Lordelo, uma viagem pelo tempo

•2019-01-19 • Deixe um Comentário

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Prístinas vozes

•2019-01-19 • Comentários Desativados em Prístinas vozes

Vozes. Límpidas, vindas de antanho. Estridentes, veladas ou fortes como do cantor de ópera, mas sempre cristalinas. «Prístinas», lhes chamava Alfredo da Cunha, por serem do povo. Das funduras do tempo dos pregões ou dos bandos de rua anunciando as novidades.

Eram os cauteleiros (como o Manuel Bonifácio que não sendo o último, vai a caminho disso, e há dias o JN trouxe à colação como «Protagonista»). E os ardinas –intérpretes de árias tão melodiosas e refinadas, consoante o nome do jornal, que pareciam de Wagner ou de Verdi -, mais as peixeiras e as farrapeiras. E até o carteiro, que tocava à campaínha e se fazia sentir vozeando como «correio».

Desta humanidade ao nível do rés-do-chão resistem os cauteleiros e, uma vez por outra, em certos bairros, o homem da flauta pânica, amolador de tesouras, navalhas, facas e tudo o mais. Inclusive consertar varetas de guarda-chuvas. Mas até nisso a sociedade da Web Summit leva a melhor, pois com guarda-chuvas (e sóis) «made in china», quando se estragam, ficam nos passeios ou deitam-se no lixo.

Agora me lembro: já encontrei dezenas de vezes o Manuel Bonifácio, em Sampaio Bruno, seu poiso habitual. Ouvi-o apregoar a «sorte grande» dessa semana e – não sendo jogador – nunca lhe comprei uma cautela. Tenho de ajustar as contas com a História (que ele representa como expressão de uma época da cidade em vias de extinção) e comprar-lhe uma. Ao menos isso. Antes que esta tradição se acabe nas abas de um processo de mudança impetuosa que tem tanto a ver com a humanização do quotidiano como a flexibilidade da pedra na construção civil.

©helderpacheco2019

NO MONTE PEDRAL

•2019-01-19 • Comentários Desativados em NO MONTE PEDRAL

A Câmara do Porto quer «reaver o Quartel do Monte Pedral» destinando-o a habitação de «arrendamento acessível.» Já que o Estado nada faz, ao menos que deixe fazer.

O edifício começou a construir-se, em 1892, pela CMP, para Asylo-Escola D.ª Maria Amélia destinado a 200 rapazes em risco. O projecto correspondia ao actual corpo do Quartel. Todavia, a criação do Regimento de Cavalaria 9, no Porto, e a necessidade da sua instalação vieram complicar aquele intento, além das dificuldades financeiras do Município o levarem a suspender as obras.

Como o Ministério da Guerra procurava local para o Quartel e o do Asilo surgia como ideal, a Câmara via-se aliviada e os militares resolviam o problema. E chegaram a acordo. Em 22.10.1904, seria assinada a sua cedência ao Ministério da Guerra.

O escritura incluía várias cláusulas. A 1.ª, cedia o terreno, mas a 3.ª ressalvava que «caducará logo que ao terreno ou à construção que se fizer, for dado um destino diverso do estabelecido». E o Quartel foi construído. Em 5.5.1920, nova escritura cedeu mais uma parcela para a conclusão do Quartel, que «caducará logo que ao terreno ou à construção que sobre ele se vai fazer, for dado destino diverso daquele para que é cedido (…)»

Como, de militar, resiste um tanque ferrugento na sua porta de armas é a altura de serem cumpridas aquelas premissas. O edifício funcionalmente acabou. Que sirva para dar resposta às necessidades da cidade, transformando a inutilidade em habitação para portuenses que vivem no 3.º mundo. Apoio, portanto, aos objectivos da Câmara e venha o Quartel para o Bem Comum.

©helderpacheco2019

DECADÊNCIA E REGENERAÇÃO

•2019-01-19 • Comentários Desativados em DECADÊNCIA E REGENERAÇÃO

Pensam que as transformações em curso na cidade, são consequência do surto turístico? É verdade. Mas só até certo ponto e não com o peso que lhe atribuem.

Depois da classificação como Património da Humanidade, do Euro 2004 e da meia-capital cultural, o Porto entrou na decadência urbana, comercial, cultural. Em cidade-fantasma. Basta pensar em Mouzinho da Silveira, Carlos Alberto, Sampaio Bruno, 31 de Janeiro, Duque de Loulé, Ceuta, José Falcão e outras ruas que constituíam a indigência cívica.

