístico A Voz dos Ridículos –, esteve na RTP Porto, colaborou com jornais e revistas, sendo fundador da extinta Paisagem, foi pioneiro no Porto Canal, onde teve um programa sobre o Porto e outro sobre o fado vadio na cidade, colaborou com dezenas de colectividades portuenses. E escreveu vários livros, sendo o mais popular O Porto em 7 Dias, publicado nos anos 90, um roteiro de visita à Invicta numa semana, como se antecipasse o boom turístico que a cidade haveria de ter.

“Os três mosqueteiros”

Foi nos anos 80 que Joel Cleto, ainda estudante de arqueologia, se cruzou pela primeira vez com Júlio Couto. “Nesses anos nós chamávamos os três mosqueteiros ao Helder Pacheco, ao Germano Silva e ao Júlio Couto. Era gente de fora da academia, mas uma referência numa outra perspectiva da História. Amigos, todos muito diferentes, mas com a mesma paixão pela cidade”, aponta. Achando que “a Historia e património não são só monumentos e sítios”, Júlio Couto cumpriu um “papel social importantíssimo”.

Júlio Couto – Medalha de Grau Ouro de Mérito Cultural pela Câmara do Porto, que já nesta segunda-feira aprovou um voto de pesar pela sua morte – conhecia a cidade como poucos. Calcorreava as suas ruas, sozinho ou em passeios com portuenses e turistas. E em cada recanto encontrava um “cunho pessoal”, recorda Joel Cleto: “Fazer uma visita à cidade com ele era sempre conhecer as suas histórias também”.

O Porto

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Quero aqui dizer que admiro o Arq. Fernando Távora. Pela obra, pelo exemplo e influência na nossa arquitectura. E, sobretudo, pela dívida que o Porto tem para com ele, na defesa da Ribeira / Barredo contra a barbárie que ali se projectava, arrasando-o e construindo um silo-auto.

Mas isso é uma coisa, outra é concordar com a colocação da estátua do Porto, de costas para a Vitória, nas traseiras da casa / torre / memorial da Câmara medieval, junto à Sé. Tal facto, motivo de chacota pública, é das situações mais ridículas da cidade, que não a honram, nem ao arquitecto da obra.

A estátua do Porto foi encomendada em 1818 ao Mestre Pedreiro (e canteiro), João da Silva, que a terá esculpido segundo o modelo de João de Sousa Alão – o mais reputado escultor portuense da época. Granítica e figurando um soldado romano, a estátua foi colocada no frontão do edifício da Câmara, no Palacete Moreira Pereira, que rematava o lado norte da Praça Nova e seria demolido em 1918 para abertura da Avenida.

Aquela figura, pela simbologia e apelo ao lendário, entrou no imaginário popular como alegoria ao “Malhão”. A ele se cantava numa canção da Patuleia: «O Malhão da Praça Nova / Tem uma lança na mão / Para matar os Cabrais / Que são maus para a nação.»

É altura de se pôr cobro ao ridículo a que se encontra exposta a estátua, recolocando-a, pelo que representa e simbolizava, no sítio nobre para onde foi criada: a Praça. Não no local exacto onde se encontrava (esse pertence à Menina Nua que fica lá bem e dá gosto ver), mas junto do local da antiga câmara, na embocadura da Rua Magalhães Basto. Bem enquadrado, o «Porto» regressaria ao coração da urbe e os portuenses tinham mais um motivo para aumentar a auto-estima e não de se rirem. Aqui deixo, pois, a sugestão, individual e graciosamente.

Helder Pacheco, Dezembro 2012

Jogar prá frente

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Dizia meu pai, lojista da Baixa, acumulando a sabedoria do pequeno burguês portuense precavido, que os assuntos de família não são para discutir na praça pú-blica.
Dele herdei a aversão aos tiros nos pés (deixe-se tal actividade aos partidos e à campanha que se adivinha edificante) e à lavagem de roupa (suja ou limpa). Ainda assim, no início de nova temporada da alegria do povo e face às expectativas do meu reino azul-e-branco no campeonato em curso (de que – como dizia o snr. Araú-jo, do Bairro do Carvalhido – já não abichamos nada há dois anos), queria dar conta dos anseios clubistas.
Vêm de portistas acima de qualquer suspeita, indefectíveis na sua paixão, de-voção e persistência. Incorruptíveis. Um escreveu-me dizendo: «Quanto ao Nosso Glorioso F.C.Porto, tive que recordar a história do menino que andou na escola pela primeira vez à porrada. Disse então à Mãe que tudo correu bem: «levei mas também apanhei que me consolei». O Ex.mo Snr. Lopetegui perdeu há pouco por 2-1, mas diz estar contente, porque estamos a crescer. Foi o que nos disse durante toda a época passada!!!» O outro – com 90 anos de amor à camisola, tripeiro emérito e versejador nato – desabafou em quadras: «Desde os tempos de rapaz / O mijar é para a frente / Só a burra é que é pra trás / Porque é um mijar diferente. // Ora o nosso Porto amigo / Da forma que está a jogar / Acredite no que eu digo / Jamais golos vai marcar. // O “sistema” que chateia / Que enerva e arrelia / É o “pra trás” volta e meia / Num jogo de cobardia. // E pelo que temos visto / Já em tanta ocasião, / À verdade eu não resisto / Dou a minha opinião…»
Alerta, pois, ó gente da minha terra. Como dizia a minha amiga Joaquina: «Quem está habituado a ganhar não se resigna a ser perdedor». Sus! A eles, pelo Burgo e o Dragão.

