Varrer a Casa

O início do ano, quando Janus, deus das entradas, nos bate à porta, é altura de formular votos de saúde e fraternidade. E dizer «que seja melhor do que o que passou», expressa a desatenção a um pormenor: o que ficou para trás é nosso património, e o chegarmos aqui, foi o mais importante. Vivemos e a maravilha é essa. Confesso o meu embaraço para lhes formular votos de ano «cheio de prosperidade». Telejornais, comentadores e analistas encarregaram-se de nos roubar a esperança: 2011 vai ser péssimo com tudo a subir e a irem-nos aos bolsos. Se os prognósticos estão certos, vamos ficar de tanga. E, quando estamos a ser espremidos, custa desejar venturas aos companheiros de infortúnio.

Sempre acreditei que a vantagem de se conhecer a História era tornarmo-nos optimistas. Nenhum passado foi melhor do que o presente e se sobrevivemos colectivamente é porque, afinal, as dificuldades não impediram o progresso. Só que o conhecimento da História também nos faz compreender que problemas, incompetência e incapacidade atravessam o tempo e produzem os mesmos efeitos.

Por exemplo, em 29.9.1908, William Warre, portuense, ligado ao vinho do Porto, oficial do exército anglo-luso que combateu os franceses, escrevia a seu pai o seguinte: «Vivo sempre com portugueses e tenho conversado muito com eles. Alguns dos mais esclarecidos antevêem as consequências da actual governação e a extrema ruína do país. Falam com bom senso sobre a questão e aparentam sofrer com a situação, mas ninguém dá um passo em frente para denunciar o que está mal.» (Não parecem, palavras actuais?) Apontava que o governo do país se revelara incapaz «constituído sobretudo por generais aposentados, que nunca viram um inimigo, ou por juristas que, se sabiam alguma coisa do sistema jurídico do país, eram completamente ignorantes em política e finanças». E repare-se no diagnóstico: «(…) num país em que as finanças se encontram num estado tão deplorável, de tal forma que se vêem obrigados a pagar à polícia com os findos angariados dos donativos voluntários (…). Desde que chegaram ao poder, os seus decretos são tão pueris e débeis quanto se esperaria. Em resumo, todas as classes protestam contra a falta de rigor e a ignorância dos governantes, embora se deixem envolver numa incompreensível apatia e egoísmo.»

Os meus votos para 2011? No quadro democrático – de que não há alternativa – formar novo partido. Não do chá, mas da vassoura. O país precisa de ser varrido de alto a baixo, da esquerda à direita. Varrer a incompetência, a corrupção e o nepotismo, boys e girls, amesendados, aldrabões e vigaristas. Os que têm trabalho e não querem trabalhar (e oferecê-lo aos que querem e não o tem). Os fazedores de leis que converteram o edifício legislativo num empecilho da eficácia da Justiça. As Corporações, que desprezam o Bem-Comum.

E varrer os centralistas que tudo concentram na capital do Império e constituem obstáculo ao Renascimento do Burgo. Os fundamentalistas do património que preferem uma cidade congelada a procurarem pontes entre tradição e inovação. Os que pensam que progresso é cimento, asfalto e tecnologia em vez de educação, ciência e conhecimento. Varrer a casa, eis um bom desígnio para 2011.

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