E muitos tripeiros da alta, média e pequena burguesia – cimento de uma cidade que recusou o declínio – reagiram. Não foram os neo-salvadores que a retiraram da ruína. Foi ela própria. Os críticos da reabilitação podem vociferar, mas a cidade não lhes deve nada. Foram os precursores de um processo de regeneração urbana, os investidores que a puseram em marcha, os empreendedores que renovaram o comércio e converteram tradições obsoletas na regeneração de uma tradição dinâmica, que salvaram o Porto.

Não a partir dos perfeccionistas de aviário, mas a dos que acreditaram ser possível fazer ressurgir o Porto. Incomparável e indomesticável. Impõe-se agora, com olhos atentos, enfrentar os efeitos inesperados que atentam contra direitos dos habitantes e subvertem a identidade de alguns sítios. Mas essa é outra luta. Quem está a ganhar a guerra contra a destruição física da cidade, não pode assistir passivamente ao apagamento da sua alma. Vencer os desafios do desenvolvimento, eis a questão. A reabilitação do Porto não pode ficar pela arquitectura, a engenharia e a economia.

©helderpacheco2019

2019

•2019-01-19 • Comentários Desativados em 2019

Por esta altura, buscamos frases para enviar ou devolver os votos que se desejam para o Ano Novo. Poucos em papel – os velhos postais que já deixam saudades – e uma avalancha de mails e SMS. Sinais dos tempos. Mas, mais do que os pessoais, apetece-me inventar aspirações sobre o que gostaria de ver na minha cidade. Projectar (nem que seja utopia) quais os anseios que acalento para ela – tanto como de desejos individuais (de saúde, dinheiro e bons amigos). E quais os sonhos para um Porto ainda mais Porto?

Os meus são simples. Ei-los: abertura de via Nun’Álvares, cujo adiamento já é anedota; construção de prédios que tapem a parte nascente da pedreira da Avenida da Ponte (o lado poente ficará bem entregue requalificando o mercado de S. Sebastião); construção da linha do Metro do Campo Alegre – que faria o Burgo avançar para o séc. XXI; edificação de habitações diante das pedreiras da Arrábida (aos pedregulhos prefiro cidade); muitos mais turistas, todo o ano, no Porto – precisamos de um Porto para 12 meses; reabilitação e arrendamentos socialmente justos das partes do Burgo que ainda estão a cair de podres; avançar para o futuro com o Terminal de Campanhã e o super-futuro com o projecto cultural do Matadouro a saltar sobre a VCI até ao Dragão; transformar a VCI num Boulevard urbano e que o inefável salteador chamado Terreiro do Paço isente a CREP de portagens para que o maior pesadelo portuense deixe de nos afligir. Ah, e antes que me esqueça, como na canção (All I need for Christmas is you) tudo quanto preciso para o Ano Novo és tu.

E aos leitores desejo o mais feliz 2019.

©helderpacheco2018

NATAL

•2019-01-19 • Comentários Desativados em NATAL

Como os ingleses continuam a ler jornais de papel, sou fiel ao Financial Times. No “House and Home”, Stephen Bayley, director do London Design Museum, escreveu sobre o que “Sobrevive do Natal”. E critica o facto de «o ano inteiro ser a ascensão ou a descensão desta orgia cega de consumo, desta cruel gavagem humana». Não de alimentos, mas de compras. Mostrando-se céptico quanto à manutenção das tradições natalícias cita Hobsbawm e diz que como a maioria delas foi inventada no séc. XIX, o Natal não foge a algumas perderem sentido no séc. XXI.

Andei por aí a procurá-lo. Dos milhões de luzes previstas, contei muitos descontos e ruas apagadas. Uma escuridão. Azar meu. Milhares havia mas de automóveis passeando na Baixa. Até o Pai Natal entrou em crise. Eclipsou-se. Vi passantes com embrulhos, mas não tantos quantos pensava.

Da cidade ainda habitável, descobri várias feiras – inesperadas, no Infante, na Batalha, no Marquês e noutros sítios – tradições reinventadas porque feiras são de gente. E a árvore grande, enorme (os dois milhões devem ter-se concentrado nela) valia a pena ficar o ano todo.