©helderpacheco2015

DA IMPRENSA

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Há duas coisas que rejeito. Uma é que me contem ou enviem mails com anedotas de alentejanos, outra é que os ditos mails contenham jornais diários ou livros e até colecções de obras literárias.

As anedotas de alentejanos carregam a aleivosia de ridicularizar uma região duramente tratada (ou maltratada) ao longo de séculos. Povo e região admiráveis de carácter (basta ouvir o seu cante) e tradição cultural que resistiu à adversidade (ou emigrou) e nos legou um país único e diferente.

Quanto à pirataria informática de jornais e livros, é herdeira dos tempos em que alguns (nem sequer pobres ou desempregados) liam os periódicos nos cafés mediante o pagamento de uma taxa. Para pouparem, num acto amplamente praticado. Não admira: há dias, na T.V., ouvi alguém dizer que só tinha lido dois livros em toda a vida!

Este assunto diz-me muito pois comecei a editar o primeiro jornal (chamado “Revista Desportiva”) aos 11 ou 12 anos. Era semanal e fabricado à mão, em papel costaneira. Desde aí e até ao JN, não têm conta os sítios por onde andei. Desde os primeiros artigos (sobre educação) no saudoso “Mar Alto”, da Figueira da Foz, até Viana do Castelo, Castelo de Vide, Taveiro, Lisboa, Gaia, Póvoa, Aveiro. E por aí fora. A imprensa foi a minha escola de escrita.

Por isso considero que, neste tempo de sobressaltos, a construção da nossa capacidade de perspectivar o futuro passa pela sobrevivência de uma imprensa à altura dos desafios que enfrentamos. Estranhamente, fala-se pouco da importância do relançamento deste elemento fundamental da nossa vida colectiva. E da própria democracia.

©helderpacheco2020

BAIRRO DO LEAL

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

A OMS registou o termo «Infodemia», para descrever «as práticas informativas que promovem o pânico e as condutas incorrectas». Também temos tido disso, através dos (e das) que Javier Marias designa como «Entusiastas do Pânico». Mas, sejamos justos, são menos comparativamente com a comunicação espanhola (de que aquele articulista do El País dizia «Sem a má fé de muitos meios, a população teria ficado mais sossegada»). Não me apetece, pois, falar do Covid 19, mas projectar o futuro. Ou reinventá-lo.

E o futuro passa pela minha cidade. Vê-la melhor, mais justa, mais culta e habitada por gente falando à moda do Porto. Mas, para isso, são necessárias habitações para uma classe média condenada ao exílio. E um mercado do arrendamento não restritivo. Nesta matéria, um arquitecto amigo ligado ao imobiliário e a trabalhar para amanhã, estudando e planificando o sector, garantiu-me que muito alojamento local pode converter-se em habitação permanente.

E como não acredito no discurso «infodémico» sobre a impossibilidade de repovoar a cidades vitimadas pelo «efeito donut» (centros desertos e periferias super-habitadas) continuarei a defender a reabilitação (projectando a modernidade) de bairros como o do Leal. Nele viviam, no coração do Burgo, há poucos anos, dezenas de famílias – agora é uma ruína. Porque chegamos a isto quando, entre 1974 e 77, o SAAL ali iniciaria uma renovação exemplar? Eis, quanto a mim, a oportunidade soberana para fazer avançar – como o previsto – a construção de meia centena de habitações para, também no Leal, dar sentido ao renascimento urbano da cidade.

©helderpacheco2020

RUA DAS FLORES

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

Fui há dias à Rua das Flores matar saudades. Saudades de mim, pois durante anos lá passava. Do Marquês, descia o Bonjardim, atravessava S. Bento e estava na minha rua favorita. Conhecia-a de ponta a ponta. Comprava polvo seco na mais bonita mercearia do Burgo e queijos na queijaria mais abaixo. Cumprimentava o Tony, amigo de infância, dono de ourivesaria centenária (na esquina dos Caldeireiros). E assinava o ponto no alfarrabista Chaminé da Mota. E da Casa Orchidea, de flores artificiais, quando fechou, ainda comprei a tabuleta.

Escrevi saudades de mim porque, da rua antiga, fora a lembrança de algum comércio e seus lojistas, nada me deixa saudoso. O estacionamento era anárquico, o trânsito agressivo, os pavimentos incómodos, o edifícado calamitoso, os moradores raros. Bela mas decadente, o que não acontece agora.

Agora (e desde a reabilitação do prédio da Papelaria Reis) tudo mudou. Além de rua pedonal, a maioria dos edifícios foi reconstruída. Milagrosamente: a Casa dos Maias (do brasão), a dos Sousas e Silva (dando para a Travessa do Ferraz), a esplendorosa dos Constantinos (até à Rua da Vitória) e outras. Tudo impecável e asseado. Para nosso usufruto abriu o MMIPO (mostrando os tesouros da Misericórdia) e muito comércio de outrora foi substituído por novo comércio – algum de qualidade.

Todavia, para a Rua das Flores atingir o patamar da reabilitação de sucesso, falta resolver um problema: mais do que recurso turístico, acrescentar-lhe moradores já que, à noite, nos andares de cima, reina a escuridão. E reabilitação sem gente dentro, é cosmética. Ou cenário.

©helderpacheco2020