Da malha e do malhar

Os espanhóis chamam-lhe “chinquillo” e jogam-no com 5 paus e 2 malhas de ferro. Chamavam-lhe os romanos fitu, jogando-o com 2 malhas e uma pedra servindo de meco. Pragmaticamente nós dizemos malha, e já está. Dantes, no Porto, jogava-se onde houvesse povo. Nos bairros e ilhas faziam-se campeonatos, em terrenos e largos que estivessem à mão. Contaram-me que, no Bairro Valongueiro – ao fundo da Rua da Alegria –, se disputavam duros prélios no terreiro do meio. A malha era o jogo atlético, querido dos tripeiros.

Ainda há poucos anos jogavam-na no Largo do Ouro e na Corujeira –, estádios da especialidade. No último, não sei o que sucedeu. O do Ouro, com a requalificação de 2001, sumiu. Evaporou-se. Foi riscado do mapa. Estas nossas requalificações de espaços públicos são demasiado elaborados para o meu entendimento. Acho que requalificam os espaços e esquecem os públicos – quero dizer, obra de estética, mas não de servir a gente. Dizem-me que ainda há jogos de malha num pinhal de Aldoar. É pouco.

Num país atrasado como a França, o jogo popular é a petanca. Pois nas traseiras da Câmara de Paris, existe um terreiro para a jogar. E em Nice, em Cannes,em St. Tropez.Emtoda a Costa Mediterrânica, em largos de cidades e vilas, há terreiros da petanca e jogam-na bravamente. Por cá, quem se lembraria de reservar um espaço de terra para jogar a malha? Mas isto sou eu, indígena da Vitória, com manias. Mas não me venham dizer que, quem quiser, pode jogá-la em qualquer jardim. Não é verdade. Um jogo deste tipo necessita – por razões de segurança – de locais próprios. Não é na Cordoaria, no Passeio Alegre ou no Marquês que se pode malhar no meco, ante a perícia dos jogadores.

O colapso da alma das cidades também acontece nestes pormenores, como o de já não se ver a vizinhança em renhidos campeonatos de malha, nas colectividades, entre elas e fora delas. A alma das cidades definha de apatia cívica, solidão, isolamento. A vantagem dos jogos públicos ou de salão – como as damas, as cartas, o bilhar -, que os portuenses praticavam, é que ninguém estava sozinho. Ninguém falava para dentro ou para o computador, com alguém virtual. Falava directamente, cara a cara, com um, dois, três, quatro ou mais companheiros.

A alma das cidades perde-se quando deixam de ser solidárias e comunicantes. O pregão dos cauteleiros que sobrevivemem Sampaio Brunovale mais do que 1 milhão de megawatts programados pela indústria do ser feliz no barulho. E o pregão da peixeira da Afurada que, às vezes, anda por aí a fantasmar as ruas vale 2 milhões. E a flauta do amola-tesouras-e-navalhas que conserta guarda-chuvas, a quem ninguém dá trabalho e ainda insiste em tocar pelos bairros, vale uma sinfonia em louvor do espírito do homem que, com a voz e as mãos, ganhava a vida com o suor do rosto. Honradamente.

Mas, insisto, não tomem muito a sério as minhas palavras. O apego à memória e à doçura de viver num tempo que andava devagar coloca-nos à margem destas eras em que todas as vigarices são possíveis, os golpes passam por esperteza e a mediocridade por paradigma educativo. (Comecei pela malha e vejam no que deu: acabei a malhar nos despautérios que nos rodeiam. Tenho de fazer uma lobotomia e adaptar-me…)


 
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