E de súbito, encontrei o Natal: sobre a porta da igreja de Santo Ildefonso desenharam, com néon, o presépio. E num condomínio, em Alfredo Keil, debaixo das cores brilhantes da árvore, construíram outro, à antiga, com figuras de barro. Depois disto, para não comer perú de hotel, vou arranjar um bascalhausito com pencas e ler: “Um Tempo para Manter o Silêncio”, de Patrick Leigh. É o que nos resta: o silêncio de certa nostalgia que teima em dizer-nos algo que começa a escapar da nossa vida.

©helderpacheco2018

VINDIMA NA RIBEIRA

•2019-01-19 • Comentários Desativados em VINDIMA NA RIBEIRA

Como sabem, Paris é uma cidade provinciana. Aos olhos das vanguardas culturais e ainda pelo facto de nem sequer ter uma Web Summit própria. E, sobretudo, porque, em Setembro, em Montmartre, sítio super atrasado, onde subsiste uma vinha, fazem grande festa de vindima, sendo as garrafas da colheita pagas a peso de ouro pela parolada que não resiste à pinga do lugar.

Pois, no Porto, terra de província, também fazem uma vindima. Mais modesta, tem origem na ramada histórica (era eu pequeno e já existia) plantada numa lingueta do Cais da Estiva, por debaixo do Muro da cidade. A primitiva secou e foi substituída há cerca de 40 anos. Cresceu, floresce e todos os anos dá colheita. E impulsionou a fundação, em 1998, da Associação de Copofonia chamada “Os Cheios de Sede” que a trata com a ajuda da Câmara (estrutura, podadura, etc.) e faz a vindima em Setembro, num sábado de taina. Pisam as uvas como manda a lei, durante uma sardinhada. A fermentação em dorna demora uma semana ou mais. Sem pressas. Fora o que bebem no acto (ainda em «mosto»), produzem entre 15 a 20 (este ano mais) garrafões que distribuem pelos homens da Câmara e as festas locais (como o S. Martinho). E chega ao S. João!

Ignoro a qualidade da pinga (sabe a maresia e nevoeiro), mas uma coisa declaro: enquanto houver gente como “Os Cheios de Sede”, vindimando pelo prazer de fazerem a festa, a alma da cidade permanece viva. Não se preocupem os agoirentos para quem o espírito portuense está a morrer. Não morre tão depressa. E por aí, sem dar nas vistas, ainda há muito disto. Provinciano. Tal como em Paris.

©helderpacheco2018

VÃO TODOS

•2019-01-19 • Comentários Desativados em VÃO TODOS

Bem ando a dizer – até leio a necrologia no JN, para me aperceber dos amigos que partem -, que o Porto está a ficar vazio.

Não falo em reabilitação, em brilho comercial, em animação cultural (tiro o chapéu à Casa da Música pela dinâmica plural e multicultural que imprimiu ao seu projecto). Não falo em transformações urbanas para tornar a cidade mais atraente e consistente. Refiro-me à perda do património que faz de uma cidade, mais do que um conjunto construído, um polo de civilização e humanidade. Um espaço de interacções e descobertas. A perda de portuenses. Estão a ir alguns dos que marcaram o Burgo com a sua presença. O último foi o livreiro-alfarrabista Pedro Chaminé da Mota.

Por razões de geografia, para regressar a casa, descia à Baixa, percorria a Rua das Flores e, desde a abertura do seu primeiro estaminé, na velha casa do brasão dos Maias (finalmente em reconstrução), tornei-me visita assídua. Desde aí (há 30, 40 anos, o tempo mata-nos!), habituei-me a, quando precisava de um livro, recorrer ao Snr. Chaminé. Livro que ele não tivesse, não existia. Foi meu abastecedor e salvou-me, em diversas ocasiões, de situações embaraçosas. E mais: quando o livro era para tirar teimas ou consultar, emprestava-o. Depois cresceu, adquiriu um depósito, uma babel onde tudo quanto existia à superfície da urbe ia sendo guardado.

Embora Tânia Carrero tenha dito: «Afinal o Inferno existe, chama-se velhice» e o Pedro Chaminé estivesse no final da caminhada, por aquilo que representou e por tudo quanto nos ajudou a ler, merece, pelo menos, um aceno de despedida. E esta lembrança.

©helderpacheco2018